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A Mística do Papel

No imaginário brasileiro, a invenção do papel foi uma dessas descobertas chinesas que talvez tenha alguma relevância para a nossa história e cultura, junto com a pipa, o arroz, a pólvora e a bússola – ao menos, é quase isso que se resumo a apresentação dos chineses nas aulas de história nas escolas. Em breve, esse problema deverá ser resolvido com o fim das aulas de história nas escolas; mas estamos aqui para falar de papel, e não para fazer papel de bobos.

Obviamente, por isso, devemos colocar as coisas nos seus devidos lugares. Voltemos a invenção do papel. Ele não teria qualquer importância para nós – junto com a invenção do livro em 861 – se em 1453 Gutenberg não inventasse “de verdade” o livro impresso, dando origem a esse fenômeno único que foi a difusão da imprensa do Ocidente moderno para o restante do mundo inculto, que se debatia entre o neolítico e antiguidade. Felizmente, somos os herdeiros mais diretos dessas brilhantes tradições na América latina, à frente em europeuridade, norteamericanidade e civilidade em relação aos nossos vizinhos.

Assim sendo, já que esse texto não trata nem da China e nem de chineses – civilização que não é “nem viável, nem pertinente e nem relevante para a academia – é uma moda, e vai passar”, como me disse um acadêmico respeitável, cujos conselhos preciosos eu insisto em ignorar – então, eu poderei me dedicar a mística do papel, que gostaria aqui de abordar.
Durante dois milênios, praticamente, o acidente intelectual e científico dos chineses permitiu que o mundo dos livros se alterasse substancialmente – claro, depois que a Europa visionária vislumbrou seu potencial. É notável que no mundo de agora o papel ainda resista. Mas lembremos, a revolução eletrônica e a difusão dos livros digitais ainda é recente, e está em processo de ‘implantação’. O papel reinou praticamente absoluto por séculos, fomentando toda a carga mágica de que quero falar.

O papel tornou-se místico. Se algo está escrito nele, é porque ‘é verdade’. Quantas vezes algo já foi ‘provado’, numa discussão, porque estava impresso? A impressão consolidava a verdade do escrito, e o papel o comprovava. Em tempos recentes, pessoas começaram a publicar seus próprios livros e revistas, para que pudessem afirmar seus pontos de vista. No entanto, isso não basta: para a mágica ter poder, o livro precisa ser feito por outros, tem que ser eleito pelos outros como ‘verdade’. A autoria sobre o papel, quando reconhecida pelo outro, é o primeiro indício de seu poder. Por isso, o papel empresta sua força de modo direto.

Ele também precisa ocupar um lugar. Um livro volumoso é sagrado. Na estante, ele nos informa o seu poder pelo tamanho e número de páginas. Pode ser pequeno também, como uma relíquia ou talismã, desde que seja difícil de achar. Quanto mais raro, mais valioso também. O papel tem disso; quanto menos se tem, mais vale. Num mundo em que as coisas se valorizam pela disputa, ele se destaca pela raridade.

O papel virou um complemento físico. Rabiscar uma pena em papel grosso de cartão – e ouvir o som da pena arranhando, scratch scratch – é um prazer íntimo e inenarrável. Milhares de barrigas foram treinadas para servirem de suporte aos livros.

O papel sempre está pronto para ser lido. Não precisa ser ligado; podemos lê-lo ao acaso. Dispensa energia. E ainda, que cem livros possam estar dentro de um computador, uma estante desarrumada é um espetáculo deslumbrante da beleza do papel, com suas múltiplas capas coloridas, variados tamanhos, um apanágio de inteligência. Até mesmo os ignorantes admiram uma estante cheia, que denota algum status e poder, e sempre se perguntam se o dono dela leu realmente tudo aquilo.

Talvez, em breve, o papel perca gradualmente um pouco de sua mística. O charme inseguro das cartas cedeu bastante espaço para a rapidez eficaz dos e-mails. Curiosamente, ouvi algum tempo atrás que meus livros não tinham representatividade porque não foram impressos. Mais de cinco mil pessoas já haviam baixado um deles; outro, disponível em um blog, já tinha mais de cem mil acessos; mas porque não foi impresso, no papel, ele não existe ‘de fato’.

Gosto mesmo de pensar que não existo, pois; ser apenas uma alma penada, um espírito que vaga pelo mundo virtual proporcionando psicografias digitais. E tudo por causa dos chineses, essa civilização tão pouco importante a que eu decidi me dedicar. Ironia das ironias, os mesmos chineses agora revolucionaram a vida digital, realizando o sonho de milhares de pessoas de ter seu computador pessoal. Mais uma vez, eles atuam indisciplinadamente na história da humanidade, espalhando mercadorias e saberes.

E o papel? O papel ainda não me emprestou seu poder; eu não penetrei na sua mística; e ainda por cima, discordo do sacrifício das arvoras para que tantas bobagens sejam impressas, quando podem ser prensadas numa simples memória eletrônica. Não tenho fé no papel, apesar de crer que sua divindade. Mas Confúcio disse: ‘trate deuses e espíritos com respeito, mas não se envolva com eles’. É, acho que escrevo para não ser lido.

No entanto, ser lido, ou ‘reconhecido’, não é ‘reconhecimento’ de fato. Os passarinhos é que sabem sobre os jornais que forram suas gaiolas. É isso. 


Observação importante: esse texto é permeado de ironias. Pensei que seria interessante avisar, já que as dificuldades educacionais de hoje poderiam levar alguém a entendê-lo literalmente. Ainda bem que não está em papel, não é?

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