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História e Realismo Fantástico: uma questão de Ensino?


Em pleno século 21, recebemos alunos, na universidade, que acreditam realmente que as pirâmides foram construídas por extraterrestres. Eu gostaria de utilizar o termo ‘ainda recebemos’, mas o número razoável de crentes nessas teorias é relativamente grande. Mesmo com todas as descobertas arqueológicas e textuais, que diminuem praticamente a zero as chances de tais hipóteses serem viáveis, muitas pessoas continuam a compartilhar dessas teorias, comumente chamadas de Realismo Fantástico.[1]Igualmente, muitos acadêmicos não demonstram acreditar num passado dominado por discos voadores e civilizações perdidas: mas, eles são minimamente incapazes de refutar tais hipóteses esdrúxulas, denotando um claro problema de formação.
Essa colocação inquietante me chamou a atenção para o problema. Porque, mesmo com tanto conhecimento científico disponível, e demonstrações de prova que muitas dessas teorias fantásticas são fraudulentas, elas continuam a chamar atenção do público? Um dos pais dessas teorias, Erich Von Daniken [cuja obra iremos destacar aqui] percorreu diversas cidades brasileiras em 2013, lotando as audiências. O que torna o Realismo Fantástico tão atraente para o grande público? Em minha opinião, há uma conexão íntima e profunda entre o descalabro que afeta o campo do ensino de história e a reprodução dessas teorias ficcionais. É o que discutiremos, portanto, a seguir.

Quando surge o Realismo Fantástico?
Para termos uma idéia de quando ‘começa toda essa história’, precisamos retornar ao final do século 19. Surgia, em Nova Iorque, a Sociedade Teosófica, comanda pela misteriosa russa Helena Blavatsky. Tratava-se de uma ordem esotérica, de cunho multireligioso, que agregava diversos tipos de disciplinas místicas, principalmente de inspiração indiana. Sua história complexa e bastante controversa foi bem estudada por Peter Washington, no livro O Babuíno de Madame Blavatisky[Record, 2000]. A Teosofia apareceu numa época em que as regras científicas ainda estavam sendo construídas, a teoria da seleção natural de Darwin lutava pra se impor, e a religião era uma questão difícil de ser discutida. O ‘Oriente’, e sua diversidade cultural, eram pouco conhecidos. Isso deixava grande margem, pois, a especulações de todos os gêneros – um terreno fértil para os esotéricos.
Com fragmentos de conhecimento tão dispersos, teorias esdrúxulas, mas atraentes, ganhavam facilmente novos adeptos. A importante para nós, aqui, é aquela que retoma o mito das civilizações antigas. A Sociedade Teosófica publicou vários livros sobre antigas civilizações desaparecidas, que teriam produzido conhecimentos espirituais vastos e profundos, aos quais - basicamente – os membros da Teosofia [e no Ocidente, só eles] tinham acesso. A Doutrina Secreta e Ísis sem véu são dois livros de Blavatisky que comentam a retomada do antigo mito platônico de uma civilização que vivia no meio do Atlântico. William Scott-Elliot, um dos principais membros da Sociedade publicaria, depois, o mais detalhado A história de Atlântida e Lemúria[em português: Atlântida e Lemúria – continentes desaparecidos], adicionando mais um povo perdido ao ‘conhecimento secreto’ teosófico. Annie Besant, outra destacada membro da ordem, iria publicar mais tarde O Homem: de onde e como veio e para onde vai?, livro no qual analisa não apenas Atlântida, mas também a civilização asiática misteriosa de Shambhala.
É interessante notar que todo esse conhecimento segue um padrão: primeiro, ele fala de civilizações lendárias, cujas citações são esparsas, e geralmente estão presentes numa literatura mitológica [mesmo a citação de Platão é tratada como tal no próprio Timeu, onde ela aparece]. Segundo, essas informações são reveladas sempre a partir de arquivos ocultos, e acessados por meio de Telepatia ou viagem astral. É necessário, portanto, depositar uma boa dose de fé nessas narrativas, que carecem de evidências palpáveis.
Mas é aqui que entra o primeiro desafio científico interessante. Como as ciências históricas dependem de um conhecimento dinâmico, que pode transformar-se com novas descobertas materiais, o esoterismo se vale da velha armadilha lógica que é: ‘você não pode provar que existiu, mas não pode provar que não existiu’. Ou seja: como um conhecimento ‘consolidado’ pode mudar [lembremos, foi no século 19 que Schliemann desenterrou Tróia], havia com certeza uma ‘grande esperança’ que essas civilizações pudessem ser ‘descobertas’. Ou ao menos, os esotéricos assim o vendiam. A questão é que não havia nenhuma evidência que corroborasse essas crenças. Mais: ela dependia de um instrumental telepático pouco disponível ao público comum. Aqui entra um segundo elemento do discurso esotérico bastante eficaz na construção de falácias: a questão da ‘autoridade’. Deixe dar um exemplo: você toma um remédio, mas não sabe como ele é feito. Se você acredita que ele pode te fazer bem, porque não tomar? Você o toma porque acredita na autoridade da fábrica, dos cientistas, e dos médicos. Do mesmo modo, porque não acreditar nos livros teosóficos? É só acreditar na autoridade dos mestres. Obviamente, estamos voltando, porém, a uma época em que nem existia penicilina. Assim, argumentos analógicos são fáceis de estabelecer, mas difíceis de levar adiante. Há um problema sério nesse argumento: se um remédio funciona, ele existe, porque é eficaz. Logo, o que prova que tais civilizações teriam existido, se não há provas de sua existência [isto é, uma prova ‘eficaz’?]? Do mesmo modo, se o remédio não funciona, logo, ele é irreal. Isso afunda de vez, então, a possível analogia com a veracidade da proposição teosófica. Em ambos os casos, ela se mostraria falha. Há um terceiro argumento, no entanto, que amarra esses dois anteriores: a autoridade do mestre espiritual não pode ser comprovada nem refutada, porque não pertence ao mundo material [isso é, da ciência]. De fato, esse terceiro argumento é irrefutável. A ciência só pode afirmar o que pode provar; a crença pode afirmar o que quiser, mas dificilmente pode provar qualquer coisa. Mas em sociedades nas quais a maior parte da população não dominava os elementos básicos da produção do conhecimento científico, tais argumentos eram distantes e inúteis. Por isso mesmo, os livros da Sociedade foram um sucesso. E o esquema de argumentação do Realismo Fantástico se estabeleceria, sendo aperfeiçoado com o passar dos anos, como veremos.[2]

A chegada dos alienígenas
O último dos videntes dessa geração a escrever um livro sobre Atlântida foi Edgar Cayce [1877-1945], famoso telepata que descreveu em pormenores a vida do continente perdido – sempre por meio de visões. Cayce introduziu dois elementos novos nessa narrativa: primeiro, de que Atlântida ressurgiria e seria descoberta [Cayce chegou a fornecer dados geográficos para tal]; segundo, de que os atlantes teriam conhecido tecnologias avançadíssimas, mesmo para os dias de hoje, e que teriam se perdido com a destruição de sua terra. A primeira previsão não se verificou ainda; mas a segunda estabeleceu um elo importante com o que viria a seguir: a idéia da tecnologia perdida no passado. A proposta de Cayce se ligava a ignorância do público em história, arqueologia e engenharia: as civilizações do passado não teriam condições de construir os monumentos arquitetônicos que hoje conhecemos sem algum tipo de interferência moderna. Por desconhecerem noções básicas de construção, os esotéricos, junto com a maior parte da sociedade, julgavam os antigos incapazes de realizar algo digno de nota. Eles seriam totalmente desprovidos de criatividade, com exceção daqueles que possuíam algum contato oculto. O salto tecnológico na virada do século forçava uma revisão do discurso espiritualista puro e simples. Lembremos: Cayce viveu num século que começou com o ser humano no chão: catorze anos depois, ele já voava e guerreava no céu; por fim, em 1945, quando ele falece, já existia a bomba atômica e foguetes que chegavam quase ao espaço. Essa ‘vivência tecnológica’ seria incorporada no conhecimento fantástico sobre as civilizações do passado, e se daria pela chegada dos alienígenas.
Vamos relembrar, mais uma vez, o que acontece após a Segunda Guerra Mundial.[3] Em 1947, o oficial da força aérea americana, Kenneth Arnold, avista estranhas formas luminosas no céu, que ele chamaria de ‘flaying saucer’ [disco voador]. Isso foi em junho. O termo pega rapidamente. Visões múltiplas de objetos estranhos começam a pipocar nos céus de todo o mundo. No mês de julho, um ‘objeto misterioso’ cai em Roswell [Estados Unidos], e um dos oficiais envolvidos na investigação afirma ser uma nave extraterrestre. O Ocidente começa a viver uma paranóia alimentada pela perspectiva de destruição total – estamos no início da Guerra Fria, e em 1949, os soviéticos testam sua primeira bomba atômica. Ocorre, então, uma mistura complexa e fértil no imaginário da época. O desenvolvimento de altas tecnologias, aliada a insegurança da sobrevivência humana, desperta a incerteza e um medo especial em relação ao desconhecido. As máquinas voadoras poderiam ser soviéticas, ou viriam de outra inteligência estranha – e talvez, não-terrestre? O cinema pega rapidamente o gancho dessa situação: em 1951, é lançado o absolutamente épico O dia em que a Terra parou, no qual um alienígena vem avisar a humanidade sobre os perigos de sua autodestruição. Em 1953, A Guerra dos mundos [filmagem da novela de H. G. Wells] traz os marcianos explodindo o planeta sem dó nem piedade; em 1956, A invasão dos discos voadores recria o ambiente de incerteza sobre os alienígenas, e decreta sua periculosidade total.
O mundo estava vivendo um clima de grande insegurança. Além da realidade do conflito entre as grandes potências, a novidade ‘extraterrestre’ se inseria como uma novidade tecnológica ficcional. Ela passa a existir, de modo abundante, na literatura e no cinema, abrindo perspectivas no imaginário relativas à questão do rápido desenvolvimento tecnológico. Tais mudanças e descobertas não foram assimiladas de pronto no âmbito educacional e social, causando um sério impacto na mentalidade comum. Essa ampla gama de teorias e conhecimentos, cada vez mais distantes e incompreensíveis ao cidadão mediano, torna-se um prato cheio para a especulação. Podemos dizer, pois, que o mundo estava ‘preparado’ para a retomada o Realismo Fantástico.
Em 1960, Louis Pauwels e Jacques Bergier publicam o sucesso de vendas O despertar dos mágicos. O livro é uma coletânea de ensaios e crônicas, que tratava sobre os mais diversos temas relacionados à história do ocultismo e do Realismo Fantástico. Retomando a linha criada por Cayce, entre outros autores esotéricos, o livro afirmava a existência de um passado, na história da humanidade, altamente desenvolvido tecnológica e espiritualmente. Há um dado novo aqui, importante a ser ressaltado: Pauwels e Bergier inserem [pela primeira vez, de forma marcante e incisiva] que as grandes obras da humanidade no passado possuem alguma conexão com essas ciências perdidas. Notem: eles invertem o paradigma dos teosóficos, ainda que lhes dessem certa continuidade. Eles partem de monumentos que existem, para afirmar a legitimidade de suas afirmações. Vejam o que o esquema do discurso do Realismo Fantástico se aperfeiçoa. Não se pode afirmar que essa proposta [os monumentos do passado foram criados por inteligências superiores] é válida; mas, se a ciência não pode explicar como eles foram construídos, então, a hipótese fantástica não pode ser excluída. Como poucos historiadores entendem de engenharia, e como poucos engenheiros ligam pra história – e ainda, como eles são em número reduzido ao redor de todo mundo – quase todos os leitores comuns desconhecem os métodos de construção na antiguidade. Isso proporciona a oportunidade para que a hipótese da ‘inteligência fantástica do passado’ ‘pareça razoável’ para o leitor calcado no senso comum. Isso parece absurdo, mas não é. Uma pessoa pode participar da construção de um prédio ou de uma ponte sem minimamente saber as teorias que fundam o projeto. Imagine-se, pois, quem apenas vê o prédio surgir por detrás dos tapumes. Tal inteligência lhe é ‘inacessível’. E se ele não a compreende, agora, no mundo moderno, ele não pode aceitar que ela já possa ter existido na antiguidade. É uma percepção emocional, incapaz de supor que houvesse tecnologia no passado – exceto, claro, aquela oculta, desconhecida. Se o conhecimento científico se acumula ao longo das eras [uma teoria do senso comum], então, o que sabemos hoje ‘nunca poderia ter sido’ inferior ao que se sabia no passado. Logo, nessa ‘lógica infalível’, é necessário que na antiguidade já houvesse pessoas iluminadas que soubessem tais conhecimentos, caso contrário, os grandes monumentos seriam inviáveis. O exemplo das pirâmides é clássico. Dê-se uma caixa de Lego para crianças, e elas começaram a empilhá-las para cima. O formato da pirâmide é básico. No próprio Egito, até hoje, se cortam pedras com as técnicas de milênios atrás – algo fácil e simples, que os pedreiros de lá conhecem. Todavia, como ‘existem pirâmides’ em ‘todos os lugares do mundo’ [um erro grotesco que tenta associar os templos da Mesoamérica e da Mesopotâmia com as pirâmides do Egito], e como ninguém visita uma pedreira egípcia nas férias, fica mais intrigante então supor uma associação misteriosa de formas, saberes e técnicas. Por fim, os autores fizeram uma extensa pesquisa em livros de história antigos [ou seja, superados em termos científicos] e com ‘cientistas não compreendidos pela academia’ [amadores] para validarem [equivocadamente] seus pontos de vista.
O despertar dos mágicos[4] conseguiu, mesmo assim, uma façanha notável. Ele deslocou o problema de não podermos provar Atlântida ou Lemúria por meio de evidências materiais, mas que as evidências materiais de qualquer civilização grandiosa do passado deveriam ser lidas de modos alternativos. Partia-se, pois, de algo existente, para se criar uma teoria dificilmente comprovável – e, no entanto, aparentemente ‘lógica’.
Contudo, havia uma lacuna nessa teoria: o que aconteceu com a humanidade supra-inteligente da antiguidade? Porque essas mentes superiores não foram capazes de garantir sua própria sobrevivência? Claro, isso soava como um bom aviso contra os desatinos da humanidade da época, mas não explicava o porquê do sumiço quase absoluto de textos e explicações dos próprios antigos sobre suas tecnologias. Quem iria ‘resolver’ esse problema de modo brilhante seria Erich Von Daniken, e seus Deuses Astronautas.

Os Deuses Astronautas [1968]
A teoria de que a humanidade poderia ter sido colonizada, no passado, por seres extraterrestres, foi desenvolvida em meio ao imaginário da década de 50 e 60. Como vimos, os discos voadores pululavam nas fantasias mentais da sociedade ocidental. Morris Jessup foi o primeiro a imaginar que alienígenas poderiam ser os seres divinos que apareciam na Bíblia, em seu Os Ovnis e a Bíblia [1956]. Jessup era um estudioso de ‘Ufologia’, e morreu em circunstâncias misteriosas, o que só aumentou o interesse por sua obra. Foi Robert Charroux, no entanto, que imaginou, pela primeira vez, que as ‘inteligências perdidas do passado’ seriam, de fato, presenças extraterrestres. Elas teriam interferido, diretamente, na construção das civilizações humanas, não só atuando como professores, mas também, surgindo como seres divinos e/ou mesclando-se a população.[5]História desconhecida dos homens foi publicado em 1963 na França, e no mesmo ano, já dispunha de uma tradução para o português. Charroux, porém, escrevia em francês, num momento em que o inglês tornava-se uma língua de difusão mundial. Sua pesquisa era bastante básica, estabelecida em monumentos razoavelmente conhecidos. O autor inglês W. Raymond Drake também publicou, um ano depois, Gods or Spacemen? [Deuses ou Astronautas?, 1964] - mas a obra de Drake teve pouca repercussão. Em 1968, ele começou a publicar uma série de livros sobre Extraterrestres e Culturas antigas, dos quais Deuses e Astronautas no Antigo Oriente [1968] foi o mais divulgado no Brasil. Sua tese, assim como os problemas, eram os mesmos de Charroux. No entanto, podemos considerar que o principal autor desse gênero foi o suíço Erich Von Daniken, que publicou em 1968 o estrondoso sucesso Chariot of the Gods [em português: Eram os deuses astronautas?]. Nesse livro, ele propunha uma série de associações entre imagens e textos da antiguidade com a presença alienígena no planeta. Nossos deuses do passado seriam, na verdade, seres extraterrestres, dotados de um conhecimento superior, que ajudaram a fundar as civilizações - e isso teria sido um processo mundial. Isentos de qualquer criatividade ou imaginação, os antigos não poderiam inventar mitos sobre deuses ou máquinas que voavam - elas teriam existido de fato, por serem alienígenas.
Daniken contava com o fato de Drake ser pouco lido, e tinha vantagens imprescindíveis sobre Charroux: escrevia em inglês, e tinha feito uma ‘exaustiva pesquisa’ para referendar suas propostas fantásticas. Claro, quando falamos ‘exaustiva pesquisa’, devemos lembrar que se trata de três tipos de materiais básicos: livros de história superados, livros de Realismo Fantástico, e pesquisas de cunho próprio que leem objetos arqueológicos e textuais de modo absolutamente equivocado, sem treino, sem conhecimento de línguas antigas, sem conhecimento de fontes, etc. Os cientistas consultados são quase sempre ‘autoridades’ sem formação técnica [diletantes]. Mesmo assim, Daniken era capaz de instigar o leitor com inúmeras indagações e referências aparentemente conexas. Acusações de plágio forçaram Daniken a incluir Charroux em suas citações bibliográficas, e ambos continuaram a produzir uma vasta literatura sobre o tema ao longo de suas vidas. Daniken, porém, se comunicava com um vasto público. Na época de lançamento do seu livro, a corrida espacial estimulava ainda mais a teorias sobre seres vindos de outros planetas. Em 1969, a chegada dos americanos na Lua alavancou as vendas do livro. O movimento hippie, ativo naquele momento, era também um ávido leitor de teorias esotéricas e alternativas. Daniken aperfeiçoou a estratégia do discurso no Realismo Fantástico. Seus questionamentos amadores forçavam os especialistas e demandarem longas explicações técnicas sobre seus pontos de vista equivocados. Como sabemos, uma boa explicação resolve um problema: mas quando os leitores não dispõem de conhecimentos técnicos suficientes para assimilarem tais informações, a explicação torna-se aparentemente uma ‘enrolação’. Na lógica do senso comum, quanto mais difícil é uma afirmação, mais ela parece improvável – e aí, o que é realmente improvável [a teoria fantástica] se torna plausível, porque parece mais fácil.
Devemos lembrar que a questão ufológica estava longe de ser encerrada. Somente em 1970 o projeto Livro Azul, criado pela força aérea americana, foi fechado. O projeto destinava-se a analisar as evidências tidas como OVNI [objeto voador não identificado, em inglês ‘UFO’], e classificá-las. Na maior parte dos casos, tratavam-se apenas de fenômenos naturais ou atmosféricos, e somente uma pequena parte dos casos foi classificada realmente como OVNI. A questão, aqui, é que o problema com os extraterrestres fora tratado como um assunto de Estado; ele continuava vivo no imaginário popular; e a obra de Daniken popularizou a concepção de que sua existência poderia ser verídica. Daniken amarrou toda a experiência anterior desse gênero literário, sob um manto de aparente cientificidade. Institui o discurso a partir de evidências materiais e arqueológicas [ainda que elas fossem lidas sob efeito de uma clara Pareidolia], questiona a impossibilidade de existirem inteligências no passado capaz de construí-las, e insere uma resposta para suprir a lacuna. A resposta, simples de assimilar, fácil de defender, mas incapaz de ser comprovada, dá segurança ao seu adepto. Ela pode ser refutada, mas apenas aquele com um conhecimento epistemológico básico – ou ao menos, disposto realmente a aprender – pode compreender as respostas, o que torna reduzido o número de defensores da razão.[6]Isso propiciou um panorama perfeito para que, ao longo das décadas de 70 e 80, milhares de livros e filmes sobre vida alienígena fossem lançados, mantendo vivas essas teorias. Lembremos que Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg, lançado em 1977, alcançou um sucesso notável nos cinemas, e mostrou que o gênero estava mais vivo do que nunca. No Brasil, a editora Ediouro publicou uma vasta coleção de livros, intitulada ‘Realismo Fantástico’, que vendeu como água até a década de 90 [e que juntava misticismo, ufologia, história fantástica, mistérios paranormais, enfim, tudo que havia de ‘estranho e oculto’]. Passadas quase duas décadas, algumas dessas publicações continuam a circular, embora em menor intensidade, divulgando essas teorias. Não é de estranhar, pois, que em 2013, Daniken fez uma excursão exclusiva pelo Brasil, lançando seu novo livro, e defendendo suas antigas hipóteses. Daniken chegou a aparecer em programas televisivos, com um destaque que qualquer historiador habilitado a contradizê-lo não recebe.

Revendo a teoria do discurso do Realismo Fantástico
Para compreender, então, o mecanismo de ação pelo qual teorias como as de Daniken [e do Realismo Fantástico] funcionam tão bem junto ao público em geral, precisamos revisar seus esquema de apresentação, para saber – por fim – no que o Ensino de História [nosso tema inicial] está falhando.
Para começar, precisamos lembrar o que é o senso comum, que tanto citamos aqui.  O senso comum é um conjunto de fragmentos de conceitos, idéias, teorias e conhecimentos técnicos agrupado de modo livre [ou, caótico] na mentalidade de uma sociedade e, em escala micro-cósmica, na cabeça dos indivíduos. O grande número de ciências existentes torna impossível ao indivíduo compreender o funcionamento de todas as coisas existentes. Assim, ele se relaciona, em geral, com o produto delas. Como vimos, ele toma um remédio qualquer para se curar de algo, mas não compreende seu funcionamento. Ele crê no médico, por supor que seu diploma é real, e representa a experiência nesse campo. Há, portanto, uma desconexão entre a produção dos saberes e o contato, da maior parte da sociedade, com as teorias e métodos que os fundamentam e os realizam. Do mesmo modo, como a ciência é mutável, e o conhecimento existente pode ser aperfeiçoado, o senso comum detecta o que acredita ser uma falibilidade das ciências, tornando-as passíveis de desconfiança.
Essas lacunas acabam sendo providas pelo pensamento mítico e religioso, que se relaciona de forma complexa com os pensamentos científicos. Ao contrário do que se imagina, ambos não se excluem totalmente. Ciências e religiões se interpenetram em movimentos oscilantes, ora aproximando-se, ora afastando-se. Padres tomam aspirina, por exemplo. Neurofisiologistas estudam os fenômenos da meditação. Um chá, derivado da medicina popular, pode ser analisado e validado como medicamento. Esse jogo torna incertas, e variáveis, as margens que definem a relação entre o pensamento mítico e o raciocínio científico dentro do senso comum. E o que isso significa?
Quando a ciência aventa a possibilidade de existir vida fora do planeta Terra, isso implica numa série de teorias e especulações complexas, que são discutidas com cuidado dadas a necessidade de provas e evidências. O senso comum capta apenas parte desse discurso, já que é incapaz de assimilá-lo como um todo. Quando necessário, esses fragmentos podem ser encadeados numa sequência aparentemente lógica, que supre uma lacuna explicativa – ainda que não haja qualquer elemento que a corrobore. Assim, pode-se criar uma tautologia: não se pode provar o que se afirma, mas não se pode refutá-la totalmente. A dúvida passa a ser assumida como certeza.
Além disso, grande parte dos especialistas do Realismo Fantástico não tem formação adequada nas áreas que investigam [isso é, história e arqueologia]. Não entendem idiomas antigos, não entendem teorias e métodos arqueológicos e textuais. Consultam apenas ‘cientistas’ sem formação, e distorcem [segundo seu interesse próprio] a afirmação dos poucos especialistas que estudam. Isso os afasta dos historiadores sérios, mas os aproxima do público que, tal como eles, desconhece os instrumentos de construção do conhecimento histórico. Por fim, eles se aproveitam de uma literatura científica antiga, obsoleta, e da qual pouco compreendem, para comprovarem suas afirmações. Utilizam frases soltas ou idéias isoladas, destacadas do contexto em que foram produzidas, para criarem uma seqüência aparentemente coerente. Por fim, quando a vaidade não fala mais alto, os autores do Realismo Fantástico citam-se mutuamente, de modo que um referende a afirmação do outro. Esse tipo de citação endógena permite criar uma vasta bibliografia, que dá um aparente caráter de pesquisa. Todavia, são citações baseadas em afirmações vazias, reproduzindo assim, indefinidamente, o vácuo de evidências.
Um detalhe curioso nos permite perceber a recepção da literatura fantástica. Fanáticos e fundamentalistas religiosos refutam, absolutamente, a hipótese de vida fora da Terra. Respondendo ao senso comum com o pensamento mítico [e não científico], eles suprem a lacuna do conhecimento com a crença em divindades. Não raro, também não acreditam na viagem à Lua, ou no poder curativo dos remédios. Ignorando a cadeia de produção do conhecimento, eles partem diretamente do problema colocado para uma solução dogmática, inspirada em bases espirituais.

E o que tudo isso tem a ver com o Ensino de História?
Não se pode pretender, ingenuamente, acabar com o senso comum. A extensão de nossos conhecimentos científicos, bem como a amplo conjunto de opções religiosas e filosóficas disponíveis, torna impossível ao ser humano de hoje apreender tudo que existe. Assim, a existência dos indivíduos será perpassada, de um modo ou de outro, pela fragmentação dos saberes, e do conflito que isso resulta. Contudo, a mesma sociedade da qual fazemos parte nos proporciona uma educação, que se propõe capaz de nos permitir ler o mundo, e construir conhecimento, de tal maneira que não deveríamos cairnas armadilhas do senso comum – e, por conseguinte, da literatura histórica fantástica. É nesse ponto crucial que o Ensino de História, a meu ver, tem falhado cabalmente.
Visões estreitas, politicamente engajadas, ou falsamente conscientizadoras, tem tornado o ensino de História maçante, superficial, e incapaz de responder minimamente ao senso comum. O despreparo em relação à história antiga, principalmente, é geral e preocupante. Justamente nesse longo período histórico que os historiadores fantásticos gostam de atuar, dado o desconhecimento generalizado – inclusive dos docentes – sobre seus conteúdos. Não é raro, aliás – embora as pessoas tenham vergonha de admitir – que um ou outro historiador, pela sua absoluta incompetência em história antiga, seja capaz de aceitar as teorias de Daniken, por saber pouquíssimo sobre Egito Mesopotâmia, China ou Índia.
O ensino banalizado, de conteúdos esvaziados, tem aberto inúmeras lacunas na formação do conhecimento histórico dos alunos. O pior, no entanto, não é apenas o conteúdo: é a ausência de uma formação crítica instrumental, capaz de interrogar uma hipótese. Um aluno não precisa ser especializado em Egito, por exemplo, para entender de pirâmides; ele deveria ser capaz, apenas, de pesquisar, reconhecer fontes válidas, usar uma lógica eficaz e assim, enfrentar uma teoria esdrúxula com um método apropriado.
No entanto, não é isso que ocorre. Por conta de discursos pretensamente inclusivos, sociais e politizantes, os alunos são convocados a repetir velhas cantilenas de formação. Eles criam preconceitos contra outras áreas da história, creem numa formação restrita e minimalista, desprezam a ignorância do senso comum [embora repitam muito de seus procedimentos] e por fim, deixam um número extenso de falhas na formação dos alunos, propiciando a inserção das crenças errôneas fomentadas pelo Realismo Fantástico.
É chocante perceber que os historiadores fantásticos servem para revelar as inúmeras falhas do processo de formação histórica dos nossos alunos de hoje. Eles chegam a Universidade repetindo o mesmo método do Realismo Fantástico perante o que não sabem explicar: ao invés de estudarem, e compreenderem a complexidade do tema, optam pela via mais simples, suprindo uma lacuna de conhecimento com uma resposta improvável e inviável. Isso é um vício educativo, derivado do desestímulo e do despreparo em relação à pesquisa. Quando não caem nas fantasias fantásticas, caem no fanatismo religioso; e se debatem, indefinidamente, no mundo fácil – mas sofrido – do senso comum.
Por outro lado, o Realismo Fantástico abriu uma brecha interessante para o ensino de História. Assumindo os problemas de formação básica que afeta os alunos, as hipóteses do Realismo Fantástico podem ser usadas na elucidação de questões históricas por meio de sua desconstrução. Podemos fazer o caminho contrário, pois: ao tomar a idéia vaga e comum de que as pirâmides foram feitas por extraterrestres, podemos apresentar as técnicas de construção, o contexto histórico, os modelos arquitetônicos, a dificuldades biológicas da vida, as falhas do discurso fantástico... Há, enfim, vários caminhos para desconstruir as hipóteses fantásticas justamente pelas lacunas que elas se propunham suprir. De certo modo, isso resgata a dignidade do ser humano como um ser pensante e atuante – e não um mero títere no jogo de relações sociais e históricas.
Somente uma formação consciente, curiosa, incentivada a pesquisa, pode realmente promover um conhecimento seguro sobre as coisas. Disso resulta que, um dia, talvez até mesmo Atlântida, Lemúria, Mu e Extraterrestres sejam descobertos. Mas o que será descoberto, como, e o que resultará disso, deve ser resultado de uma pesquisa séria e científica – do contrário, seremos sempre reféns de teorias e idéias abstratas, que comandarão nosso entendimento sobre o mundo de forma frágil, acidental e manipulável.




[1]Não confundir com os termos Realismo Fantástico ou realismo mágico, utilizados na literatura ficcional latino-americana. Veremos que essa denominação, no Brasil, foi amplamente utilizada na década de 70 e 80 para designar outro tipo de ‘gênero textual histórico’, que analisaremos neste nosso pequeno ensaio.
[2] Um livro bastante interessante para compreender a história dos usos do mito Atlante é o do historiador Pierre Vidal-Naquet, Atlântida - pequena história de um mito platônico [Unesp, 2008].
[3] Em 1938, porém, a novela radiofônica A guerra dos mundos, baseada na novela de H. G. Wells, e narrada por Orson Wells, já criara pânico nos Estados Unidos, anunciando uma invasão marciana que muitos ouvintes tomaram como algo real. Do mesmo modo, ao longo da Segunda Guerra Mundial, foram feitos vários 'avistamentos' de luzes e discos misteriosos. Em julho de 1943, a revista Amazing Stories publicou uma matéria fantasiosa sobre aviões nazistas, em formato de disco voador, atacando aviões americanos. O palco mental estava preparado, pois, para o surgimento de novidades fantásticas.
[4]Quem realmente estiver interessado em ler esse livro, pode acessá-lo aqui: http://www.revistagnostica.xpg.com.br/livros/o_despertar_dos_magicos.pdf
[5]Vale aqui uma ressalva: a teoria de que o planeta Terra foi colonizado por seres extraterrestres já fora apresentada, ao público brasileiro, em 1939 pelo livro espírita A Caminho da Luz. A teoria kardecista pressupõe a existência de vida em outros planetas. Nesse livro, propunha-se que a vida no planeta Terra teria recebido o adendo espiritual de milhares de almas exiladas do sistema de Capela, ajudando no seu desenvolvimento.  Como se trata aqui de uma proposta religiosa, não a incluímos na sequência do Realismo Fantástico que ora analisamos. As propostas de Charroux e Daniken, como veremos, insistem numa presença física e real desses seres.
[6] A própria Ufologia, por exemplo, não poderia ser classificada como ciência. Uma ciência depende de um objeto definido, a ser identificado, para poder ser analisado. Ora, se nenhum objeto classificado como ‘extraterrestre’ foi revelado até agora, a Ufologia se trata de um ramo meramente especulativo. A Meteorologia, a Física e a Astronomia fornecem os elementos explicativos para os principais temas ufológicos. 

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