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Não há desvios no Caminho do Estudo



Muito estudo leva a erudição; pouco estudo, a superficialidade. Ampliar sua visão de mundo leva a profundidade; reduzi-la, a estreiteza de juízo.  
[子 Xunzi, -313 a -238]

Quando Xunzi citou esse pequeno trecho, ele tinha em mente a sempre onipresente questão do estudo. Estudar é um verbo, em chinês, cuja dimensão ultrapassa o sentido que temos em português [no Brasil] do que seja o ato de imbuir-se do desejo de conhecer, e do hábito de exercitar essa busca.

Quando eu estudava chinês, lembro de tontearmos nossa professora com uma pegadinha – que então compreendi – existe em nossa língua, mas não necessariamente em chinês. Ao explicar o que era o verbo chinês ‘estudar’ [xue], perguntamos também como seria o verbo ‘aprender’. Nossa professora não compreendeu a pergunta. Para ela – e para os bilhões de chineses – estudar é aprender. Dissemos que em português [Brasil] era possível ‘estudar e não aprender, e aprender sem estudar’. Ela não compreendeu. Eu sim, e me bateu a vergonha da situação. Não a vergonha de ser brasileiro; mas de perceber que, infelizmente, temos isso encruado em nossa cultura. Talvez por serem milenares, os chineses perceberam que estudar é aprender, e vice-versa. Perde-se em riqueza lingüística, mas ganha-se em sentido. O que restou a nossa docente foi explicar que em chinês, você pode estudar [xue], mas não compreender [dong]; e que é muito estranho afirmar que alguém compreendeu sem estudar, pois se parte do pressuposto que, se compreendeu, estudou [a questão, ao menos]. De fato, se entendia que se alguém estudara, mas não compreendera, é porque precisava estudar mais.

Essa discussão poderia ser infrutífera e meramente formal, se ela não levasse ao seguinte ponto: milênios atrás, os chineses já haviam compreendido que não se nasce sabendo.‘Dom’, ‘benção do saber’, ‘facilidade’, ‘esperteza’, são coisas limitadas e imaginárias. Obviamente, os chineses não tinham dúvidas que os talentos pessoais variavam de pessoas para pessoa. Mas desenvolvê-los era outra coisa. Ainda que as pessoas tenham suas propensões, se não as desenvolverem, elas estagnam. Xunzi estava consciente disso. Ele começara a estudar em idade avançada, e ressentia-se sempre do que não sabia. Ainda que desse demonstrações cabais de capacidade, o tempo perdido nunca seria recuperado.

Talvez seja importante lembrar que essa discussão é antiga na China, e talvez por isso eles tenham superado deste ponto. Portanto, se o modelo da analogia nos serve, poderíamos aproveitar a experiência chinesa para calar, de vez, nossos maus hábitos culturais de acreditar na sapiência da esperteza. Wang Chong, estudioso da dinastia Han, deixou isso bem claro no século +1:

Nenhuma pessoa inteligente teve êxito sem ter estudado, nem chegou a aprender sem ter questionado. Alguém poderia objetar: ‘mas não é verdade que Xiang Tuo, uma criança de sete anos, ensinou Confúcio?[1] Aos sete anos ele nem estava na escola. Mas o que se fala aqui é das pessoas que nascem sabendo. Durante o reinado de Wang Mang [+9 a +25], havia na prefeitura de Bohai um jovem de vinte e um anos chamado Yin Fang, que não tivera professor nem estudara com amigos, mas possuía uma inteligência inata. Dominava todos os cinco livros clássicos do Confucionismo. Chunyu Cang, magistrado local de Weidu, informou a corte, dizendo que Yin Fang, sem haver estudado, sabia recitar de memória composições literárias que só havia lido uma vez, e sabia comentar questões sobre diversos temas, citando os cinco clássicos confucionistas para explicar textos e analisar seu conteúdo, satisfazendo a todos. As pessoas o chamavam de santo, do sábio sem estudo, do gênio sem mestre. Isso não era algo divino?’. Minha resposta é: ainda que ele não tenha tido mestre ou colegas, ele teve que perguntar aos demais, e ouvir a resposta, para esclarecer certas questões. Mesmo que não tenha lido livros, ele sabe ler e escrever. Uma criança recém-nascida, cujos olhos e ouvidos nem se abriram, é incapaz de entender a verdade das coisas, por melhores que sejam seus dotes naturais. Xiang Tuo deu mostras de talento aos sete anos, mas aos três ou quatro anos, já ouvia falar sobre as pessoas. Yin Fang maravilhou a todos aos vinte e um anos, mas já devia ter visto e ouvido bastante coisa desde os quinze anos. [...] São casos de inteligência precoce os de Xiang Tuo e Yin Fang. Quanto a Huangdi [imperador amarelo] e Diku [antigo sábio], mesmo com inspirações divinas, podem também contar entre aqueles que tinham uma inteligência precoce. É certo que algumas pessoas alcançam a maturidade intelectual antes das outras, mas em todo o caso isso só acontece através do estudo. Há pessoas que, mesmo que não tenham estudado com mestres, pais ou irmãos, são objeto de excessivos elogios por parte daqueles que só enxergam seus êxitos em idade tenra. É dito que Xiang Tuo fez isso e aquilo com sete anos, mas suspeito que ele tinha dez anos; e se diz que ele ensinou Confúcio, mas acredito que Confúcio tenha lhe feito as perguntas. Dizem que Huangdi e Diku nasceram falando; mas qualquer criança só começa a falar pelos três ou quatro anos, e penso que esse é o caso. Dizem que Yin Fang tinha apenas vinte e um anos quando deu mostras de seu talento, mas o mais provável é que ele já tivesse trinta anos. Afirmam que ele não estudara nem com mestres nem com colegas, mas soube que ele estudou sozinho, e teve orientações de pais e irmãos em casa. É prática mais do que habitual neste nosso mundo fazer elogios pródigos além da verdade, ou difamar uma pessoa aumentando seus defeitos reais. Segundo a tradição, Yan Kuan, discípulo de Confúcio, escalou o monte Taishan aos trinta anos, e ali vislumbrou um cavalo branco amarrado fora do portão ocidental da muralha da capital do estado de Wu. No entanto, ao investigarmos os fatos e o terreno, revelou-se que aos trinta anos Yan Kuan não escalou o Monte Taishan, nem viu a capital do estado de Wu. Os elogios feitos a Xiang Tuo e Yin Fang são indignos de crédito, como é falso tudo que se possa dizer de Yan Kuan. As pessoas diferem em talentos, mas só chegam a saber aprendendo; quem aprende, sabe; e quem não aprende não sabe. [ Wang Chong, +27 a +97]

O trecho ‘ainda que ele não tenha tido mestre ou colegas, ele teve que perguntar aos demais, e ouvir a resposta, para esclarecer certas questões. Mesmo que não tenha lido livros, ele sabe ler e escrever. Uma criança recém-nascida, cujos olhos e ouvidos nem se abriram, é incapaz de entender a verdade das coisas, por melhores que sejam seus dotes naturais’ é absolutamente esclarecedor. As pessoas esquecem, hoje, que tiveram que estudar com um professor para aprenderem a ler e escrever. Algumas afirmam que ‘aprenderam tudo sozinhas’. Sozinhas, na verdade, eles não teriam sobrevivido algumas semanas depois de nascer. É humano – e talvez muito brasileiro – renegar os mestres, e afirmar-se sábio de si mesmo. A desvalorização dos professores em nossa cultura depende, em parte, desse problemático valor cultural de acreditar que as diferenças intelectuais são ‘naturais’; alguns nascem sabendo, outros nunca. O desinteresse no estudo é falsamente justificado por uma natural incapacidade individual. Ora, desde o século +1 os chineses sabem que não é bem assim. Eles inverteram o paradigma. Qualquer um poderia ser inteligente, com esforço. Quem tem potencial, porém, se não o desenvolve. O mesmo Confúcio, que teria sido avacalhado na apócrifa história de Xiang Tuo, teria dado o troco em outra historieta [igualmente apócrifa] em que, ao passear com seus discípulos, encontraram uma vila em que havia uma criança tida como sábia. Confúcio a perguntou: ‘como poderíamos igualar a todos?’. A criança respondeu: ‘montanhas iguais cansarão as aves; rios iguais matarão os peixes; se o chefe e o louco forem iguais, não haverá ordem. Pra que igualar? Deixe tudo diferente’. Os discípulos de Confúcio ficaram impressionados com a criança. Afirmaram: ‘nossa, quem dera se todas as crianças fossem assim’. Ao que Confúcio respondeu: ‘conheci muitas crianças que ao invés de estarem brincando, queriam saber o mundo. Quando cresceram, não deram em nada, nem fizeram algo grande: elas nunca conheceram a inocência na pureza da infância’ [孔丛子Kongcongzi].

Ao ler isso, podemos supor que Confúcio era contra o estudo, e assim se contradizia? Claro que não, é justamente o contrário. Confúcio nos informa que, sem estudo, a bajulação dos adultos prejudicaria o desenvolvimento infantil. Ainda que ela tivesse talento, precisaria estudar. Wang Chong repetiria esse argumento. A fantasia sobre uma suposta ‘inteligência superior na infância’ estragaria o crescimento. Isso tudo, porque, as pessoas teriam o hábito de ser orgulhar de crianças inteligentes – afinal, quem não gostaria de saber sem ter que estudar? Esse é um desejo humano, absolutamente concebível pela ideologia da preguiça, mas dificilmente – senão impossível – de ser alcançado. Os chineses aprenderam isso há muitos séculos atrás. Deveríamos ser cautelosos, pois, com a desconsideração pelo estudo.

O reverso dessa ponderação é o afã de demonstrar algum estudo, sem uma real aquisição. Novamente, a questão é meramente de ostentação. Os chineses tiveram que lidar continuamente com isso. O desprezo ao estudo fora substituído pela vaidade de representar um aparente conhecimento – sem o tê-lo, de fato. O problema se acentuou com o desenvolvimento dos concursos públicos na China, depois da dinastia Han, em que o preparo do aluno levava anos, e começava cedo. Eu poderia destacar algumas citações que ilustram a questão, mas pulemos direto ao século 12 [a história chinesa nos permite essas transposições, em alguns casos], quando Yeshi nos diz que:

Confúcio devia estar aludindo a alguns casos concretos quando falou sobre ‘estudar sem refletir’ e ‘refletir sem estudar’. Vemos o que fazem as gerações atuais. Estudando os livros clássicos, herdam de geração em geração opiniões superficiais e sem substância. Estes são os que não pensam. Outro tipo são aqueles que, de forma fingida, divagam sobre a ‘natureza humana’ e o ‘mandato celeste’, e andam envaidecidos do pouco que sabem. Estes são o que não estudam. Os letrados vulgares pertencem ou a uma categoria ou a outra. [叶适Yeshi, +1150 a +1223]

Não existiria, pois – e já nessa época o vocábulo já se delineou – ‘estudar sem aprender’ ou ‘aprender sem estudar’. Verbos como refletir [si] ou compreender [dong] representam uma perspectiva anexa a de estudar [xue]. A completa educação [jiao] só se dá quando o estudo proporciona o real aprendizado.

Todavia, como disse, a China pode nos servir de modelo de comparação – inclusive em seus problemas. A fixação no estudo presunçoso e isento de profundidade arrastar-se-ia na burocracia imperial, que criara mecanismos para driblar o estudo sincero. Entre eles, está a ‘demonstração de leitura’. Quem não conhece pessoas que se orgulham de seus milhões de livros, de suas vastas leituras, mas ao fim se comprazem apenas com resumos explicativos, sem adentrar em qualquer tópico? Como disse Feng Ban:

Há quem considere que são estudiosos aqueles que lêem com uma rapidez extraordinária, terminando dezenas de volumes por dia, e persistindo em leituras cansativas até exaurir-se. No entanto, creio que esse trabalho todo renda muito pouco. Sustento essa opinião bem embasado. Uma leitura rápida torna impossível deter-se em reflexões tranqüilas e profundas; uma leitura ligeira não basta para consolidar o que foi lido. Se alguém lê desta maneira, apesar de sua aplicação e assiduidade, é como se não tivesse lido nada. [ Feng Ban, +1602 +1671]

Séculos depois, portanto, o problema muda, mas continua a girar em torno do problema do ato de estudar. Se antes acreditava-se na inteligência inata, agora, alguns praticavam a ‘facilitação’. Esses maus hábitos iriam proporcionar tempos calamitosos para os chineses, nos quais muitos ‘letrados’, despreparados para lidar com o futuro, se aferravam a sua arrogância ignorante. Seria por isso que 泽东 Mao Zedong [1893-1976] afirmaria, numa frase bastante dúbia, que ‘os fundadores das antigas escolas de pensamento eram jovens despreparados, que ao vislumbrarem algo novo, aferravam-se a isso, desafiando os antigos’. Nada mais verdadeiro para justificar o atropelo fatídico e mortal da jovem guarda vermelha nos tempos da revolução cultural [1966]. No entanto, isso era uma justificativa para a falta de estudo, apenas. A mudança pretendida, calcada na violência, se passava por um ‘novo saber’. Tivesse Mao aprofundado suas leituras, teria visto que nenhum dos antigos aprendeu sozinho, e até a negação de algo pressupõe a sua existência [mesmo que conceitual]. Por isso seu projeto falhou, e durou pouco depois de sua morte. Mas a falta do estudo aprofundado, essa sim, causou incompreensão, ignorância e por fim, morte.

Assim sendo, não há desvios no caminho do estudo. Podem-se mudar as técnicas e métodos de ensino, mas a atividade fundamental do estudo real depende, ainda, do mergulho do leitor, e de sua reflexão. Ainda hoje, não há outra via: e as experiências milenares, se nos servem para algo, ilustram essa inevitável realidade.
  






[1] Sobre Xiang Tuo, um interessante artigo é o de Márcia Schamltz, que pode ser visto aqui. Uma versão do conto pode ser vista aqui.

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