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A Biografia de Confúcio, por Sima Qian

BIOGRAFIA DE CONFÚCIO
孔子世家
Memórias Históricas de Sima Qian
Shiji 史記 de Sima Qian司馬遷

Por Lin Yutang 林語堂
A Sabedoria de Confúcio.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1958


Introdução de Lin Yutang

O que se segue é uma tradução da vida de Confúcio, constante do Shi-ki, escrita por Szema Ch'ien, que viveu cerca de trezentos anos depois do Mestre (145-85 (?) A. C.) A tradução desse documento é importante por duas razões. Primeiro, é a mais antiga e de fato a única apresentação biográfica coerente de Confúcio, e consta do grande livro padrão da história chinesa, tendo sido escrita por um homem reconhecido como o pai dos historiadores chineses, além de prosador exímio. A autoridade do Shi-ki é inquestionável e Szema Ch’ien viajou muito e visitou pessoalmente o lugar onde nascera Confúcio e falou com velhos cidadãos que mantinham viva a antiga lenda sobre Confúcio. Trata-se, portanto, de um esboço da existência de Confúcio o mais bem­ acabado que se poderia obter. Em segundo lugar, Szema Ch’ien era um espírito extremamente arejado e imparcial; portou-se como historiador, e não como advogado do Confucionismo a tomar partido nas questões. Embora manifestando sua profunda admiração por Confúcio não se fez adepto incondicional da escola confuciana. Daí resultou dar-nos-ele um retrato de Confúcio homem, mais que de Confúcio santo, e não poucos críticos confucianos já tentaram torcer o sentido de certas passagens dessa biografia com interpretações artificiosas, às vezes mesmo negando-lhe sem motivo a exatidão histórica. Em todo caso, podemos aceitá-la como um belo retrato de Confúcio, tal como cabia no espírito dos mais doutos letrados daqueles tempos, quase três séculos depois de Confúcio.


1.Antepassados, infância e juventude [551-523 a.C.]

Confúcio nasceu na cidade de Tsou, condado de Ch'angping, no país de Lu. Seu mais remoto ancestral era K'ung Fangshu (descendente em nona geração de um rei de Sung e ascendente de Confúcio em quarta geração). Fangshu foi pai de Pohsia, e Pohsia foi pai de Shuliang Ho. Ho foi o pai de Confúcio, em união extraconjugal com uma jovem de família Yen[1]: ela orou no monte Nich'iu e concebeu a Confúcio em resposta à sua oração, no vigésimo segundo ano do Duque Hsiang de Lu (551 A. C.). Quando Confúcio nasceu, apresentava uma notável saliência na cabeça, e por isto o apelidaram Ch'iu (quer dizer "monte"). Seu primeiro nome era Chungni, e o sobrenome K'ung ("Confúcio" significa "K'ung, o Mestre").

Logo que Confúcio nasceu, morreu-lhe o pai e foi enterrado em Fanqshan, na parte oriental de Lu (em Chantung). E assim Confúcio ficou em dúvida quanto ao lugar do túmulo de seu pai, pois sua mãe escondera dele a verdade. Enquanto criança, ele gostava de brincar de celebrar sacrifícios e realizar cerimônias rituais. Quando morreu-lhe a mãe, enterrou-a provisoriamente na Rua dos Cinco Patriarcas, até que uma anciã, a mãe de Wanfu de Tsou, informou-o da localização da sepultura de seu pai, e então Confúcio enterrou juntos seus progenitores, em Fangshan. Certa vez o Barão de Lu, Chi, oferecia um banquete aos letrados da Cidade, e Confúcio ia passando, ainda de luto. Yang Ho, um oficial sem caráter, acercou-se de Confúcio para intrigar: "O barão está dando um banquete aos letrados, e não se dignou convidar-vos”. Então, Confúcio partiu.

Quando Confúcio tinha dezessete anos, o Barão Li Meng adoeceu. Em seu leito de morte deu a seu filho, o Barão Yi Meng, o seguinte conselho: "K'unq Chiu (Confúcio ) é descendente de um grande fidalgo. A casa dos K'ungs foi destruída no país de Sung (os ancestrais de Confúcio foram expulsos por seus rivais e emigraram para o país de Lu). Seu grande antepassado, Fufu Ho, foi o primogênito do Duque de Sung, mas abdicou o trono em favor do irmão. que se tornou O Duque Li. Numa geração posterior, Chenqk'aofu assistiu os Duques Tai, Wu e Hsuan, de Sung, no governo. Sua humildade cresceu com suas três promoções sucessivas. Assim, a trípode da casa de K'ung ostentava esta inscrição: "Com a primeira promoção, curvo a cabeça; com a segunda promoção, curvo o pescoço; e com a terceira promoção, curvo a espinha, e ando pelos cantos, e ninguém ousa insultar-me. Aqui tenho o meu arroz, e aqui tenho a minha sopa, com que alimento a minha boca." Tal era a sua humildade. Ouvi dizer que os filósofos devem surgir das casas de grandes homens, embora eles não estejam no poder. Agora K'ung Chiu é jovem e um grande interessado em estudos históricos. Quando eu morrer, deves ir a ele e segui-lo." E quando faleceu o velho, o Barão Yi, seu filho, foi estudar com Confúcio, bem como Nankung Chingshu (certamente seu irmão mais moço). Nesse ano morreu o Barão Chi, de Lu, e seu filho Tai sucedeu-o no trono.

Confúcio nasceu de família comum e pobre, mas quando cresceu chegou a fiel do celeiro em casa do Barão Chi, fazendo-se notar pela excelência de suas medidas. Também lhe foram confiadas as reses e as ovelhas, e os rebanhos rapidamente se multiplicaram. Promoveram-no então a Ministro das Obras Públicas - mas logo deixou ele o seu país natal, Lu, e foi descerimoniosamente expulso do país de Ch'i, expulso de Sung e de Wei, e andou em dificuldades e em perigo pelos subúrbios entre Ch'en e Ts'ai. Ao cabo de tais andanças, tornou a Lu.

Confúcio media nove pés e seis polegadas de altura (a antiga unidade de medida havia de ser muito mais curta, pois ao Rei Wen atribuía-se uma altura de dez pés), e toda a gente maravilhava-se com a sua figura reconhecida como a de "um homem alto". O governo de Lu sempre fora cortês para com ele, e por isto ele regressou a Lu. Seu discípulo Nankung Chingshu pediu ao governante de Lu permissão para uma viagem à capital imperial, Chou. O Duque de Lu deu-lhes uma carruagem com dois cavalos e um pajem, e assim foram ambos a Chou, estudar as cerimônias e os rituais antigos; lá encontraram Laotse. Quando Confúcio preparava-se para a volta, Laotse despediu-se dele da seguinte maneira: - "Diz-se que uma pessoa rica faz
presentes em dinheiro e que as pessoas bem formadas dão presentes em conselhos, por isto quero presenteá-lo com um conselho: o homem brilhante e ponderado, vê-se muitas vezes em perigo por gostar de criticar os outros: um homem instruído e firme em seus argumentos, expõe-se a ameaças por gostar de revelar as fraquezas dos outros; não pense em si mesmo apenas como um filho ou um ministro, na corte."


2.Dos trinta aos cinquenta anos

Confúcio regressou então, de Chou, para a sua terra, Lu, e mais e mais discípulos acorreram a estudar com ele. Por essa época o Duque P'ing, de Chin, foi escorraçado; seus ministros, em número de seis, tornaram o poder e entraram a propiciar incursões armadas para leste do país. O Rei Ling, de Ch'u, (cujas terras ficavam a sudoeste de Lu) possuía um poderoso exército que dominava a China. Ch'i era um vasto país vizinho (ao norte). Lu era um país pequenino e fraco: se se aliasse a Ch'u, Chin haveria de zangar-se, e se se aliasse a Chin, seria a vez de Ch'u invadir suas terras; e se deixasse de fortalecer suas relações com Ch'i, também Ch'i invadiria o país... No ano vigésimo do Duque Chao, de Lu (522 A. C.), quando Confúcio contava já trinta anos (ou vinte e nove, pela contagem inglesa), o Duque Ching, de Ch'i, veio em visita a Lu com seu Ministro Yen Ying. E o Duque de Ch'i perguntou a Confúcio: - "Como é que o Duque Mu, de Ch'in, pode dominar os outros países, sendo o seu país tão pequeno e estando situado nos confins do Império?" E Confúcio respondeu:

- "Ainda que Ch'in fosse pequeno, grande era a sua ambição; e ainda que estivesse num confim remoto, seus interesses foram conduzidos de acordo com os princípios morais. O duque tirou Poli Hsi da prisão e elevou-o à categoria de nobreza; depois de confabular com ele por três dias, confiou-lhe o governo. Eis como o duque chegou ao poder: poderia ter-se feito rei e não apenas ditador dominando os demais Estados." O Duque de Ch'i gostou da observação de Confúcio.

Quando Confúcio tinha trinta e cinco anos (517 a. C.), o Barão P’ing, de Chi, desagradou ao Duque Chao, de Lu, numa questão com o Conde Chao, de Hou, a propósito de uma briga de galos; e o Barão P'ing, juntamente com os dois outros barões de Lu , o Barão Meng e o Barão Shusun, atacaram o duque; perdeu este a luta e fugiu para Ch’i, onde lhe deram um distrito em Kanhou. Pouco depois o país de Lu caiu em desordem, e Confúcio foi para Ch’i, onde serviu como secretário do Barão Chao Kao na esperança de estabelecer ligação com o duque de Ch'i. Também discutia com o Mestre de Música, em Ch'i: aí escutou a música de Hsiao (de bailado simbólico, atribuída a um antigo Imperador Shun, 2255-2204 a. C.) e tentou aprendê-la. Durante três meses absteve-se de carne; o povo de Ch'i ficou muito impressionado. Um dia o duque interpelou-o e Confúcio respondeu:

- "O rei devia ser como um rei, os ministros como ministros, os pais como pais e os filhos como filhos."
- "Ora!", retrucou o duque, e Confúcio prosseguiu:
- "Se o rei não é como um rei, os ministros não são como ministros, os pais não são como pais. e os filhos não são como filhos... como hei de comer, embora alimentos não falte aos país?" De outra feita, voltou o duque a interpelar Confúcio sobre o que seria um governo bom, e ele respondeu:
- "O bom governo consiste em restringir os gastos do Estado."
 A resposta agradou ao duque, e estava ele disposto a confiar a Confúcio a terra de Nich'i, quando o ministro Yen Ying lhe falou:
- "Os Ju (mais tarde identificados com os confucionistas) são maus exemplos a seguir, dada a sua loquacidade; e são maus súditos, dado o seu orgulho personalista. Suas doutrinas dificilmente se aplicariam ao povo, pela ênfase que dão aos funerais e pelo seu vezo de permitir que uma família vá à bancarrota apenas para custear um enterro dispendioso. Também são maus governantes, porque entram logo a pregar, a pedir e a tomar empréstimos. Desde que morreram nossos grandes homens e a Dinastia Imperial de Chou começou a decair, nossa música e os nossos rituais degeneraram ou ficaram parcialmente esquecidos; agora vem Confúcio com a sua insistência a respeito de vestes cerimoniais e detalhes de ritual e etiquetas da corte. Uma pessoa pode gastar a vida inteira em tais estudos sem chegar a esgotá-los, e pode levar anos e anos sem chegar a conhecer todos os rituais e cerimônias. Eu então pergunto se é aconselhável pôr Confúcio no poder e alterar os costumes do país, tendo em vista os interesses do povo." Depois disto o duque passou a receber polidamente a Confúcio, sem nunca mais consultá-lo sobre cerimônias e ritos tradicionais. Um dia o duque lhe disse, com a visível intenção de mantê-lo no país:
- "Não lhe posso oferecer o posto do Barão Chi, mas vou dar-lhe uma posição entre os dos Barões Chi e Menq." Os nobres de Chi conspiravam contra Confúcio, e este chegou a sabê-lo. O duque falou-lhe:
- "Lamento ser velho demais para pôr em prática as vossas doutrinas." Confúcio afastou-se e regressou a Lu.

Quando Confúcio tinha quarenta e dois anos (511 A. C.), o Duque Chao, de Lu, morreu no exílio em Kanhou. O Duque Ting substituiu-o: e no verão do seu quinto ano de governo. O Barão P'inq, de Chi, morreu, sendo sucedido por seu filho, o Barão Huan. A essa altura, conta-se que Confúcio era consultado, como historiador emérito, a respeito de certos objetos desenterrados. Uma dessas consultas foi sobre ossos animais descobertos durante a demolição de um muro da cidade; um dos ossos, dizia-se, era do tamanho de uma carruagem, talvez restos de algum dragão, e o rei interessado enviou de longe um mensageiro para indagar de Confúcio que ossos seriam aqueles - ao que Confúcio prontamente respondeu, com seus vastos conhecimentos de história antiga.

O Barão Huan tinha um secretário favorito, de nome Chungliang Huai, o qual tinha uma rixa com Yang Hu (também citados nos ANALECTOS como Yang Ho), e este último queria expulsá-lo da cidade, não o fazendo por intervenção de Kungshan Puniu. Yang afinal prendeu-o, e o Barão Huan protestou, e em vista disto Yang meteu-o na prisão e fê-lo assinar um compromisso, antes de soltá-lo: daí por diante, Yang procedia com a maior arrogância em relação ao barão. Mas por sua vez o Barão Huan Chi também usurpara a autoridade do duque, de maneira que o governo de Lu ficou entregue aos barões. O país mergulhou num estado de confusão moral, desde os fidalgos até os plebeus, e Confúcio resolveu não se imiscuir no governo. retirando-se, em vez disso, para estudar ou para editar livros de poesia, história, rituais e música. O mero de seus discípulos crescia rapidamente, e muitos procediam de longínquas regiões do país.


3.O Período da grande força [502-496 a.C.]

No oitavo ano de governo do Duque Tinq, de Lu (502 A. C.), Kungshan Puniu não se deu bem com o Barão Huan Chi, e aliou-se a Yang Hu para promover uma rebelião, destronar o primogênito do barão e fazer herdeiros do trono os filhos de suas concubinas, amigos de Yang. Para isto capturaram o Barão Huan Chi, que afinal conseguiu escapar; no ano seguinte Yang foi derrotado e fugiu para o país de Ch’i.

Confúcio contava então cinqüenta anos. Kungshan Puniu iniciou outra rebelião contra o Barão Huan, na cidade de Pi, e o Barão Huan enviou a Confúcio um pedido para que fosse vê-lo. Confúcio havia-se devotado, desde longo tempo, ao prosseguimento de seus estudos; achava-se maduro e bem, sem todavia saber exatamente por onde começar a aplicação de seus ensinamentos às práticas governamentais. Uma vez, disse: - "Os reis Wen e Wu chegaram ao poder, procedentes das pequeninas cidades de Feng e K'eo, e por fim estabeleceram o império de Chou. Pi é um lugar pequenino, eu sei, mas talvez deva tentar." E assim estava Confúcio prestes a partir, mas seu discípulo Tselu não se conformava com isso e procurou dissuadi-lo. Confúcio replicou: - "Já que o barão pede para ver-me, há de ter um plano em mente, e se ele me guindar ao poder poderemos chegar a realizar algo como a obra do Imperador P'ing" (que restaurou o poder da Dinastia Chou, iniciando a chamada Era Chou Oriental).
Afinal Confúcio não foi.

Mais tarde o Duque Ting nomeou Confúcio prefeito de Chungtu. Ao cabo de um ano a cidade tornou-se um modelo para todas as suas vizinhas. Daí Confúcio foi promovido a Secretário das Obras Públicas e do Trabalho, e por fim tornou-se Grande Secretário da Justiça. Na primavera do décimo ano do Duque Ting (500 A. C.), Lu firmou um tratado de amizade com Ch’i, e no verão desse mesmo ano, um ministro de Ch’i, chamado Li Chu, disse ao duque de Ch’i: - "Isto vai-se tornando perigoso para nós, estando Confúcio no poder em Lu." Então combinaram uma conferência amistosa entre os dois países, em Chiaku. O Duque Ting preparava-se para comparecer à conferência, em sua carruagem; mas Confúcio, na qualidade de primeiro-ministro, Falou-lhe: - "Tenho ouvido dizer que a conferências civis deve-se enviar uma delegação militar, e a conferências militares deve-se enviar uma delegação civil. Os governantes dos velhos tempos sempre se faziam acompanhar de uma escolta militar, quando em visita a um país estrangeiro; recomendo que levemos conosco os Secretários da Guerra, Direito e Esquerdo." O duque assentiu, e assim partiram rumo a Chiaku, com os Secretários da Guerra. No local onde o encontro haveria de dar-se foi armado um altar, circundado por três plataformas de terra concêntricas. As duas delegações encontraram-se, com as cerimônias de costume. Curvaram-se, uma diante da outra, e galgaram as plataformas. Depois de haverem libado a taça de vinho do cerimonial, um oficial de Ch’i adiantou-se e pediu permissão para apresentação de uma orquestra com elementos de várias regiões; o duque de Ch’i deu consentimento, e os músicos vieram promovendo um tremendo ruído - os dançarinos civis com seus leques e flâmulas de rabo de boi ou penas de faisão, os dançarinos militares com suas lanças, tridentes, espadas e escudos. Confúcio avançou então alguns passos, até quase a beira da primeira plataforma; arregaçou as largas mangas de sua roupa, e disse: - "A que vieram estes músicos bárbaros, quando os chefes de governo estão celebrando uma conferência amistosa? Solicito que eles sejam dispensados." O oficial de Ch’i tentou fazê-los voltar, mas os músicos recusavam-se a obedecer. Todos os olhos voltaram-se para o duque de Ch'i e seu Ministro Yen Ying. O duque viu-se em grande embaraço e acenou com as mãos para que os músicos evacuassem o local. Depois de algum tempo, o mestre-de-cerimônias de Ch’i aproximou-se e pediu licença para fazer executar música palaciana, no que o duque assentiu. Artistas e anões, a caráter, começaram a execução, e outra vez Confúcio acercou-se da primeira plataforma e disse: - "Pessoas vulgares, que procuram corromper os governantes, devem ser mortas. Solicito uma providência do mestre-de-cerimônias. O mestre-de-cerimônias mandou matar os atores, cujos membros foram separados dos corpos.
O duque de Ch’i achava-se grandemente envergonhado e impressionado, e achou que melhor seria regressar ao seu país. Falando em tom de grande ponderação, dirigiu-se aos seus ministros: - "Os homens de Lu ajudaram seu chefe a proceder como um gentil-homem, enquanto que vós me fiz estes agir como um bárbaro. Eis que cometi uma ofensa aos olhos do chefe de Lu. Que devo fazer?" Um oficial respondeu: - "Quando um gentil-homem se arrepende de seus erros, emenda-os com atos, e quando um homem vulgar se arrepende de seus erros, emenda-os com palavras. Se vos lastimais pelo que haveis feito, eu sugiro que vos emendeis com atos verdadeiros." Assim o duque de Ch’i devolveu as terras de Yun, Weniang e Kueit'ien, que haviam sido tomadas a Lu, como prova de arrependimento. No verão do ano décimo terceiro do Duque Ting (497 A. C.), Confúcio disse ao duque: - "Um súdito não deve possuir armamento privado, nem um senhor deve ter mais de cem "parapeitos" de terra" (cada "parapeito" representando trinta pés).

O duque nomeou então Tselu, discípulo de Confúcio, Secretário do Baronato Chi, e ordenou que se reduzissem as cidadelas dos três grandes barões. Primeiro a cidade de Hou, pertencente ao Barão Shusun, foi reduzida. O Barão Chi estava prestes a reduzir sua cidade de Pi, mas Kungshan Puniu e Sun Cheh sublevaram o povo de Lu para um ataque à sede do ducado. O duque e os três barões dirigiram-se ao palácio do Barão Chi e ocuparam o terraço do Barão Wu. A gente de Pi atacou-os aí, sem conseguir tomar-lhes a posição. A batalha recrudesceu em torno do duque, e Confúcio mandou que os fidalgos Shen Kouhsu e Yo Ch’i marchassem de encontro aos atacantes. Os rebeldes foram derrotados, e os soldados de Lu os perseguiram e castigaram em Kumi. Os dois Barões Shusun e Chi correram então ao país de Ch’i, e a cidade de Chi foi arrasada ao nível do chão. A cidade de Ch'eng, reduto poderoso do Barão Meng, seria a seguinte na ordem de arrasamento, e o magistrado de Ch'eng falou ao Barão Meng: ,- "Quando a cidade for demolida, o povo de Ch’i achará o caminho aberto para atacar Lu pelo norte. Além disso, Ch' eng é o baluarte da casa de Meng: sem Ch'eng, não haverá Mengs. Recuso-me a vê-la destruída." Em dezembro o duque sitiou a cidade, mas não a capturou.

No ano décimo quarto do Duque Ting (496 A. C.), Confúcio contava cinqüenta e seis anos. Do posto de Grande Secretário da Justiça, foi promovido ao de primeiro-ministro. Confúcio manifestou evidente prazer com a novidade, e seus discípulos falaram: - "Dizem que um gentil-homem não tem medo de desgraças e não se compraz no êxito." Ao que Confúcio redarguiu: - "Pois é assim? E não se diz também que uma pessoa é feliz por elevar-se a uma posição fora do comum? Nessa ocasião, fez executar a Shao Chengmao, um ministro que pusera o governo em dificuldades.. A0 cabo de três meses de exercício como primeiro-ministro, os vendedores de carne de porco e de carneiro já não adulteravam sua mercadoria, e homens e mulheres andavam pela rua em faixas diferentes. As coisas que se perdiam na rua não eram indevidamente apropriadas, e os estrangeiros que visitavam a cidade não precisavam apresentar-se à polícia, trafegando em Lu como em seu próprio país.

Quando o povo de Ch’i teve conhecimento disto, grande foi o susto: - "Se Confúcio permanece no poder, certamente Lu acabará por dominar os outros Estados, e quando for uma força dominante, nós, os vizinhos mais próximos, seremos os primeiros a sucumbir. Por que não firmar amizade com eles, presenteando-os com uma porção de terreno? O Ministro Li Chu propôs: - "Vamos antes procurar afastar Confúcio: se falharmos, então haverá ocasião de oferecer a Lu um pouco de terra." Assim escolheram oitenta raparigas, das mais formosas do país, habilitadas a executar a dança k'enq, com suas ricas vestes bordadas. Essas donzelas foram enviadas como dádiva ao governante de Lu, juntamente com cento e vinte esplêndidos cavalos; o fabuloso presente foi colocado diante do Grande Portão do Sul, de Lu. Por três vezes o Barão Huan Chi veio, em traje ordinário, ver o espetáculo; pensava que o duque aceitaria o presente, e sugeriu-lhe que fosse, por uma estrada perimetral, ver também. Assim o duque e o barão encaminharam-se àquele local, durante vários dias, negligenciando seus deveres governamentais. "Acho que é tempo de nos afastarmos", ponderou Tselu. Confúcio replicou: - "Espera um pouco; estamos quase na época do Sacrifício ao Céu, e se o duque tiver a lembrança de mandar as oferendas queimadas, para os ministros, após o culto público, preferirei ficar." Afinal o Barão Huan recebeu a oferta das raparigas de Ch’i, e por três dias não atendeu aos seus afazeres nem se lembrou de enviar aos ministros as oferendas do ritual. Então Confúcio partiu. Numa parada, na cidade de Tun, Shihchi falou, ao despedir-se: .­ "Mestre, sei bem que não mereceis nenhuma censura por abandonar Lu." Confúcio perguntou: "Posso cantar uma canção?" E cantou:

Cuidado com a língua da mulher,
Mais cedo ou mais tarde há de ferir;
Cuidado com visita de mulher,
Mais cedo ou mais tarde ela há de vir.
Ei hô! Ei hô!
Chegou a minha vez de partir.

Shihchi voltou e o Barão Huan perguntou-lhe:
"Que foi que Confúcio disse?" ShihChi contou a verdade, o barão exalou um suspiro e falou: - "O Mestre aborreceu-se comigo por causa destas prostitutas."


4.Cinco anos de andanças

Confúcio dirigiu-se ao país de Wei (a oeste de Lu) e parou em casa de Yen Tutsou, irmão da esposa de Tselu. O duque Ling, de Wei, perguntou quanto Confúcio recebia em Lu, sendo informado de que ele tinha um salário de sessenta mil alqueires de arroz; e o Estado de Wei passou a dar-lhe também sessenta mil alqueires. Depois de estar Confúcio em Wei por algum tempo, alguém falou mal dele ao duque, e este pediu a um cidadão, Kungsun YuChia, em uniforme militar completo, que passasse para dentro e para fora da sala ocupada por Confúcio. Confúcio entendeu-o como gentil insinuação, e saiu de Wei, onde permanecera por dez meses.

Foi então para o país de Ch'en (mais a oeste) e teve de passar pela cidade de K' uang. Y enk'eh, que ia na direção, apontou com o chicote para uma fenda na muralha da cidade e observou: - "Sabei que da última vez entrei na cidade por aquela brecha." Isto foi ouvido pelos nativos, os quais julgaram tratar-se de Yang Hu, de Lu, voltando àquela cidade. Yang Hu havia sido muito cruel para com os nativos de K'uang, e por isso eles cercaram a Confúcio. O Mestre parecia-se com Yang e foi seqüestrado, por cinco dias. Yen Yuen (ou Yen Huei), seu discípulo favorito, apareceu mais tarde, e Confúcio lhe disse: - "Pensei que havias sido morto." Respondeu Yen:  - “Como ousaria eu ser morto, enquanto viveis?" A situação ficou pior, e os discípulos tiveram receio, mas Confúcio falou: - "Desde que o Rei Wen morreu, não está a tradição do Rei Wen (a tradição moral do Rei Wen, que encarnava o sistema ideal de governo, segundo Confúcio) em minha exclusiva posse? Pois se for desígnio dos Céus que se perca essa herança moral, a posteridade jamais terá conhecimento dela. Mas se os Céus não quiserem que essa tradição se perca, que me poderá fazer a gente de K'ueng?" Confúcio teve então licença de partir, pedindo a um de seus seguidores, o Barão Wu Ning, que fosse servir ao governo de Wei.
Depois disto, atravessou P'u, onde se demorou mais de um mês, e regressou a Wei. Parou em casa de Chu Poyu (um gentil-homem idoso e culto, a quem Confúcio respeitava). A Rainha Nancia, de Wei, mandou a Confúcio uma mensagem, dizendo: "Os gentis-homens estrangeiros que honram o nosso país com a sua visita, sempre me vêm ver. Posso contar com o prazer da vossa presença?" Confúcio tentou esquivar­se, mas não o conseguiu: a soberana viu Confúcio detrás de um reposteiro de linho. Confúcio entrou e inclinou-se com a face voltada para o norte; a rainha fez uma dupla cortesia, por trás da cortina, cujos pendentes de jade tilintaram. Após a entrevista, Confúcio declarou: - "Eu não pretendia visitá-la, e nós nos avistamos com o mais perfeito decoro".  Tselu mostrava-se muito contrariado (pois Nancia era notoriamente devassa], e Confúcio jurou: - "Se fiz algo de mau, que o Céu me castigue! O Céu me castigue”.

Confúcio ficou mais de um mês em Wei. Um dia o duque passava com a rainha, numa carruagem guiada pelo eunuco Yung Chu, e Confúcio ia atrás, noutra carruagem (ou no assento traseiro) . Assim desfilaram pelas ruas, chamando a atenção do povo, e o Mestre observou: - "Nunca vi o povo ser tão atraído por virtuosos letrados como o é por mulheres bonitas." Confúcio considerou isso uma lástima, e saiu de Wei para Ts'ao. Nesse mesmo ano (495 A. c.) morreu o Duque Ting, de Lu.

Deixando Ts'ao, Confúcio foi para Sung, onde costumava estudar com seus discípulos as práticas cerimoniais, sob uma grande árvore. Um oficial militar de Sunq, Huan Tuei, queria matar Confúcio e cortou as raízes da árvore. Mas Confúcio de repente resolveu sair de Sunq, e seus discípulos o avisaram: - melhor nos apressarmos." Confúcio ponderou: - "Os Céus me incumbiram de um destino (ou missão) moral. Que me pode fazer Huen Tuei?"

Confúcio encaminhou-se então para Cheng (na moderna Honan Setentrional), e o Mestre e seus discípulos desgarraram-se uns dos outros. Como Confúcio se colocasse junto ao Portão Leste, sozinho, do lado de fora, alguns nativos disseram a Tsekung: - "Está, no Portão Leste, um homem de semblante parecido com o Imperador Yao, o pescoço lembra o de um antigo ministro Kaoyao, e os ombros recordam os de Tsech'an: do tronco para baixo, deve ser umas três polegadas menor que o Imperador Yu. Tem um ar desencantado, como o de um cão vagabundo, sem dono." Tsekung, relatou isso a Confúcio [quando voltaram a encontrar-se] , e o Mestre sorriu, dizendo: - "Não sei que descrições se fazem de minha figura, mas essa de eu parecer um cão vagabundo, sem dono, é boa - é muito boa!"

Confúcio foi então para Ch' en [Ch' en, Cheng, Ts'ai e Sung eram muito próximas todas], onde se demorou mais de um ano, em casa de Tsentse, magistrado da cidade. O rei de Wu (grande país a sudeste, no moderno Kiangsu) invadiu Ch'en e capturou três de suas cidades. Chao Yang invadiu Chuko (494 A. C); o exército de Ch'u sitiou T's'ai, cujos habitantes emigraram para Wu. Wu derrotou o Rei Kouchien, de Yueh, em Kuei Ch’i (mais a sudeste, no atual Chekiang). Na corte de Ch'en caiu um gavião, com uma flecha atravessada no corpo, e morreu. A flecha era feita de madeira k'u e tinha ponta de sílex, com um pé e uma polegada de comprimento. O duque de Ch'en mandou consultar Confúcio a respeito dessa flecha, e Confúcio esclareceu: - "Este gavião deve ter vindo de muito longe; essa é a flecha usada pelos bárbaros de Shushen. Quando o Imperador Wu conquistou Shang e construiu estradas através dos "Nove Yi" e dos "Homem Cento", bárbaros, impôs tributo às diferentes regiões, como sinal de perpétua homenagem. Os bárbaros de Shushen enviaram então o seu tributo em flechas de madeira k'u com pontas de sílex, medindo um pé e uma polegada. O imperador ofereceu as flechas à sua filha mais velha, em sinal de amor; ela era esposa de um Duque Yuhu, que se tornou o primeiro duque de Ch'em. Era hábito imperial dar presentes de jade aos parentes que tivesssem o mesmo sobrenome, como símbolo de afeição, e ofertar objetos de regiões distantes aos parentes que tivessem sobrenome diferente, a fim de que estes não olvidassem sua lealdade à Casa Imperial. Assim vieram ter em Ch'en as flechas dos Shushen: algumas hão de ser ainda encontradas nos velhos arquivos." E de fato, nos arquivos, acharam-se flechas semelhantes, como Confúcio havia dito.
Confúcio demorou-se em Ch'en três anos. Sucedeu que os países Chin (hoje Shensi) e Ch'u (hoje Hupei) estavam em luta e não raro invadiam Ch'en. Quando o país de Wu invadiu Ch'en e Ch'ang foi atacada, Confúcio falou: - "Ah, vamo-nos embora! Os moços de nossa terra, ou são brilhantes e vagabundos, ou simplórios e esquivos; mas pelo menos não perderam sua primitiva singeleza de caráter."

Assim Confúcio saiu de Ch'en, e ia passando pela cidade de P'u. Acontece que um tal Kungshu estava então promovendo uma revolução em P'u, e o povo rodeou Confúcio, tinha ele, todavia, um discípulo de nome Kungliang Ju, que o seguia com cinco carros. Kungliang Ju era alto, hábil, e notável pela sua bravura. Disse ele a Confúcio: - "Pois não é o destino? Da última vez que eu vos acompanhei a K'uang metemo-nos em encrenca, e agora complicamo-nos de novo. Desta vez vou brigar até o fim." Travou-se uma luta furiosa, e os nativos de P'u amedrontaram-se, prometendo libertar Confúcio desde que ele prometesse não ir a Wei - pelo que Confúcio jurou lá não ir. Saiu então pelo Portão Leste, mas dirigiu-se diretamente a Wei. "Ora, pode-se pois quebrar uma jura assim?" - inquiriu Tsekung. "Por certo,  foi uma jura feita sob coação, o que não agrada aos deuses" - respondeu o Mestre.

O duque de Wei ficou satisfeitíssimo ao saber que Confúcio estava de volta, e dirigiu-se aos subúrbios a fim de dar-lhe as boas-vindas. "Achais que eu poderia atacar a cidade de P'u?" - indagou o duque. "Sem dúvida" - respondeu Confúcio. E o duque: - "Meus ministros julgam desaconselhável. porque P'u nos serve de defesa contra Chin e Ch'u. De fato, não será desaconselhável atacarmos?" Confúcio replicou: - "Os cidadãos de P'u estão prontos a defender sua terra até o último homem, e as mulheres estão igualmente dispostas a defender suas casas. O que desejaríamos punir são quatro ou cinco líderes rebeldes." "Muito bem" - ponderou o duque, e P'u não foi atacada.

O duque estava já velho e não dava conta de seus afazeres, mas não tencionava colocar Confúcio no poder. Confúcio suspirou e disse: -"Se alguém me puser no poder, precisarei apenas de um mês (para estabelecer os fundamentos de uma nova ordem), e em três anos terei conseguido enormes resultados."

Então Confúcio deixou Wei. Um tal Pi Hsi era o magistrado de Chungmou (no país de Chin) , e o Barão Chien Chao, em luta contra Fan Chunghsing, atacou a cidade. Pi Hsi rebelou-se e mandou a Confúcio uma mensagem, pedindo-lhe que fosse ajudá-lo. Confúcio pensava ir, mas Tselu protestou: - "Mestre, eu ouvi, de vossa boca, que um gentil-homem não entra no país cujo governante tem má vida pessoal. Como é que ides agora ajudar esse rebelde Pi Hsi, em Chungmou?" Confúcio respondeu: - "Sim, aquilo eu disse de fato. Mas também se diz que uma coisa realmente dura não teme amolecer-se e uma coisa realmente branca não teme manchar-se. Serei, aliás, alguma cuia seca, para ficar pendurado a uma parede, sem comida (durante dias)?"

Confúcio estava tocando um instrumento musical de pedra, o ch'inq, quando passou por sua porta um homem com um cesto de vime e disse: - "Como pode alguém deleitar-se a tirar música de uma pedra, assim... Gente estúpida, não se enxerga: que hei de dizer de uma tal pessoa?"

Uma vez Confúcio estava aprendendo a tocar o ch'in (instrumento de cordas) com o professor de sica Hsiantse, e em dez dias parecia não ter avançado muito. O professor lhe disse; - melhor, agora, aprenderdes algo diferente." E Confúcio retrucou:  “A melodia eu já sei, a batida e o ritmo é que me falta aprender." Após algum tempo mais, o professor disse: "Agora já aprendestes a batida e o ritmo, vamos passar a outro ponto." "Ainda não aprendi a expressão"- reclamou Confúcio. Mais tarde, voltou o professor a falar: - "Agora já aprendestes a expressão." E Confúcio: - "Falta-me ainda conceber a personalidade do compositor." No fim de algum tempo, voltou o professor: - "Por trás dessa música há um homem, ocupado em profundas reflexões, e que às vezes olha mais longe, fixando o espírito rumo ao eterno." "Já sei: é um homem alto, escuro, e sua mente é como a de um construtor de impérios  - será alguém que não o Rei Wen, em pessoa [o fundador da Dinastia Chou]?" O professor de música levantou-se do seu assento e inclinou-se perante Confúcio, dizendo: - "Pois esta é a música do Rei Wen."

A essa altura Confúcio percebeu que nada tinha a fazer em Wei, e dirigiu-se a Chin para encontrar o Barão Chien Choa. Ao chegar à margem do Rio Amarelo, teve notícia da morte de Tu Mingtu e Shun Hua. Ficou parado, à beira da água, e suspirou: - "Como o rio é, belo: flui eternamente! Quis o destino que eu não o atravessasse." "Que quereis dizer?" - indagou Tse­ kung, aproximando-se. E Confúcio falou: - "Tu Mingtu e Shun Hua eram bons ministros de Chin. Antes de chegar ao poder, o Barão Chien Chao havia dito que insistiria em tê-los consigo; agora está ele no poder, e matou-os. Ouvi dizer que quando o povo provoca abortos ou mata crianças, o unicórnio recusa-se a aparecer em suas terras, e quando o povo esvazia o tanque para pegar peixe, o dragão recusa-se a pôr em harmonia os princípios de yin e yang (que regem a carência e a abundância), e quando o povo profana os ninhos dos pássaros e quebre-lhes os ovos, a fênix recuse-se a vir. Por quê? Porque um gentil-homem repudia os que matam seus semelhantes. Ora, se até os pássaros e os animais fogem do que não presta, com mais razões não o faria eu?"[2]

Então regressou Confúcio à aldeia de Tsou, e aí compôs uma peça musical para instrumento de cordas, intitulada Tsou Ts'eo, em homenagem aos dois bons ministros mortos.

Daí voltou para Wei, e parou em casa de Chu Poyu. Um dia o duque de Wei consultou-o sobre tática militar, e Confúcio lhe respondeu:  - "Sei algumas coisas sobre cerimônias e sacrifícios, mas das ciências da guerra nada sei." No dia seguinte, enquanto Confúcio falava com o duque, este casualmente desviou o olhar e fitou os gansos selvagens voando no céu, sem parecer dar atenção ao Mestre. Por isto Confúcio partiu, rumo a Ch'en.

No verão desse ano (493 A. C.), o duque morreu, sucedendo-o no trono seu neto Cheh, conhecido como o Duque Ch'u de Wei. Em junho Chao Yang dera abrigo a Kuei Huei, o primogênito, em Ch’i. [3] Yang Hu enviou então oito homens, trajando luto, para dar as boas-vindas a Kuei Huei, fingindo que vinham buscá-lo de volta ao seu ducado, em reconhecimento aos seus direitos; essa delegação carpia à maneira dos funerais, e em vista disso Kuei Huei permaneceu em Ch'i.

No inverno o Estado de Ts'ai transferiu sua capital para Choulai. Isso foi no ano terceiro do Duque Ai, de Lu (492 A. C.), quando Confúcio contava sessenta anos de idade. O Estado de Ch'i mandou então um exército para ajudar a Wei no cerco da cidade de Ch’i[4], onde estava exilado o Príncipe Kuei Huei. No verão, o templo ancestral de Huanli incendiou-se e Nan­kung Chingshu concitou o povo a conter as chamas. Confúcio encontrava-se em Ch'en, nessa ocasião, mas ao ter notícia do fato ponderou que certamente o templo ancestral de Huanli devia mesmo pegar fogo (porque o culto de Huanli era contra as normas da antiga ordem feudal). Mais tarde verificaram que Confúcio tinha razão.

No verão o Barão Huan Chi adoeceu e dirigiu-se à cidade de Lu. Ao avistar as muralhas, suspirou: - "Lu teve possibilidades de tornar-se um Estado forte, mas infelizmente perdeu-as porque eu ofendi a Confúcio." Voltou-se então para o seu herdeiro, o Barão K' ang Chi, e falou: - "Sei que, quando eu morrer, sereis o primeiro-ministro de Lu; quando o fordes, chamai Confúcio de novo ao governo." Poucos dias mais tarde faleceu o Barão Huan e o Barão K'ang o substituiu. Após os funerais, ia ele fazer vir Confúcio, mas seu irmão Yu falou: - "Nosso finado pai uma vez conferiu a Confúcio um posto de mando e ele próprio deixou de mandar, dando assim motivo de riso aos outros duques. Agora, se vais colocá-lo no governo outra vez e perdes a tua posição, também darás razão de riso aos outros chefes de Estado." "E quem sugeres, então?" - perguntou o Barão K'ang. "Manda buscar Jan Ch'iu" (discípulo de Confúcio) - foi a resposta. Saiu então um emissário à procura de Jan Ch’iu. Quando Jan Ch'iu estava prestes a partir, Confúcio disse: - "Se o povo de Lu convida Ch'iu, há de ser para outorqar-lhe autoridade de fato e não um pequeno cargo”. E ainda, nesse dia, falou: - "Vamos, vamos para casa! Os moços de nossa terra, ou são brilhantes e vagabundos, ou simples e esquivos. O material é bom, eu preciso moldá-lo," Tsekung sabia que Confúcio cogitava desse retorno, e ao despedir-se falou a Jan Ch’iu: - "Quando te achares no poder, manda buscar Confúcio."


5.Penúria em Ch’en e Ts’ai

Depois de Jan Ch’iu haver partido, Confúcio encaminhou-se de Ch'en para Ts'ai, no ano seguinte (491 A. C.) O Duque Chao, de Ts'ai, ia a Wu atendendo a uma convocação do rei. O duque havia mentido previamente a seus vassalos, ao mudar sua capital para Choulai, e agora que estava de viagem para Wu seus ministros temiam que ele fosse mudar a capital outra vez; e Kungsun P'ien atirou no duque e matou-o.

No ano seguinte (490 A. C.) Confúcio passou de Ts'ai para Yeh (outro pequeno Estado), e o duque de Weh interpelou-o quanto ao que seria um bom governo. Confúcio respondeu: - "O bom governo consiste em conquistar a lealdade dos cidadãos próximos e a simpatia dos cidadãos afastados." De outra feita, o duque indagou sobre Confúcio a seu discípulo Tselu, que não soube responder. Ao saber disto, Confúcio falou: - "Ah Yu (apelido familiar de Tselu), por que não disseste que sou um homem incansável na procura da verdade, que me esqueço de comer quando me entusiasmo com alguma coisa, esqueço todas as preocupações quando alegre ou feliz, e que não temo a velhice que vem chegando?"  

Saindo de Yeh, Confúcio voltou a Ts'ai. Chang­chu e Chiehni estavam juntos, arando o campo. Confúcio imaginou que fossem filósofos em retiro, e mandou Tselu indagar qual o caminho a seguir. "Quem é aquele que vai dirigindo a carruagem?" - perguntou Ch'angchu. Tselu respondeu: - "Aquele é Confúcio." K'ung Chiu, de Lu?" - tornou a indagar o outro, e Tselu respondeu que sim. "Ora, então ele devia saber o caminho." E Chiehni perguntou a Tselu: - "Quem sois?" "Sou Chung Yu." "Discípulo de K'unq Chiu?" Tselu assentiu, e Chiehni disse: - "Então o mundo está cheio de gente transviada mas sempre a ponto de mudar o atual estado de coisas? Ouvi ainda: em vez de seguir a quem evita certos tipos de pessoas, por que não aderir logo a quem evita a sociedade inteira?" Tselu contou isso a Confúcio, e o mestre suspirou: - "Pássaros e animais [ou os que tentam imitá­los] não são companhia ideal para nós. Se houvesse uma boa ordem moral no mundo em que vivemos, por que me preocuparia eu em mudá-le?"

Outro dia Tselu caminhava pela estrada e encontrou um ancião carregando um cesto de vime, a quem perguntou: - "Vistes o Mestre?" O ancião retrucou: - "Quem é o Mestre? Um homem que não usa os braços e as pernas para trabalhar e que nem sabe distinguir diferentes espécies de grãos!" E o velho enfiou seu bastão na terra e pôs-se a mondar o campo. Tselu relatou a Confúcio o que se passara, e ele conjeturou: - "Deve ser algum filósofo em retiro." Tselu voltou a procurá-lo, mas já ele havia desaparecido.

Confúcio andou por T's'ai uns três anos. O país de Wu estava em guerra contra Ch'en, e Ch'u viera em auxílio de Ch' en (isto foi em 489 A. C.). O exército de Ch'u acampara em Ch'engfu, e ao terem notícia de que Confúcio estaria em algum lugar entre Ch'en e Ts'ai, mandaram procurá-lo. Confúcio saiu a apresentar seus cumprimentos. Então os ministros de Ch'en e Ts'ai reuniram-se para confabular: - "Confúcio é muito hábil. Já descobriu as fraquezas dos governantes de várias nações. Agora tem estado longamente por aqui e não parece gostar do que estamos fazendo. Ora, Ch'u é uma nação poderosa e pretende usar Confúcio; se ele chegar ao poder, em Ch'u, nossos países ver-se-ão em dificuldades e nós, ministros, estaremos em perigo." Por isto, mandaram soldados a deter Confúcio pelos arredores. O grupo de Confúcio não tinha meios de escapar, e os mantimentos começaram a escassear; muitos caíram de cama, enfermos; Confúcio entretanto continuava a ler, e a cantar acompanhando-se com um instrumento de cordas, sem alterar-se. Com evidente raiva, Tselu dirigiu-se ao Mestre: - "Também o gentil-homem se vê em dificuldades, às vezes" E Confúcio replicou: - "Decerto, mas só o homem vulgar é que, ao se ver em dificuldades, perde sua personalidade e comete toda sorte de tolices. Tsekung ficou visivelmente impressionado com essas palavras do Mestre, e ele continuou, noutro tom: - Ah Sze, tu imaginas que eu aprendi uma porção de coisas e as tenho de cor?" E Tsekung: - "Imagino, pois não é verdade?" Confúcio disse: - "Não, o que eu tenho realmente é uma linha mestra que passa através de todos os meus conhecimentos."

Confúcio ficou então sabendo que seus discípulos estavam zangados e com o desapontamento na alma; chamou Tselu para dentro e o interrogou: - "Está no LIVRO DOS CANTARES: "Nem búfalos nem tigres, que erram pelo deserto" (uma comparação com eles próprios).  Achas errado o que eu ensino? Como é que eu me coloco, nesta situação?" Tselu respondeu: - "Talvez não sejamos bastante grandes e não tenhamos sabido granjear a confiança do povo. Talvez não sejamos bastante sábios e o povo não queira seguir nossos conselhos." Confúcio falou: - "Pois é assim? Ah Yu, se os grandes homens pudessem granjear sempre a confiança do povo, por que iriam Poyi e Shuch'i para as montanhas, morrer de fome? Se os sábios sempre tivessem os seus conselhos seguidos pelo povo, por que o Príncipe Pikan haveria de suicidar-se?"

Tselu saiu e Tsekung entrou, e Confúcio disse: - “Ah Sze, está no LIVRO DOS CANTARES: "Nem búfalos nem tigres,  que erram pelo deserto." Há erro em meus ensinamentos? Como me coloco nesta situação?"  Tse­kung respondeu: - "Os ensinamentos do Mestre são demasiado grandiosos para o povo, e eis por que ele não os segue. Por que não baixais um pouco das vossas alturas?" Confúcio falou:
“- Ah Sze, o bom lavrador semeia o campo mas não pode garantir a safra,  e o bom artesão esmere-se no trabalho mas não pode garantir que agradará a seus fregueses. Eis que não tendes mais interesse em cultivar a vós próprios, senão em serdes aceitos pelo povo... receio que não estejais buscando para vós mesmos o padrão mais elevado."

Tsekung saiu, entrou Yen Huei e Confúcio lhe disse: - "Ah Huei, está no LIVRO DOS CANTARES: “Nem búfalos nem tigres, que erram pelo deserto." Há erro no que ensino? Como me coloco nesta situação?" E Yen Huei falou: "Os ensinamentos do Mestre são tão grandiosos... por isto o mundo não os pode adotar. Não obstante, deveis fazer o possível para divulgar vossas idéias, Que vos importa se das não são aceitas? O simples fato de não as aceitarem prova que sois realmente um homem superior. Se a verdade não é cultivada por nós, a vergonha é nossa; mas se nos dedicamos exaustivamente à pregação de uma ordem moral e ela não é seguida pelo povo, a vergonha é dos que estão no poder. Que vos importa isso? O fato de não vos aceitarem mostra que sois um verdadeiro gentil-homem." Confúcio ficou satisfeito e falou sorrindo: - "Pois é assim? Ó filho de Yen, és um homem precioso, eu devia ser teu servo!"

Confúcio enviou então Tsekung a Ch'u, e o Rei Chao, de Ch'u, mandou um exército socorrer Confúcio, tirando-o assim de suas dificuldades. O rei ia dar a Confúcio terras medindo setecentos li (propriedades de vinte e cinco famílias, cada). Um ministro de Ch'u, de nome Tsehsi, comentou: - "Tem Vossa Majestade um diplomata mais hábil do que Tsekung?". O rei disse que não. "Tem Vossa Majestade um primeiro ministro como Yen Huei?" O rei disse ainda que não. “Tem Vossa Majestade um general tão bom quanto Tselu?” De novo o rei negou. “Tem Vossa Majestade um administrador como Tsai Yu?" Outra vez o rei disse que não. E o ministro prosseguiu: - "No entanto, o antepassado dos governantes deste país recebeu aqui a categoria de barão e originalmente suas terras mediam apenas cinqüenta li [li, cerca de um terço de milha]. Agora vem Confúcio, que leva o tempo todo a falar nos antigos regimes dos Três Grandes Reis e na tradição moral do Duque Chou e do Duque Shao... Como esperais que o nosso país continue a dominar milhares de milhas quadradas, de geração a geração, se Confúcio conseguir pôr em prática a sua utópica ordem social? O Rei Wen surgiu da cidade de Feng e seu filho, o Rei Wu, surgiu da cidade de K'ao, começando com um território de cem li apenas, mas acabaram por fundar um império sobre toda a China. Não acho que seja bom para o nosso país dar terras a Confúcio, com tão hábeis discípulos a assisti-lo." Isto mudou completamente a disposição do rei.

No outono desse mesmo ano (489 A. C.), o Rei Chao morreu em Ch'engfu. Havia em Ch'u um louco, chamado Chiehyu, que ao passar por Confúcio cantarolou assim:

Ó fênix! Ó fênix!
Que houve com o teu caráter?
Seja passado o que passou,
Mas concerta o que está por vir,
Pobre de mim! Meus sentimentos
Aos reis que existem por aí!

Confúcio desceu da carruagem para falar com o doido, mas ele fugiu correndo e assim o Mestre não pôde conversar. Então voltou Confúcio, de Ch'u para Wei. Era o ano quinto do Duque Ai, de Lu (ainda 489 A. C.), e Confúcio tinha sessenta e três anos de idade.


6.Outros anos de andança [488 -84]

No ano seguinte (488 A. C.) Wu e Lu promoveram uma conferência e cem reses foram levadas ao altar dos sacrifícios (sendo esse um número exorbitante e contra as formalidades da ordem feudal confuciana). O Ministro Pi de Wu, pediu ao Barão K'ang Chi para representar Lu, e, não querendo ir, o barão esquivou-se enviando Tsekung em seu lugar. Já Confúcio havia dito que os povos Lu e Wei eram primos (tendo sido irmãos os respectivos ancestrais); agora o sucessor do trono de Wei permanecia fora de sua terra, sem meios de estabelecer-se no país, e governantes das várias províncias andavam constantemente a cogitar de possíveis empreitadas.
Confúcio tinha então muitos discípulos no governo de Wei, cujo monarca almejava conseguir os serviços do próprio Confúcio. Tselu perguntou, uma vez: - "Se o governo de Wei vos chamasse ao poder, como havíeis de principiar?" Confúcio explicou: -"Começaria por estabelecer o correto uso da terminologia" (relativa a castas e títulos). "Deveras?" - retorquiu Tse­ lu, e continuou: - "Sois esquisito e pouco prático! Para que firmar a terminologia?" E Confúcio falou de novo:

- "Ah Yu, como és ingênuo! Se a terminologia não é correta, as coisas ditas perdem todo o sentido; se o que se diz não tem sentido, as ordens não podem ser cumpridas; se não se cumprirem as ordens, as normas próprias do culto e da sociedade (no ritual e na música) não se podem restaurar: se não se restauram as normas sociais e religiosas, falirá a justiça das leis [5]: quando falha a justiça legal a gente se perde sem saber o que faça ou deixe de fazer. Quando um gentil-homem faz alguma coisa, há de estar certo quanto à sua exata representação por palavras, e quando expede uma ordem, há de estar certo de que essa ordem poderá ser cumprida sem tergiversações. Um gentil-homem nunca emprega indiscriminadamente a terminologia."

No ano seguinte (484 A. C.)[6]  Jan Ch’iu, então administrador assistente no governo de Lu, dirigiu o exército do Barão K'ang Chi contra Ch’i e saiu vitorioso na batalha de Lang. E o Barão K'ang perguntou a Jan Ch’iu: - "Como chegastes a aprender a ciência da guerra? Através de estudos ou por temperamento?" Jan Ch’iu respondeu: "Aprendi com Confúcio." Indagou o barão: - "E que espécie de homem é Confúcio?" Jan Ch’iu falou: - "Se o colocásseis no poder, sua reputação haveria de impor-se imediatamente. Poderíeis aplicar ao povo os seus ensinamentos ou apresentá-los aos deuses, e nem os deuses achariam defeitos neles. Tudo o que ele almeja é levantar um país à condição de perfeita ordem moral. Ainda que lhe désseis poder sobre 25.000 famílias, ele jamais abusaria disto em proveito próprio." "Devo convocá-lo?" ,.- inquiriu o barão. E Jan Ch'iu replicou: - "Não, convocar não - seria indelicado tratá-lo como a qualquer um; devíeis combinar com ele a sua vinda." Sucede que K'ung Wentse, de Wei, ia atacar T'aishu, e pediu a Confúcio conselhos táticos; Confúcio declinou polidamente, alegando nada saber do assunto. Após a entrevista, Confúcio preparou sua carruagem para partir, dizendo: - "Um pássaro pode escolher a árvore para morar, mas a árvore não pode escolher o pássaro." K'ung Wentse procurou, ainda assim, persuadi-lo a ficar. O Barão K' ang Chi despediu Kung Hua, Kung Pin e Kung Lin, e enviou presentes a Confúcio em sinal de boas-vindas:
Confúcio tornou então à sua terra, Lu, longe da qual passara quatorze anos (496A84 A. C.) [7]


7.Trabalhos de Ilustração e hábitos pessoais de Confúcio

O Duque Ai, de Lu, consultou-o sobre questões de governo, e Confúcio respondeu: - "O segredo de um governo está em escolher bem seus ministros." O Barão K' ang consultou-o sobre questões de governo, e Confúcio respondeu: - "Ponde homens corretos no poder e usei-os como exemplos para os incorretos, e os incorretos hão de voltar à correção [8] ." O Barão K'ang mostrava-se preocupado com bandidos e ladrões que infestavam o país, e Confúcio lhe disse: ,.- "Se de vossa parte não gostais de dinheiro, podeis distribuí-lo aos ladrões, e eles não o terão de roubar."

Mas afinal, nem o governo de Lu achava meios de elevar Confúcio ao poder, nem ele próprio parecia desejoso de colocação oficial. Por esse tempo declinara o poderio dos imperadores Chou, as formas de procedimento social e religioso ("ritual e música") haviam degenerado, o estudo e a ilustração estavam em decadência. Confúcio pesquisou o cerimonial religioso e os documentos históricos das três dinastias (Hsia, Shang e Chou), e configurou os acontecimentos desde os imperadores Yao e Shun até à época do Duque Mu, de Ch’in, numa disposição cronológica. E certa vez comentou:

- "Eu seria capaz de falar sobre a ordem feudal (li ou "ritual") de Hsia, mas não há bastantes costumes remanescentes na cidade de Chi (governada pelos descendentes dos Hsia). Eu seria capaz de discutir a ordem feudal da Dinastia Shang (notoriamente governada por sacerdotes), mas não há bastantes costumes remanescentes na cidade de Sung (governada pelos descendentes dos imperadores Shang). Se houvesse bastantes vestígios eu seria capaz de evidentemente reconstituir tudo." Fez um levantamento das alterações nos costumes entre as dinastias Hsia e Shang, e, depois de observar como se modificaram tais costumes com a Dinastia Chou, falou: _ "Posso até predizer como será o desenvolvimento da História, por uma centena de gerações," Verificou que certa dinastia (Shang) representava uma cultura rica em formalidades cerimoniais, que outra (Hsia) representava uma cultura de vida simples, e que a Dinastia Chou combinara e mesclara as duas culturas precedentes de maneira equilibrada e perfeita; e assim decidiu escolher por ideal a cultura Chou"[9]

Nesse sentido preparou Confúcio uma série de obras históricas (por exemplo, o atual LIVRO DA HISTÓRIA) e profusa documentação sobre Etnologia e costumes antigos.

Discutindo música, com o Grande Mestre de sica, de Lu, disse uma vez: - "Os princípios da Música devem ser conhecidos. Uma execução deveria começar tranquilamente: desdobrando-se em perfeita harmonia e clareza, e afinal culminando pela continuação ou repetição do tema. Noutra ocasião disse também: - Depois de meu regresso, de Wei a Lu; tornei-me capaz de restaurar a tradição musical e classificar a música de sung [partituras cerimoniais] e ya (música clássica de Chou ) , e de restituir aos cantares as respectivas melodias originais . Na antigüidade havia mais de três mil cantares, mas Confúcio eliminou as duplicatas e selecionou os que se apresentavam com boa forma[10]. A coleção começava com os cantos de Ch’i e Houchi [ancestrais mitológicos dos imperadores Chou], cobria todo o largo período dos reis Shang e Chou, e estendia-se até à época dos tiranos Yu e Li. Abre-se com um cantar de amor conjugal, e a propósito se diz: "a canção Kuanchih abre a série de Fenq, Luming abre a série do Pequeno Ya, Wenwang abre a série do Grande Ya, e Ch'ingmiao abre a série de Sung."  Confúcio cantava, ele próprio, as trezentas e cinco canções, tocando as respectivas músicas num instrumento de cordas, para verificar sua adequação aos tipos hsieo, wu, ya e sung. Graças aos seus esforços a tradição da música e dos rituais antigos foi assim salva do esquecimento e transmitida à posteridade, como elementos auxiliares na realização do ideal confuciano que visava um governo de reis e o ensino das "Seis Artes".[11]

Confúcio, velho, sentiu-se atraído para o estudo do Yiking, ou LIVRO DAS MUTAÇÕES - com o seu Prefácio, T'uen, Hsi, Hsienq, Shuokue e Wenyuan. Leu o YIKING a ponto de puir-se o couro (que unia as inscrições de bambu), que teve de ser mudado três vezes: e ele só dizia: - "Dei-me alguns anos mais para estudar o YIKING, e então eu ficarei conhecendo bem o sentido da mutação nos fenômenos humanos."

Confúcio lecionava poesia, história, cerimonial e música, a 3.000 alunos - dos quais 72, como Yen Tut­ sou, dominavam as "Seis Artes" (a referência é certamente às "Seis Clássicas"). Grande número de pessoas vinha estudar com ele.

Confúcio ensinava quatro tipos de coisas: literatura, conduta humana, autenticidade pessoal, e honestidade nas relações sociais. Condenava (ou tentava por todos os meios evitar) quatro coisas: arbitrariedade de opiniões, dogmatismo, estreiteza de espírito, e egotismo. Mostrava interesse e cuidado com respeito a três circunstâncias: o banho cerimonial (na preparação para os cultos), a guerra e a enfermidade. Raramente falava sobre lucros, desígnios do Céu ou destino ou fatalidade ou sobre o "homem de verdade". Se um indivíduo não se mostrava profundamente inclinado ou determinado a encontrar a verdade. Confúcio não tentaria explicar e estimular-lhe o pensamento; se lhe dizia uma quarta parte do que teria a dizer e esse indivíduo, por si mesmo, não chegasse a perceber as três quartas partes restantes. Confúcio não tornaria a ensinar-lhe coisa alguma.[12]

Em sua vida privada[13], na aldeia onde nascera ou com a sua gente, era gentil e cordial - como alguém que não era de muito falar e que entretanto, nos lugares de culto público e nas cortes, mostrava-se loquaz, escolhendo minuciosamente as palavras. Na corte, falava serenamente, respeitoso para com os superiores e quase afável para com os subalternos. Ao entrar num recinto público, era seu costume curvar-se e logo avançar rápido para a frente. Quando lhe chegava um mensageiro do rei, assumia um ar grave; e quando um rei o convocava, ia sem esperar pela carruagem. Quando a carne ou o peixe não estavam frescos, ou quando não eram bem cortados, Confúcio não os comia. Quando a esteira não estava bem estendida, ele não se sentava. Em companhia de pessoas de luto, jamais comia até locupletar-se: e se havia de chorar (em cerimônias fúnebres), não cantava no mesmo dia. Ao avistar pessoas enlutadas ou quando passava por algum cego, alterava-se-lhe o semblante, ainda que se tratasse de uma criança. "Nunca saí a passeio com três pessoas sem achar que pelo menos uma delas tivesse algo a ensinar-me" - dizia. E ainda:- "As coisas que me preocupam e temo, são: que eu me tenha esquecido de aperfeiçoar o meu caráter, que eu tenha negligenciado meus estudos, que eu não tenha sido capaz de seguir o caminho certo percebido por mim, e que eu não tenha sido capaz de corrigir meus próprios erros." Quando ouvia um homem cantar, e gostava, pedia-lhe que repetisse, e então fazia ouvir também a sua voz nos estribilhos. Recusava-se a falar e discutir sobre mitologia, proezas físicas exibicionistas, pessoas insubordinadas, e espíritos sobrenaturais.[14]

Sobre Confúcio, disse Tsekung: - "O Mestre ensinava-nos literatura e ilustração: isto pôde-se aprender com ele, o que não se pôde aprender com ele, o que não nos ensinou, foi o que pensava sobre a Natureza (ou o Céu) e seus desígnios." Yen Yuan, ou Yen Huei, suspirava e fabulava: - "Levantais a cabeça e o fitais, e ele vos parece altíssimo; tentais penetrá-lo e parece duríssimo; dá a impressão de estar à vossa frente e de repente o tendes atrás de vós. O Mestre é muito bom, disposto sempre a conduzir e ensinar alguém. A mim ensinou a tornar-me maior, lendo boa literatura, e a controlar-me pela observância da conduta adequada. Dou-me por encaminhado, mas depois de ter feito o máximo que podia e desenvolvido o que havia de melhor em mim, algo ainda o Mestre reserva que eu não consigo apreender. Por mais que eu faça para chegar à sua condição, não há meios." Um moço de Tah­siang chegou a dizer: - "Grande é Confúcio! Tudo sabe, e em nada se especializa." Ao ter conhecimento disso, Confúcio ponderou: - "Em que me hei de especializar? Em manejar arco e flecha, em guiar carruagens?”  Tselu falou: - "De si próprio, o que Confúcio diz é que não ingressou no governo e assim teve tempo bastante para estudar as diferentes artes e a literatura."

Na primavera do ano décimo quarto do Duque Ai, de Lu (481 A. C.), houve uma caçada; e o guia do Barão Shusun, de nome Chushang, pegou um estranho animal que foi tomado como sinal de má fortuna. Confúcio viu-o e declarou que era um unicórnio, e então levaram o animal para casa[15]. E Confúcio falou: ­ Ai de mim! nenhuma tartaruga ostentando mágicos anagramas apareceu no Rio Amarelo, nenhum sinal sagrado tampouco saiu do Rio Lo... Acabou-se!” [16] Quando morreu Yen Huei, Confúcio disse: - "Vejo que o Céu vai tirar de mim a minha missão." E ao ver o unicórnio, durante aquela caçada, falou: - Isto é o fim!", e suspirou, terminando: .- "Não há no mundo quem me compreenda." Ouvindo-o, Tsekung o interpelou: - "Por que dizeis que não há quem vos compreenda?”. E Confúcio respondeu: "Não culpo o Céu, nem culpo a Humanidade... O que tenho feito é o máximo que posso para adquirir sabedoria e atingir a um ideal mais elevado. Talvez somente o Céu me compreenda!"

A respeito de Poyi e Shu Ch’i, Confúcio disse não haverem eles comprometido seus princípios e assim não se haviam desgraçado (eram sábios de fama, vivendo como reclusos); sobre Liushia Huei e Shaolien, disse que haviam comprometido seus princípios e se haviam desgraçado; sobre Yuchung e Yiyi, disse que haviam levado vida retirada e em elevadas palestras filosóficas mas que todavia não eram realistas e haviam-se adaptado às circunstâncias, conforme o princípio da utilidade. "Mas eu sou diferente de todos esses: decido de acordo com as circunstâncias de cada momento, e procedo melhor" (literalmente: "nem pode, nem não pode").

Confúcio disse: - "Isto não pode ser! Isto não pode ser! Um gentil-homem peje-se de morrer sem haver realizado alguma coisa. Acho que não conseguirei chegar ao poder para pôr em prática meu ideal de governo. Que conta darei de mim, aos olhos da posteridade?" Por isso escreveu PRIMAVERA E OUTONO (crônicas), com bases nas histórias existentes, a começar do Duque Yín (722 A. C.) até o ano décimo quarto do Duque Ai (481 A. C.), abrangendo assim os períodos de governo de doze duques (De Lu). Adotou, ao escrever, a posição de Lu , mas procurou respeitar os imperadores Chou, reportando-se à Dinastia Shang e observando as transformações de sistema verificadas nas Três Dinastias. Exprimiu-se em estilo conciso mas prenhe de sentido. Eis por que, embora os governantes de Wu e Ch'u se outorgassem o título de "reis", em PRIMAVERA E OUTONO encontram-se rebaixados de categoria e são citados apenas como "barões". Em certa ocasião, o imperador foi realmente intimado pelos duques a comparecer: mas em PRIMAVERA E OUTONO, esforçando-se por dar melhor aparência aos fatos, Confúcio escreveu que "o celestial Imperador veio caçar em Hoyang..."

Palavras distintas assim eram usadas, implicando aprovação ou reprovação do autor às práticas do seu tempo, na esperança de que futuramente surgisse um grande rei que abrisse o seu livro e adotasse os princípios ali inscritos, para vergonha e exemplo dos soberanos desordeiros e rapaces. Quando tinha função oficial, Confúcio estudava os processos e documentos de cada caso, com seus colegas, e ouvia-lhes as opiniões, jamais impondo as suas próprias; mas ao redigir PRIMAVERA E OUTONO fê-lo exatamente como lhe parecia melhor, e os discípulos como Tsehsia não mexiam uma palavra. Ao apresentar a obra a seus discípulos, Confúcio disse: - "As gerações vindouras me compreenderão através de PRIMAVERA E OUTONO, e por PRIMAVERA E OUTONO me hão de julgar."


8.Morte (479 A. C.) e posteridade

No ano seguinte (480 A. C.) Tselu morreu, em Wey. O próprio Confúcio caiu doente, e Tsekung veio visitá-lo. Encontrou o Mestre passeando devagar perto da porta, apoiado a uma bengala, e ouviu-o dizer: - "Ah Sze, por que tão tarde vieste?" E suspirou Confúcio, e cantou:

Ah! O T' aishan (monte) se desmorona!
O pilar está caindo!
O filósofo vai passando!

Então verteu lágrimas e falou a Tsekung:
- "Por muito tempo o mundo tem vivido em confusão e nenhum governante foi capaz de seguir-me. O povo da Dinastia Hsia guardava seus caixões mortuários, antes do enterramento, sobre os degraus de leste (do pátio chinês); o povo da Dinastia Chou guarda-va-os sobre os degraus de oeste, e o povo da Dinastia Shang guardava-os entre duas pilastras (na área principal). Esta noite sonhei que estava sentado entre as duas pilastras, fazendo uma libação. Talvez porque eu seja um descendente dos Shangs," Sete dias depois faleceu, aos setenta e três anos de idade.[17] Foi no dia chich'ou de abril, no ano décimo sexto do Duque Ai (479 A. C.)

Aos funerais de Confúcio o Duque Ai enviou um orador, que em seu nome assim falou: - "Ai de mim! O Céu não tem pena de mim e não me poupou o Grande Ancião. Deixou-me, coitado, sozinho e ao desamparo ante a nação, e eis que sou agora um homem enfermo. Ai de mim, Pai Ni! (ou Chung Ni, o nome de Confúcio). Grande é a minha dor! Não vos esqueçais de mim!" (literalmente: "não cuideis apenas de vós"). E Tsekung observou: - "Pois Confúcio não morreu no país de Lu?” (Confúcio não estava no poder, apenas por culpa do duque.) O Mestre disse que "quando não se cumprem a rigor as cerimônias, as coisas entram em desordem; e quando as palavras são usadas incorretamente, andam as coisas fora dos lugares. Desordem significa que o homem perdeu seus princípios morais, e fora dos lugares também significa que o homem não tem o que merece" (ou não se acha na posição justa). Enquanto o Mestre vivia o duque não o quis empregar, e esperou que ele morresse para mandar rezar em seus funerais, o que não tem cabimento. Ao referir-se a si próprio como um "coitado" aplica, outrossim, erroneamente a terminologia."

Confúcio foi inumado em Lu no Rio Sze, ao norte da cidade. Seus discípulos guardaram, todos, o luto de três anos, ao fim dos quais despediram-se uns dos outros e afastaram-se, chorando outra vez sobre o túmulo do Mestre antes de partirem definitivamente. Alguns ficaram ainda, mas só Tsekung demorou seis anos, numa choupana junto ao túmulo. Umas cem famílias, de discípulos de Confúcio e nativos de Lu vieram morar nas imediações e ali surgiu assim uma aldeia conhecida como K'ungli, ou "Vila K'ung". Durante várias gerações, nas épocas próprias, sacrifícios eram oferecidos no Templo de Confúcio, e os Confucionistas realizavam debates acadêmicos e festivais populares, inclusive torneios de arco, no recinto do túmulo. O mausoléu tinha de área um mow (cerca de um sexto de acre), e bem podia acolher os discípulos em seus salões. Os pertences pessoais de Confúcio, mantos, boinas, instrumentos de música, veículos e livros, foram conservados no Templo Confuciano, por gerações sucessivas. Assim aconteceu durante mais de dois séculos, até a época do primeiro imperador da Dinastia Han (desde 206 A.C.), o qual fazia culto a Confúcio com grandes oferendas (de vacas, ovelhas e suínos - altos sacrifícios). Sempre que chegavam magistrados e príncipes, antes de entrarem no exercício de suas missões lá iam render homenagem a Confúcio em seu Templo.
Confúcio gerou a Li, aliás Poyu, que faleceu antes dele, aos cinqüenta anos de idade; Poyu gerou a Ch’i, aliás Tsesze, que uma vez foi preso em Sung e que escreveu HARMONIA CENTRAL, falecendo aos 62 anos; Tsesze gerou a Po, aliás Tseshang, que morreu aos 47; Tseshang gerou a Ch’iu, aliás TseChia, que morreu aos 45; Tsechia gerou a Ch’i, aliás TseChinq, que morreu aos 46; Tseching gerou a Ch'uan, aliás Tsekao, que morreu aos 51; Tsekao gerou a Tseshen, que uma vez foi ministro de Wei, e morreu aos 57; Tseshen gerou a Pu, que morreu em Ch'en aos 57, tendo sido poshih (doutor ou professor de certas Artes Clássicas) durante o reinado de Ch'en Sheh; o irmão mais moço de Pu, Tsehsiang, que morreu aos 57, serviu uma vez como poshih sob a gestão imperial de Hsiaohuei (de Han) e também foi magistrado de Ch'anqsha, media nove pés e seis polegadas de altura; Tsehsiang gerou a Chunq, que morreu aos 57; Chung gerou a Wu; Wu gerou a Yen-nien e Ankuo; Ankuo foi poshih no tempo do último imperador, e uma vez foi magistrado em Linhuai, morrendo jovem; Ankuo gerou a Ang, e Ang gerou a Huan.

Escreve o Historiador Mestre[18] *: "O LIVRO DOS CANTARES diz que “Alta é a montanha que contemplo e brilhante o exemplo que temos a seguir! Ainda que não possa alcançar o cume, salta para ele o meu coração." Ao ler os livros de Confúcio, eu imaginava como seria ele em aparência. Em visita a Lu, vi as carruagens, as roupas e os vasos sagrados que se exibem no Templo; e observei como os estudiosos de Confúcio adquiriam o conhecimento histórico no próprio local onde ele habitara, e por ali fiquei sem poder afastar-me. Tem havido muitos reis, imperadores e grandes homens na História, os quais desfrutaram em vida honrarias e fama, e ao morrer ficaram sendo nada, enquanto que Confúcio, um letrado comum, trajando modesta roupa de algodão, passou a ser reconhecido o Mestre dos mestres, por mais de dez gerações. Toda a gente que na China é versada nas artes, desde os imperadores e reis e príncipes até os de mais baixa categoria, todos veem o Mestre como autoridade máxima."





[1] A mãe de Confúcio chamava-se Yen Chentsai. A designação para união "extraconjugal", nos originais é "campestre" ou "agreste", provàvelmente significando união realizada no campo. Alguns comentaristas procuram explicá-lo dizendo que a qualificação "agreste" apenas exprime que a união conjugal não se cumpriu de acordo com as normas usuais, tendo-se o pai de Confúcio unido àquela jovem após os' seus sessenta e quatro anos, depois de haver desposado outra mulher da qual tivera nove filhas e nem um filho varão. A explicação parece arbitrária.
[2] Vai isto em flagrante contradição com o que disse Confúcio pouco antes, quando queria ir a Chungmou. A natureza humana é assim prenhe de contradições, de fato, mas os comentaristas confucianos não as querem admitir na vida do Mestre. Em todo caso a observação de Confúcio, de que não podia "ficar sem comida" "como uma cuia seca", naquela passagem, deve ser entendida como piada. Os esforços feitos no sentido de harmonizar as atitudes do Mestre, nos dois casos, resultariam inúteis.
[3] O primogênito fôra privado de seu direito de sucessão ao trono do ducado pelas intrigas da famosa Rainha Nancía, que teve assim o seu protegido a substituir o duque morto.
[4] A cidade de Ch'í não era o Estado de Ch'í, e os dois nomes são grafados diferentemente em chinês.
[5] Esta passagem ilustra plenamente o sentido confuciano dado ao "ritual e música" e demonstra como é impróprio traduzir-se a expressão chinesa li apenas como "ritual e música". A conexão lógica entre ritual e música, como usualmente se interpretam esses termos, e a aplicação da justiça legal, não pode ser estabelecida a menos que se amplie o seu significado de maneira a atingir também princípios de ordem social ["normas próprias do culto e da sociedade"]. Filosoficamente, o que se quer aqui significar é que, se a ordem social e moral básica não se restauram, e os hábitos mentais do povo não se estabelecem, é uma leviandade esperar que a ordem e a paz social se façam mediante a simples punição dos infratores das leis.
[6] Há certa confusão quanto aos dados cronológicos neste ponto, mas a evidência indica que o fato se deu no ano 484 A. C.
[7] De fato, 13 anos. Os mapas cronológicos compilados pessoalmente por Szema Chien dão como data de partida o ano 498 A. C., o que contradiz seu próprio texto.
[8] Eis um aspecto da importante teoria confuciana do governo pelo exemplo.
[9] Confúcio elaborou então um sistema ideal de sociedade e rituais e música e cerimônias, seguindo de perto o modelo Chou (1122-222 A. C.), intermediário entre a simplicidade de Hsia (2205-1784 A. C.) e o sistema elaborado de Shang (ou Yín, 1783-1123 A. C.) Isto foi apresentado no livro CHOULI, que se teria atribuído ao Duque Chou, quando fundara a Dinastia Chou, segundo a escola da "versão antiga". A "versão moderna", entretanto, encara o texto do CHOULI atual como uma impostura, e afirma 'assim que Confúcio foi mistificador ao tentar incutir autoridade histórica aos seus próprios conceitos, subscrevendo-os pelo Duque Chou para lhes dar encanto. A base dessa versão moderna" é "A Ordem do Rei", Capítulo X do LI-KI, onde se esboça um sistema governamental completo.
[10] O LIVRO DOS CANTARES, editado por Confúcio, apresenta agora quatro categorias musicais: 1 – sung; 2 - grande ya, 3 - pequeno ya, e 4 - o fenq, música folclórica distribuindo-se conforme os países de origem. A não ser quanto a melodia, quase nenhuma diferença pode encontrar-se entre as suas varias categorias no que toca ao texto. Confúcio incluiu bom número de cantares de amor, versando sobre encontros furtivos de amantes, fugas e raptos, que por si só representam maravilhosa poesia mas que sempre escandalizaram um pouco os críticos.
[11] As seis cátedras de estudo existentes no tempo de Confúcio: cerimonial, música, arco e flecha, condução de veículos, leitura e matemática - também mencionadas apenas como as "Seis Clássicas”.
[12] Esta última afirmação é inteiramente incorreta, pois Confúcio vivia falando sobre o homem de verdade; só quando se esperavam exemplificações de "homem de verdade", com pessoas vivas, é que ele costumava recusar. Expressões como gentil-homem, homem de verdade e "homem de fato" naturalmente podem tornar-se correntes, sem que ninguém as possa definir. Quem poderá explicar o que seja "verdadeira humanidade"? Sócrates falava em “conhecer a si próprio", mas nem os filósofos nem os homens comuns jamais chegarão a um acordo sobre o que há de ser esse "si próprio".
[13] Os dados, bem como as diversas citações inclusas deste Capítulo são evidentemente extraídos dos ANALECTOS. A maioria das citações é facilmente identificável, embora nem sempre coincida literalmente com aquele texto.
[14] Confúcio tinha um profundo senso de religião e um respeitoso temor dos deuses, os quais francamente declarava jamais poder conhecer. De qualquer modo, era respeitosamente inclinado a cerimônias e cultos religiosos, e orava também, não com palavras, mas aparentemente por sua atitude silenciosa; quando se viu enfermo e um de seus discípulos pediu-lhe ir ao templo e orar, Confúcio respondeu que já estivera muito tempo orando. Por outro lado, não acreditava que as preces tivessem atendimento, como o entendem os beatos, pois dizia: _ "O homem que cometeu pecado contra o Céu, não tem lugar nem deus a quem orar." Daí se infere certamente que ele acreditava na prece, mas em outras circunstâncias, e a eficácia dessa comunhão espiritual estaria para ele em pôr o coração humano em harmonia com as leis de Deus.
[15] Os anais de Confúcio, PRIMAVERA E OUTONO, nesse ano terminam, e costuma dizer-se que o livro terminou com a aparição de um unicórnio, sinal do aparecimento de um sábio.
[16] Segundo a tradição, a aparição de coisas tais havia de ser considerado augúrio do aparecimento de um filósofo-rei.
[17] Setenta e dois, pela contagem inglesa.
[18] Szema Chien era cronista oficial da Corte de Han, descendendo de uma família que mantinha essa posição. T'ai-shih­ kung; ou "Historiador Mestre", é o seu título oficial, No fim de cada biografia, em seu Shi-ki, ele apresenta geralmente um breve comentário de apreciação ou crítica ao caráter da pessoa biografada.

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