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A volta dos Discos Voadores e o Ensino de História no Brasil


Recentemente, a Aeronáutica liberou uma série de documentos sobre aparições e avistamentos de objetos voadores não identificados [em português, ‘OVNI’, em inglês ‘UFO’] no Brasil. A notícia, comemorada pelos ‘ufólogos’, foi bastante criticada por alguns setores da intelectualidade brasileira, que contestaram o fato da mesma Aeronáutica não liberar documentos sobre os desaparecidos durante o período militar [1964-85]. Por causa disso, esses intelectuais não levaram a sério o ato da Aeronáutica, que por seu turno, não costuma levar a sério também os intelectuais e os ufólogos; ufólogos esses que, em geral, não são levados a sério por quase ninguém, mas que se preocupam, sim, com desaparecidos – aqueles abduzidos pelos Et’s, e não pelas forças armadas ou por guerrilheiros de esquerda.

Esse debate foi eclipsado pelas tensões eleitorais desse ano [2014], mas podemos dizer que ele faz parte de um conjunto maior de problemas históricos e intelectuais. Não faz muito tempo também, o canal de Tv History Channel começou a promover o programa ‘Alienígenas no Passado’ [desde 2010], que tenta a todo custo provar as diversas interferências extraterrestres no curso da história da humanidade. Embora a maior parte das inferências feitas possa ser refutada com o auxílio de bons manuais de história, ou com a consulta de especialistas nas áreas das ciências, o programa tem atingido bons níveis de audiência [já está na sétima temporada], revelando um profundo desconhecimento do público sobre os problemas tratados. A insistência desse tema já valeria a perda, por parte do canal, do título de ‘History Channel’, mas ele revela o distanciamento que uma parte substancial da sociedade mantém sobre o que significa o estudo da história como uma ciência. O público geral parece não se interessar mais pela história, essencialmente politizada, que tem sido imposta constantemente nas escolas. Que se entenda: em minha opinião pessoal, o ensino de história deveria fomentar, justamente, a construção dessa consciência crítica, que tanto precisamos para uma sociedade saudável e autônoma. Todavia, algo está acontecendo de errado no ensino de história. 

Tivemos durante décadas um ensino superficial, baseado em heróis, batalhas, efemérides e elementos cívicos basilares, mas em geral, superficiais. A virada desse ensino, após o fim do regime militar, buscou uma politização necessária, que embarcou nas lutas de classes, regimes produtivos, escravidões, consciência social, etc. Aparentemente, porém, isso também não deu certo. Nossos alunos saem da escola sem serem empreendedores decididos ou revolucionários idealistas.Vivemos ainda numa sociedade racista, machista, preconceituosa, que está se envolvendo num processo de radicalismo religioso preocupante. Tal fator é notável; se uma grande parte da sociedade parece não acreditar em alienígenas, porque os exclui de um plano divino que transformou o planeta Terra no único lugar habitável do universo, a outra metade não apenas parece acreditar neles como, ainda por cima, os vê pululando em eventos históricos do passado.

Isso se deve a uma desconsideração generalizada sobre o campo da história em nosso país. Ela tem sido mal ensinada, por profissionais com sérios problemas de qualificação, amarrados por orientações de cunho ideológico e planejamentos educacionais fracos e cheios de deficiências estruturais. Isso tem tornando a história chata e desinteressante. As imensas lacunas causadas por esse ensino problemático deixam abertas as portas para o aparecimento de teorias esdrúxulas, como as do History Channel, que parecem ser absolutamente plausíveis para aqueles que desconhecem um curso de história bem feito nos níveis básicos da educação.

Não é meu intuito afirmar a inexistência de alienígenas; mas até termos provas definitivas de sua existência, trabalhamos num campo de pura especulação, que deve ser lido com cuidado, e para o qual possuímos poucos especialistas sérios. Chamo atenção para o fato de que eventos históricos simples, que podem ser razoavelmente bem explicados pela arqueologia, pela história, pela engenharia ou medicina, transformam-se em episódios obscuros, de desinformação completa, devido a esse tipo de desconhecimento sobre o passado. Esse é o meu foco, aqui.

Assim, temos uma equação macabra: um ensino desinteressante, superficialmente crítico, dirigido por políticas públicas problemáticas, torna o campo da história um grande aborrecimento para a maior parte do público. Quando esse se interessa pela história, busca na literatura histórica aquilo que lhe parece atraente, diferente, alternativo. Eis porque livros cheios de fofocas históricas, escândalos ou guerras, por exemplo, vendem aos cântaros. São as lacunas desse ensino. E deveríamos, então, ensinar essas coisas na escola? Claro que não. O que me preocupa, nesse caso, é a ausência de um instrumental crítico histórico, que permita a alguém duvidar, pôr em questão esse tipo de leitura. Os extraterrestres entram nesse mesmo tipo de buraco. Nosso desconhecimento básico em ciências e história cria esse abismo, que propicia o aparecimento das teorias mais estapafúrdias para explicar o passado da humanidade. É o que torna ‘absolutamente interessante’ descobrir o que os documentos da Aeronáutica trazem sobre OVNI’s; por outro lado, faz parecer, para muitos, uma ‘grande chateação’ querer saber algo mais sobre os desaparecidos do período militar.

Desta forma, podemos dizer que o ensino de história tem um longo desafio pela frente: ele terá que ser capaz de se reinventar, de propiciar a criação de uma consciência histórica e de um conjunto de ferramentas que permitam, ao indivíduo, analisar os eventos históricos, descontruí-los e não aceitá-los tacitamente. Porém, no caso dos Et’s, o que fazer com eles, se eles não fazem parte [ou ao menos, não deveriam] da história humana? Precisamos, então, detalhar um pouco mais esse problema, e partir em busca de propostas.

O Maravilhoso na sociedade contemporânea

Precisamos empreender um retorno ao passado, para compreendermos como opera nossa mente histórica, e em que lacunas atuam os problemas de nossa formação escolar. As raízes são mais antigas do que podemos supor, e por isso demandam uma apresentação sucinta.

Jean Claude Schmitt [1999, p.98-100] definiu com elegância e profundidade o padrão da mente medieval, da qual somos herdeiros diretos, que entendia os eventos do mundo em dois âmbitos: Miracula e Mirabilia. Miracula é o ‘Milagre’, um tipo de intervenção divina absolutamente ‘crível e explicável’ dentro de uma lógica religiosa cristã, cujo sentido reporta-se diretamente ao problema. Já Mirabilia, o ‘Maravilhoso’, trata-se daqueles eventos ainda inexplicáveis, pois não se encaixam diretamente na lógica explicativa de um mundo cristão. São acontecimentos, criaturas ou ações cujo sentido só pode ser especulado nesse mundo, mas cuja explicação encontra-se ainda além de nosso conhecimento imediato. Pode parecer estranho invocar aqui o conceito de Schmitt, mas se repararmos bem, ele é perfeito para explicar o vasto conjunto de mitos e lendas que foram introduzidos ou criados no Brasil ao longo dos séculos. O que caracteriza o que chamamos de criaturas do nosso folclore [Saci, Mula sem cabeça, Lobisomem, Boitatá, Curupira, etc.] pertence ao ‘Maravilhoso’, já que não se possuía uma explicação direta sobre elas no âmbito religioso [exemplo: em que momento da criação divina, por exemplo, teriam surgido os lobisomens?], mas eram ‘reais’ no âmbito popular. Por isso, não raro, os especialistas religiosos e sacerdotes classificavam como ‘crendices’ tais criaturas e crenças, desprezando-as categoricamente. Entre o povo em geral, porém, tais crendices eram amplamente difundidas até algum tempo atrás. É o advento da modernidade, da evolução dos meios de comunicação e de informação que iria enfraquecer tremendamente a existências desses mitos maravilhosos. Os fragmentos de ciência paulatinamente inseridos e divulgados na mídia [‘novas descobertas científicas’, alertas sobre questões mundiais, de saúde, etc] foram paulatinamente esvaziando as possibilidades desses seres fantásticos.

No entanto, não podemos esquecer que somos herdeiros diretos da cultura portuguesa, talhada no medievo europeu, que nos legou essa estrutura mental – Mirabiliae Miracula – de sacis e curupiras por um lado, mas que consolidou Nossa Senhora de Aparecida por outro. Enquanto permanecerem lacunas em nossos conhecimentos históricos e científicos, ambos os conceitos atuam preenchendo nossas ausências, nossos anseios, nossas dúvidas.

Por isso, os retalhos de ciência que a população absorveu nos últimos tempos pela mídia fez sumir nossos sacis, tornando-os improváveis, mas acabou o substituindo pelas ficções cientificas, amplamente exploradas pela mesma mídia, de extraterrestres, naves voadoras, conspirações alienígenas, entre outras. O ‘Maravilhoso’ se revela novamente, absorvendo o inexplicável ser de outro planeta, e transformando-o numa espécie de crença. Ele é algo que ‘existe’, mas ninguém sabe ao certo como, porque ou qual sua inserção numa lógica universal [e no caso do Brasil, ainda, essencialmente cristã].

Em um texto anterior, ‘História e Realismo Fantástico: uma questão de ensino’, eu apresentei um levantamento bibliográfico das obras que fomentaram, no século 20, a criação desses mitos extraterrestres, e de como eles operavam no nível do discurso, dentro de suas próprias especificidades.  Porém, precisamos esmiuçar as razões pelas quais cedemos a esses discursos. Como vimos, essas reminiscências medievais ainda operam em nossa mentalidade, buscando articular uma existência imaginária no âmbito do senso comum. Porém, sabemos que o senso comum é uma condição inalienável do mundo – e no atual estágio de nossos conhecimentos técnicos, sua amplitude é ainda maior. Atualmente, podemos colecionar pedaços de informações e idéias de vários campos de conhecimento e organizá-los em frágeis teias de ‘coerência’, supondo uma certa cientificidade sobre eles – como se dá, no caso, em relação aos extraterrestres na história.

As explicações dadas pelos supostos especialistas do History Channel ou por Eric Von Danikken, o ‘apóstolo’ dos UFO’s históricos, empregam, todas elas, informações ou teorias importadas das ciências. Ainda que usadas de modo absolutamente superficial e muitas vezes equivocado, elas parecem conferir sentido ao que se propõe – e justificam o injustificável. Assim, os alienígenas penetram o campo do Maravilhoso em nossa mente: podemos especular sobre eles, ‘vê-los’, imaginá-los, mas não sabemos ao certo suas razões, suas origens ou seu papel no cosmo.

Nossas deficiências no Ensino

Carl Sagan, numa brilhante explanação sobre o problema dessa postura ‘científica’, afirmou que:
Mas a superstição e a pseudociência estão sempre se intrometendo, [...] fornecendo respostas fáceis, esquivando-se do exame cético, apertando casualmente nossos botões de admiração e banalizando a experiência, transformando-nos em profissionais rotineiros e tranqüilos, bem como em vítimas da credulidade. Sim, o mundo seria um lugar mais interessante se houvesse UFOs escondidos nas águas profundas, perto das Bermudas, devorando os navios e os aviões, ou se os mortos pudessem controlar as nossas mãos e nos escrever mensagens. Seria fascinante se os adolescentes fossem capazes de tirar o telefone do gancho apenas com o pensamento, ou se nossos sonhos vaticinassem acuradamente o futuro com uma freqüência que não pudesse ser atribuída ao acaso e ao nosso conhecimento do mundo. Esses são exemplos de pseudociência. Eles parecem usar os métodos e as descobertas da ciência, embora na realidade sejam infiéis à sua natureza - freqüentemente porque se baseiam em evidência insuficiente ou porque ignoram pistas que apontam para outro caminho. Fervilham de credulidade. Com a cooperação desinformada (e freqüentemente com a conivência cínica) dos jornais, revistas, editoras, rádio, televisão, produtoras de filmes e outros órgãos afins, essas idéias se tornam acessíveis em toda parte. Muito mais difíceis de encontrar [...], são as descobertas alternativas, mais desafiadoras e até mais deslumbrantes da ciência. A pseudociência é mais fácil de ser inventada que a ciência, porque os confrontos perturbadores com a realidade - quando não podemos controlar o resultado da comparação - são evitados mais facilmente. Os padrões de argumentação, o que passa por evidência, são muito menos rigorosos. Em parte por essas mesmas razões, é muito mais fácil apresentar a pseudociência ao público em geral do que a ciência. Mas isso não é o suficiente para explicar a sua popularidade. [Sagan, 1997, p.21]

O que ele classifica como ‘pseudociência’ é, justamente, o campo no qual operam as teorias maravilhosas, que sobrevivem graças ao nosso desconhecimento histórico e científico. Sagan desenvolve sua linha de raciocínio no seguinte sentido:
É natural que as pessoas experimentem vários sistemas de crenças, para ver se têm valia. E, se estamos bastante desesperados, logo nos dispomos a abandonar o que pode ser visto como a pesada carga do ceticismo. A pseudociência fala às necessidades emocionais poderosas que a ciência freqüentemente deixa de satisfazer. Nutre as fantasias sobre poderes pessoais que não temos e desejamos ter (como aqueles atribuídos aos super-heróis das histórias de quadrinhos modernas e, no passado, aos deuses). Em algumas de suas manifestações, oferece satisfação para a fome espiritual, curas para as doenças, promessas de que a morte não é o fim. Renova nossa confiança na centralidade e importância cósmica do homem. Concede que estamos presos, ligados ao Universo. Às vezes parece uma parada no meio do caminho entre a antiga religião e a nova ciência, inspirando desconfiança em ambas. [idem, p.22]

E de onde provêm essas ausências, essas lacunas que buscamos suprir com as crenças? Uma resposta evidente é, justamente, a deficiência no ensino. Mesmo assim, seria fácil e extremamente simplificador dizer que tais concepções nascem apenas do desconhecimento. A questão das crenças opera em níveis diversos do imaginário. Sagan acreditava que a ciência seria capaz de explicar várias dessas pseudociências [assim como faz Richard Dawkins, hoje]. O que ambos não aceitaram, porém, é que o mesmo mecanismo que ‘supre carências espirituais’ atinge até mesmo os cientistas. Muitas vezes, alguns médicos se convencem de intervenções milagrosas em quadros clínicos que consideravam perdidos; por motivos religiosos diversos, um cientista pode acreditar em Deus e na bomba atômica ao mesmo tempo. Isso nos remete diretamente ao quadro dos professores de história. Ignorantes, mal formados, e por vezes preguiçosos e acomodados, eles suprem suas defasagens profissionais e incapacidades intelectuais com as respostas simples e atraentes dessas pseudociências, que formam o chamado Realismo Fantástico.

Por causa disso, não é difícil encontrar professores de história que, tendo parcos conhecimentos sobre história antiga [que consideravam inútil, chata ou distante], admitem as teorias mais surpreendentes para explicar o passado - tão somente porque parecem coerentes perante o seu desconhecimento. Por exemplo: diante da clássica pergunta ‘como foram feitas as pirâmides?’, reagem de modo embaraçoso. Poucos sabem, e outros poucos admitem simplesmente que não sabem [e talvez ‘não sabe, não quer saber, e tem raiva de quem sabe!’]. Alguns admitem que os egípcios as fizeram – não sabem como ao certo, mas como a Terra seria o único mundo habitado na criação divina, é impossível alguém de fora tê-las feito. Essa resposta tacanha, embora ‘correta’, é totalmente privada de cientificidade, posto que se calca numa religiosidade restrita. Assim, caímos em outro extremo: de que os antigos eram incapazes de construí-las, que eram limitados, que eram ‘primitivos’, e por fim, que somente uma inteligência superior [tal como se julga que só exista agora!] foi responsável pela sua construção – e logo, seria alienígena. O preconceito contra os estudos clássicos atinge aí seu ápice: transfere-se aos antigos uma total incapacidade de pensar, criar ou imaginar tecnologias. Tal incapacidade é, justamente, daquele que a transfere: mas ele não consegue se perceber ignorante ou incapaz de utilizar as ferramentas da pesquisa histórica para solucionar o problema, e adota a solução mais fácil. A pseudociência, do Realismo Fantástico, surge para suprir suas lacunas ‘científicas’, e alimentar ainda mais o seu preconceito contra o que não conhece bem. É no mínimo irônico que, na mais das vezes, esse que rejeita a história antiga e medieval comporta-se com, de fato, como um popular antigo ou medievo – e vive num ‘mundo assombrado por demônios’, como disse Sagan.

Examinando as ausências em busca de respostas

Precisamos, pois, compreender as razões pelas quais tantos profissionais que atuam no ensino de história compartilham dessas dificuldades.

A primeira razão que podemos elencar, de modo claro, ainda é o baixo número de especialistas em história antiga e medieval no país.[1]Grande parte dos cursos universitários de história emprega especialistas de outras áreas nessas disciplinas, e não raro, desestimula o aprofundamento nelas, colocando-as como ‘desnecessárias’ no contexto cultural brasileiro. Obviamente, esse tipo de visão é causada pelo pouco conhecimento que se possui sobre a antiguidade e sua herança cultural. É comum ouvirmos que o estudo de história antiga, por exemplo, é elitizado, distante no tempo e inviável, pois demanda o aprendizado de outros idiomas, o estudo interdisciplinar, etc. Ora, se não é o estudo do passado o objetivo da história; se a interdisciplinaridade não é um dos meios mais apropriados para uma reconstituição histórica mais segura; e por fim, se o aprendizado de novos instrumentos de leitura e pesquisa não aperfeiçoa as capacidades do historiador; então, do que se trata fazer história de forma séria e científica? Embora o número de estudiosos em história antiga tenha se elevado significativamente nos últimos anos, e nas mais variadas temáticas, sua inserção no panorama universitário é dificultosa e arduamente negociada. São poucas as vagas em concursos, e menos ainda as instituições que promovem – ou ao menos, que aceitam abrigar - grupos de pesquisa nessa área.
Ora, se há uma orientação generalizada nesse sentido, partindo de uma idéia de ‘cultura’ que é essencialmente excludente, então, é mais do que compreensível a manutenção dessa lacuna na formação dos docentes. Embora temáticas totalmente atuais tenham seu fundamento na antiguidade ou no medievo – a república, o embate religioso, a renovação das mitologias fantásticas – tais temas são tratados como se tivessem surgido há menos de seis meses atrás. Novamente, é esse cenário que proporciona situações inusitadas no século 21, tais como o profissional que reza confessionalmente em sala de aula - e que é refutado por alguém que, desconhecendo igualmente história, clama pela alternativa ET como resposta.

Essa situação nos revela, claramente, a primeira das ausências – ou deficiências – que precisamos investigar. No excelente artigo de Miranda & de Luca [2004], observamos a problemática estruturação de nossos livros didáticos de história – o primeiro [e na maior parte das vezes, o último] contato que a maior parte dos estudantes terá com o tema. Há uma ênfase muito grande em narrativas episódicas, e seguem-se em, em muitos casos, a ordenação cronológica e contextual tradicional. Podemos adicionar, a essa análise, o fato de que a história antiga e a história medieval [seguindo a estrutura eurocêntrica de fases históricas] continuam sendo passadas de forma brevíssima na maior parte desses livros. Ignora-se quase por completo a Ásia; a história africana tem conquistado espaço e literatura própria, mas que não penetra diretamente nessas narrativas.

Assim, como os livros são fracos e falhos, e como a maior parte dos leitores brasileiros não se interessa muito pela literatura histórica, não é incomum que os poucos livros de sucesso, classificados como ‘históricos’, não sejam feitos por historiadores. Apenas para citar: as obras de Eduardo Bueno, Laurentino Gomes e Leandro Narloch foram sucessos de venda entre o público comum. Christian Jacques, egiptólogo que escreveu um romance histórico sobre Ramsés, é outro desses casos. Isso reflete diretamente o fato, no Brasil, de que a história, em sua base, é feita de forma deficiente [e absolutamente pouco atrativa]. Outro exemplo cabal disso é a coleção Nova História Crítica, feita por Mario Schmidt.  Provavelmente o livro didático mais difundindo no país, ele contém erros grosseiros de conteúdo, e juízos de valor bastante problemáticos. A coleção tem sido criticada pelos próprios historiadores, e apesar do Ministério da Educação desaconselhar seu uso [após anos indicando-a como adequada], ela continua sendo usada em várias escolas do país. A questão importante é que Mário Schmidt não é formado em História; e como os outros autores, é graças justamente a uma escrita mais atraente e menos compromissada com a ciência histórica que seus livros alcançam sucesso – sendo usados por historiadores preguiçosos, mal formados, e inábeis no uso dos instrumentos de pesquisa histórica [pois afinal, uma leitura crítica capacitada sobre os mesmos apontaria rapidamente essas falhas]. No entanto, o escopo da crítica histórica se perde, na medida em que os principais detratores da coleção não são, também, historiadores, o que nos permite supor até onde a ingerência política e midiática se envolve no tema.

Esse abismo, que aborda de maneira ainda mais superficial a história antiga, deixa aberta as portas para a especulação. Sobre ela, projetam-se os anseios do senso comum. O espaço da história antiga é coberto pelas visões religiosas, ou pelos aventureiros do Realismo Fantástico. A dificuldade e a escassez de classicistas dão margem a difusão dessas concepções capciosas e pseudo-científicas. Além disso, muitas vezes a produção acadêmica está distante do grande público, e é escrita para poucos. Apenas alguns manuais foram produzidos buscando aproximar-se do público mais comum, já que o professor universitário que se preocupa com a vulgarização histórica é mal visto. Ele tende a ser considerado por seus pares como ‘menos qualificado’, já que seu foco exigiria ‘menos erudição’. Pois é justamente erudição, poder de síntese, e escrita interessante que constituem talentos raros na academia. A combinação deles é mais difícil ainda de ser vista. Desse modo, abre-se então espaço para pseudo-cientistas de narrativa envolvente, que convencem o leitor de que seus livros o tornam alguém ‘com um conhecimento singular, especial, que poucos o sabem’.

A situação fica tanto mais complicada quando constatamos um segundo ponto importante nessas ausências; a quase inexistência do ensino de história das ciências e história da arte. Ambas as áreas, que poderiam solucionar a maior parte dos ‘enigmas fantásticos’ ainda no ensino médio, caem simplesmente no umbral do ensino histórico. Nem bem são lecionadas em outras áreas [ciências ou artes], nem são abordadas por historiadores. Aqui, delineia-se uma equação macabra: temos um ensino deficiente de história antiga e medieval nas escolas + ausência de história das ciências e artes + despreparo no instrumental de pesquisa histórica... Não é preciso continuar para ver que qualquer livro que ofereça uma versão mais curiosa, exótica alternativa da história será vista, como certeza, de modo fascinante pelo leitor comum.

Haja visto que temos mesmo poucos títulos para resolver essa questão. Uma coleção bastante interessante e enriquecedora é A História ilustrada da Ciência de Cambridge, publicada por Colin Ronan [Zahar, 1997]. São quatro volumes, que cobrem a história das ciências desde o mundo antigo até a época mais recente. O livro de Ronan tem ainda a vantagem de quebrar a idéia, muito comum, de que as ciências são acumulativas. O senso comum tende a acreditar que as ciências vêm acumulando conhecimento desde a antiguidade, numa evolução contínua. Isso torna inaceitável, por conseqüência, a idéia de que os antigos pudessem conhecer técnicas capazes de construir palácios, templos e pirâmides. Não se admite, por exemplo, que conhecimentos científicos tenham se perdido, ou ainda, que certas teorias não tenham sido desenvolvidas em função do contexto de época. Isso abre a brecha para a alternativa ET, que não pode ser comprovada arqueologicamente, mas também [ao menos seus defensores assim o acreditam, numa inversão completa do paradigma científico], não pode ser ‘refutada por ausência de provas’! É justamente a ausência de provas que refuta uma teoria vaga. Mas para o senso comum, não. Do mesmo modo, a complexidade da explicação dada pela história da ciência tende a afastar o leitor despreparado, que crê estar sendo ‘ludibriado’ por uma grande quantidade de informações. A leitura de livros como o de Ronan ajudaria bastante a desfazer esses equívocos.  Todavia, nem mesmo a história das ciências é uma área muito divulgada em nosso meio histórico, cabendo a outros campos científicos a sua construção conceitual.

O mesmo pode ser dito sobre a história da arte. Embora os historiadores se aventurem, ocasionalmente, no campo das imagens, as limitações de seu emprego no ensino básico e mesmo na formação acadêmica, deixa margem à promoção de concepções errôneas. Um exemplo clássico são os códigos de representação imagética. Egípcios, por exemplo, usavam proporções de tamanho diferentes para indicar o faraó, nobres e populares em seus murais. Indianos representavam seus deuses com vários braços, o que significava a extensão de seu poder. Mas os leitores do realismo fantástico lêem isso ao ‘pé da letra’, supondo que tais diferenças marcam, na verdade, seres diferentes dos humanos. Por analogia, seria como acreditar na existência de bichos falantes, por causa das atuais propagandas de ração. Há uma desconexão absoluta com o sentido de passado, incapaz de conceber a idéia de representação simbólica no mundo antigo. O problema acentua-se na medida em que concepções ingênuas, tais como as de que ‘antigamente se mentia menos’, são usadas como cerne da dúvida. É impressionante, pois, o que o desconhecimento pode causar.

Junte-se a isso o próprio desconhecimento do Realismo Fantástico sobre suas ‘fontes históricas’. O mito do ‘disco voador’ é muito mais recente do que se imagina. Em julho de 1943, a revista americana Amazing Stories publicou um conto sobre novas máquinas voadoras nazistas, que ameaçavam as missões de bombardeiros americanos. A ilustração mostrava um ‘disco voador’, arcaicamente armado de metralhadoras.

 A ilustração do primeiro Disco Voador, tal conhecemos.
Amazing Stories, Julho, 1943.

Era apenas um conto, mas depois de 1947, quando houve o primeiro ‘avistamento’ de um ‘disco voador’, a febre em torno de discos voadores começou – fossem eles nazistas ou alienígenas. E não teria o aviador Kenneth Arnold, 'vítima' desse encontro, se inspirado numa dessas histórias?, Afinal, apenas um mês antes dele se deparar com o OVNI, a mesma revista Amazing Stories lançou, em junho de 1947, um outro número em que ao tema 'extraterrestre' aparecia novamente. A par de nossa especulação, de lá pra cá, as teorias ficaram cada vez mais ‘complexas’ e sutis, e a versão ET sobrepujou os discos voadores do Eixo – a mente do realismo fantástico é implacável, e sempre opta pelo mais misterioso e fascinante, já que não pode ser provado...[2]

Capa da Amazing Stories, edição de junho de 1947


Conclusões

Diante desse quadro, as soluções que poderíamos encaminhar são as mais óbvias possíveis. Ensejar um espaço para a difusão da história das ciências e das artes possibilitaria um excelente diálogo interdisciplinar, expandiria o campo das idéias cientificas e do espírito de pesquisa. Conhecendo esse instrumental, seria possível realizar as adequações e inserções necessárias ao campo histórico.

Mesmo assim, o fortalecimento do campo de história antiga e medieval, começando pelo ensino básico, se faz necessário. Cumprindo a função basilar de fazer compreender a aurora da humanidade, a história antiga torna-se o campo de nascimento e re-intepretação dos conceitos fundamentais das civilizações. Sem ela, mesmo o ensino da ciência ou da arte correria o risco de ficar comprometido, se restrito a períodos mais recentes da história.

É importante salientar que a discussão em torno da história antiga não se dirige, somente, a ela própria. Trata-se, finalmente, de estabelecer o alicerce satisfatório para a construção de um conhecimento e de uma consciência histórica. Se o estudo da história for circunscrito somente a períodos mais recentes, correremos sempre o risco de desconectarmos com o passado, criando miragens sobre ele – e nessas ilusões, a influência ufológica, ou religiosa, são as mais problemáticas. Ao fazermos opções restritivas no ensino de história, deixando de lado a história antiga, deixamos de lado também a própria construção do conhecimento histórico.

Há que se buscar, enfim, uma ampliação de nossos campos de estudo e de visão sobre nossas origens, e sobre as outras civilizações que compõem nosso vasto mundo. No ‘outro’ – no antigo, no medievo, no asiático, no africano – escondem-se ainda maravilhas, ao nosso conhecimento comum, que por si só revelam o que ainda existe de realmente fantástico em nosso mundo, sem as interferências alienígenas ou hierofânicas. Se as ciências e a arte puderem, ainda, nos encaminhar para uma tradução dos símbolos, meios e sentidos de outras formas de compreender o mundo, isso por si só fomentará a criação de uma consciência histórica bem diversa daquela que conhecemos hoje, e que possibilitará uma formação enriquecedora, crítica e aberta aos desafios de uma verdadeira investigação do mundo.

E então, somente então... Poderemos saber também se algum extraterrestre já passou por aqui. Mas falta de tudo pra isso!

Referências
Além daquelas, já citadas no corpo do texto, podemos consultar:

SAGAN, Carl. Um mundo assombrado por demônios. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.







[1] Para compreendermos melhor o problema, no site do GT de História Antiga da ANPUH, um mapeamento preciso apresenta quantos professores especializados em História Antiga estão presentes em instituições públicas de Ensino Superior. Comparem com o número de universidades no Brasil e veremos o quão urgente é o problema. Conferir em: http://www.gtantiga.com/estados.htm 
[2] Cito aqui apenas a aparição da primeira imagem do 'Disco Voador' como máquina 'fantástica' e 'real'. Não é preciso ressaltar que em 1898, H. G. Wells já havia publicado "Guerra dos Mundos" tratando sobre Marcianos, e em 1902, "O primeiro homem na Lua", falando dos selenitas [insetos lunares]. Em 1928 surgiu o personagem de quadrinhos Buck Rogers, num ambiente espacial cheio de máquinas voadoras. Havia uma substancial literatura de ficção em andamento.

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