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Futebol, Sinologia e História

A história da China é um campo imenso de estudo. Uma antiga piada no meio sinológico dizia que se alguém passasse uma semana na China, escreveria um livro; mas se passasse um mês, arriscaria apenas um ensaio; se passasse um ano, só concederia uma rápida entrevista; e se ficasse mais tempo do que isso, pensaria bem antes de dizer qualquer coisa sobre lá. Toda uma história [e quem sabe, uma outra história] da humanidade pode ser encontrada na China. Nessa milenaridade, elementos se preservam, outros se diluem; e a memória, sempre, se bate infindavelmente para preservar o cerne dessa civilização, ora guardando com zelo, ora reinventando o passado.

Essa reflexão veio à mente por causa da 'Copa do Mundo de Futebol-2014' [antes, era só “Copa”, e todo mundo sabia do que se tratava]. Deve ter sido a copa mais antipática de todas. Elitizada, cara, distante, violenta, arrogante, monopolizada, excludente... Vários adjetivos são compartilhados para designar esse evento que deveria ser do povo, mas não foi. A surra homérica levada da Alemanha lançou a pseudo-alegria futebolística do Brasil num limbo. Ao menos, ela serviu para que finalmente os mais velhos esquecessem Barbosa e companhia, os heróis da Copa de 50, que durante décadas foram hostilizados pela derrota na final. Não por acaso, Barbosa era negro, mostrando essa lastimosa faceta racista que insiste em sobreviver em nosso país arcaico. Mas a copa de 2014 deixou um rastro melancólico, um não-dito, típico das guerras perdidas e dos desastres sociais [e não era o clima de guerra algo sempre propagandeado pela mídia?]. Pouco se falou da derrota. Melhor esquecê-la. E não será isso um bom sinal? É aí que sinologia entra como o espelho distante, para nos propiciar as experiências analógicas que tanto gosto de exercitar.

O que a história da China pode nos ensinar sobre futebol? Pois é, os chineses jogaram, na antiguidade, um esporte chamado Cuju 蹴鞠, muito similar ao nosso futebol. Supõe-se que fosse praticado desde o século -4, embora as primeiras citações a ele só tenham surgido no século -1, nas obras de Sima Qian e Liu Xiang. O Cuju teve idas e vindas, mas foi um esporte de relativo sucesso. Amplamente praticado como recreação, alcançou níveis competitivos, foi utilizado como forma de treinamento militar e era apreciado tanto pelas elites como pelo povo. Um breve passeio pela rede nos mostra a abundância de imagens e pinturas que os próprios chineses nos legaram sobre sua paixão pelo Cuju. Na história chinesa, em que as mudanças às vezes demoram pra acontecer, constata-se que o encanto pelo Cuju durou bastante; mas um dia, como tudo, começou a declinar. No período da dinastia Ming, ele entra em franca decadência. Campos, jogadores, associações, todos começam a desaparecer, os chineses simplesmente perdem o interesse nele. Foi uma longa moda, é verdade; mas o ciclo da mutação, para os chineses, é implacável e irremediável.

Mesmo assim, vamos dar um corte nessa história. Os chineses não inventaram, pelo menos, o futebol que conhecemos. Isso foi coisa – aparentemente – dos ingleses, que puseram ordem no esporte [ao menos, é o que ensinam os manuais tradicionais]. A questão é que toda essa paixão ocidental pelo futebol é muito recente, tem pouco mais de um século.  E o que temos visto é que as hegemonias ocidentais, sempre tão propaladas, já estão “indo pelo cano” no século 21. O mundo volta a construir um novo perfil. O século 20 – provavelmente o século mais rápido da história, até agora, em termos de desenvolvimento técnico – viu passar revoluções, guerras e mudanças políticas incríveis. A própria China começou esse século como um império milenar e terminou como uma das mais novas repúblicas do planeta. Tantas reviravoltas nos fazem perguntar se o século 21 também não será assim – rápido, inexorável, mutável. E novamente, o futebol entra aí como um detalhe nisso tudo.

Em 1964, decreta-se o regime militar no Brasil; e nesse mesmo ano, o tricolor suburbano, o Madureira, decide fazer uma excursão na China, aproveitando o embalo do sucesso brasileiro na copa de 1962. Em 1963, eles já haviam sido recebidos em Cuba pelo próprio Che Guevara. Em 1964, decidem fazer uma excursão pela Ásia, e vão até a China, naquela que seria conhecida como ‘Viagem Proibida’. Fazem jogos contra os combinados de Beijing, Shanghai e Guandong [Cantão]. Vencem todos os jogos, mas ficam brevemente retidos no país por conta de uma pequena crise diplomática entre Brasil e China [todavia, esse rápido período é passado em confortáveis hotéis]. Na volta, quase são cassados pela confederação brasileira de desportos – afinal, futebol era política. A confusão toda não dá em nada, e o Madureira voltou heróico para casa.

Pelo visto, os chineses haviam esquecido completamente de como jogar Cuju; e foram menos hábeis, ainda, para aprender esse novo futebol. Mostrando, porém, uma memória inigualável sobre este episódio – que os brasileiros já tinham deixado pra trás – um jornalista chinês que foi cobrir o sorteio da copa em 2013 usava a camisa do Madureira [veja aqui].

Que lições podemos extrair disso? A primeira, de que pelo visto os chineses têm mais memória do que nós, mesmo para coisas que ‘deveriam ser nossas’ [como o triunfo futebolístico do Madureira]; pois ainda que o ‘futebol inglês’ seja recente por lá, a passagem do time brasileiro foi lembrada com carinho nos meios esportivos. Certo, não podemos esperar que seja lembrada por todo o restante da China, ainda mais quando sabemos que era a China de Mao Zedong [aliás, um erro grosseiro é cometido pelos brasileiros: quem recebeu o Madureira foi o Ministro das Relações Exteriores Zheng Yi, e não Mao Zedong. Mania brasileira de confundir os asiáticos...].

Zheng yi - e não Maozedong - cumprimenta os jogadores
Fonte: http://msalx.placar.abril.com.br/2013/11/08/1556/hrWu2/madureira-china-1384.jpeg?1383933836


Mas a segunda lição nos parece mais importante: o futebol, como Cuju, pode vir a passar. É uma moda que vem durando já um século, mas é muito pouco em termos de história mundial. O paradoxo é esse: após o futebol tornar-se [por um lado] um evento internacional, é esse mesmo gigantismo que tem afastado o prazer pelo esporte, a sua simples prática amadora e descomprometida. A derrota na copa evidenciou esse desejo de esquecimento, essa rapidez, o distanciamento. Estaremos começando um longo processo de decadência da paixão futebolística? Conseguirá ele renovar-se, escapando do gigantismo corporativo e profissionalizante – que o divulga, mas também o cerceia?

Essas reflexões não são para o tamanho de uma simples vida humana. Como na China, o processo todo pode demorar bastante. No entanto, estamos nesse século de velocidade, de mudança – e por mais surpreendente que possa parecer, podemos vir a gostar de muitas outras coisas [e esportes] em breve. A paixão cega por esse esporte pode vir a diluir-se, numa ‘decadência’ que mais significaria, na verdade, renovação. E a memória histórica, mais do que nunca, nos serve para lembrar disso: tudo muda, sempre... como disse o próprio Confúcio: “tudo flui, sem cessar” [ou Heráclito, com seu ‘Panta Rhei!’].

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