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A Lei da Guerra - uma Longa Errata...



2009 foi o ano que publiquei a minha versão do Sunzi Bingfa, mais conhecida como ‘Arte da Guerra’ de Sunzi, que eu preferiria traduzir como a ‘Lei da Guerra’. Foram cinco anos intensos, desde então, nos quais minhas capacidades de dialogar, ler e escrever em chinês declinaram ao nível da insuficiência. De fato, já faz quase uma década que moro numa cidade do interior, onde a possibilidade de praticar a língua é inexistente. Por outro lado, são muitos os recursos eletrônicos e midiáticos para realizar esse tipo de treino – mas aí, a acomodação, as exigências do estudo e da profissão de lecionar, tudo isso serviu para compor o nada favorável quadro de distanciamento ao uso dessa ferramenta indispensável ao sinólogo, que é o uso da língua.

Todavia, somente a passagem do tempo me possibilitou um olhar mais crítico e aprofundado sobre a versão que fiz do texto. Paradoxalmente, me coloco agora no lugar de um leitor que não entende chinês, ou que só conhece o livro de modo superficial. Examinei o texto – e principalmente, a introdução – e admito que me incomodei bastante com algumas das afirmações e pontos de vista apresentados. No afã de explicar algumas das características que permeavam a realização do texto, perdi-me em críticas duras ou arbitrárias que não fazem jus aos trabalhos anteriores. Após meditar sobre a questão, percebi que seria adequado – creio, na verdade, necessário – fazer uma longa errata acerca da introdução do livro.  Decidi, por uma questão de consciência crítica, refutar de modo sincero alguns dos apontamentos que fiz. Assim, separei alguns dos fragmentos do texto inicial que rediscutirei, no seguir.

Quanto ao corpo da própria tradução, basta dizer que eu refaria muito do que escrevi – se ainda estivesse habilitado para tal. Vendo com clareza, existem muitas passagens que poderiam ser melhoradas, simplificadas ou ainda, devidamente explicadas. Não sei se essa possibilidade existe hoje, porém. Deixo, pois, essa pequena revisão de afirmações que agora me incomodam.

Revisão

Existem muitas tentativas de traduzir da obra de Sunzi, e algumas são péssimas; além disso, grande parte é feita em outra língua, antes de ser vertida para o português, processo no qual muitas informações relevantes se perdem.

Traduções são escolhas, muitas vezes calcadas num determinado ponto de vista ou proposta. Claro, erros e equívocos acontecem; e eles aumentam quanto maior for a distância do texto original. Por outro lado, grandes tradutores lidaram com esse texto antes, tornando-o acessível ao público. Não se deve menosprezar, de forma alguma, as traduções derivadas de línguas intermediárias; elas são o primeiro acesso que uma sociedade pode ter a certos textos. O papel dos tradutores, nesse ponto, como difusores culturais, é fundamental e basilar. No mais, seria absolutamente falso da minha parte afirmar que não consultei outras traduções – ao contrário! Foi ao lê-las que concebi algo diferente; foram nelas que encontrei soluções adequadas, ou caminhos que preferi não seguir. A discussão sobre as obras anteriores deve ser conduzida com o cuidado de evitarmos juízos de valor, cujas generalizações não contemplam as conquistas por ela alcançadas.

A tendência em fazer versões estilizadas da “Lei da Guerra” foi sempre uma maldição para este livro. O Padre Amiot fez a sua em 1772, com uma linguagem rebuscada que poderia transformar o livro quase num romance; Lionel Giles, em 1910, fez sua versão na qual dá uma “tradução exata” de alguns termos que mesmo os chineses têm dificuldade de explicar!; mas a versão que popularizou o texto – pasmem – foi a de James Clavell, autor de romances como “Xógum” e “Taipan”, o que nos dá um indicativo de como a obra tem sido analisada até então...

Disse Newton: ‘se vi mais longe, é porque me apoiei no ombro de gigantes’. Eu nem chegaria a tanto. Mas simplesmente, a constatação dessa frase, por mim, foi de uma infelicidade tremenda. Comecemos pelo básico: tanto Amiot quanto Giles, entre outros, aprenderam chinês clássico diretamente com chineses que sabiam esse mesmo chinês. Estudaram com letrados educados nas ancestrais tradições chinesas. Que dizer mais sobre o domínio da língua chinesa que eles possuíam? Ressalte-se a carência dos recursos de ensino na época, e entenderemos que o trabalho deles foi heróico. Suas opções estilísticas correspondiam a época no qual estavam inseridos, com todos os maneirismos e características que um texto entendido como erudito deveria ter. Simplesmente, não fossem suas opções canônicas, talvez o texto não parecesse relevante para a Sinologia. Por inversão, minha versão do texto talvez não fizesse sucesso algum na época. As deles estão imortalizadas, e foram iniciadoras. Eu, no entanto, já embarquei numa via razoavelmente consolidada, contando com suas traduções para tudo – até mesmo criticá-las. Senti-me injusto e desrespeitoso para com eles, e entendo que minha versão do texto não pode se valorizar com base nesse tipo de afirmação. Embora eu proponha muitas coisas diferentes deles, uma introdução histórica mais adequada redimensionaria o papel deles na história das traduções do Sunzi Bingfa. Seria o mínimo a se fazer, e a eles, presto o meu tributo. No mais, quanto à versão de James Clavell; ela mostra o despreparo de nosso público, em relação aos textos chineses, e não o quanto sua versão era boa ou má. Se ainda dependemos de um escritor de sucesso, como foi Clavell, para sermos atraídos para aspectos mais profundos de outra cultura, isso ganha o contorno de um eficaz expediente didático, adequado aos nossos problemas de formação e de leitura. Por fim, devemos perder o ranço de sempre criticar escritores de sucesso apenas porque venderam bem. Muitas vezes, eles abrem estradas ao conhecimento.

Mesmo sendo um dos textos mais traduzidos para línguas ocidentais, a “Lei da Guerra” carece, estranhamente, de uma tradução direta para o Português. Isso se deve á uma tendência muito própria, no mundo Lusófono, de acomodar-se à existência de traduções anteriores, feitas em outros idiomas, que parecem ser mais simples de traduzir que o próprio chinês. Acredito que esta postura é lastimável, e mostra uma submissão intelectual tremenda em nosso país – a de que sempre poderemos contar com intermediários culturais e tecnológicos, quando poderíamos, nós mesmos, construir conhecimento.

Percebo agora o quanto isso é problemático. Fazem séculos, e alguns poucos especialistas tentam revelar ao mundo lusófono a importância do estudo sínico. Seus trabalhos, basilares, costumeiramente foram apreciados, mas postos de lado após algum tempo. A construção de uma Sinologia brasileira engatinha, mas dá alguns poucos passos. Em breve teremos formandos em chinês, muito mais capazes do que a geração anterior. Ademais, estudar chinês com professores particulares é de uma dificuldade tremenda, uma aventura que deixa falhas enormes na formação, mesmo com todo o zelo que eles empreguem. Não posso, contudo, deixar de lastimar o contínuo desinteresse que os nossos intelectuais demonstram pela China – e mesmo, um receio – que não deveria fazer parte, de modo algum, do que se entende serem as ‘ciências humanas’. Mas acredito que, em breve, as traduções possíveis do Sunzi Bingfa da próxima geração, que corajosamente investe agora em cursos regulares de chinês, serão inequivocamente melhores que a minha.

Uma nota em especial deve ser feita aqui: continuei minhas pesquisas sobre as traduções de Sunzi, e descobri a tradução de Adam Sun, pela editora Conrad e publicada em 2006. Além de ser a primeira tradução do chinês para o português, é uma edição cuidadosa, muito bem feita e que conta, inclusive, com o texto original para comparação. Um trabalho primoroso, ao qual faço minha vênia aqui.

Do mesmo modo, dispensei nesta tradução o uso de um português arcaico, como se nos tempos antigos as pessoas somente se comunicassem por uma linguagem culta e erudita, muito comum nas versões que incluem o “Vóis sois”, desejais ou “pensais”, etc... Isso não faz a mínima diferença para o chinês clássico do qual estamos traduzindo, que em sua natureza era simples, direto, sintético e elegante. Seria no mínimo curioso imaginar que os chineses usariam estas expressões rebuscadas apenas porque elas são antigas. Lembremos que a gramática dos tempos clássicos é mais simples do que a de hoje. Por estas razões, creio que o uso de uma linguagem franca e direta é bem mais fiel aos princípios gerais da obra.

Como se chinês fosse fácil... Não, não é. Não é também absurdo, ou impossível – apenas tem suas dificuldades próprias. Impossível mesmo é fazer uma tradução sem bons dicionários por perto, ainda mais de chinês antigo, no qual muitas palavras mudaram seu significado. A opção pela linguagem franca e direta, como disse, é uma questão de estilo, que me faz sentido: mas nem por isso, a simplificação torna uma tradução um processo simples. Ah, quanta pretensão! Simplificar um texto, de modo a atingir sua essência, é talvez, e justamente, um trabalho dificílimo. Eis porque não me furto em dizer que refaria muitas coisas no corpo do texto. E mesmo assim, estou longe de pensar que elas resolveriam todos os problemas de transpor um língua pra outra. ‘Tradutor, traidor’, dizia um antigo provérbio. Nada mais real.

Um Final

Enfim, é isso. Um mea-culpa dos exageros propagandísticos e conceituais, motivados tanto pelo entusiasmo do trabalho quanto pela pretensão de fazê-lo melhor. Uma conscientização sobre a perda de habilidades que, com o tempo, agora me custam.

Quando alguém me diz: 'seu livro ficou muito bom', me apresso em dizer: 'obrigado, mas é de Sunzi'. Sim, eu sou apenas mais um transmissor, cujo esforço avalio nesse momento. Graças ao interesse que existe acerca do livro, que eu pude dar a conhecer a minha versão, e não o contrário.

A modéstia e o reconhecimento para com nossos mestres são, porém, bons guias pra firmar os pés no chão. Os antigos abriram um caminho que hoje trilhamos com muito mais conforto, e reconhecer isso é uma benção. Doravante, há que pensar muito antes de abrir a boca, tomando o cuidado severo de buscar afirmar, apenas, sobre aquilo que se tem certo conhecimento. Exorcizar essas questões são um bálsamo pra alma, e um excelente exercício de sabedoria.


2 comentários:

  1. Parabéns por Sua coragem e retidão intelectual ! Merecida menção à tradução do Adam Sun que está em minhas mãos ! Obrigado Celso Chini fã e estudioso de Sun Tzu desde 1988!

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  2. Concordo com o Celso, foi louvável essa retratação em respeito à obra de Adam Sun. Todas as versões cumprem um importante papel, eu tenho várias versões e gosto de todas!

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