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Confúcio no Brasil: um problema epistemológico


Já são quase duas décadas que me dedico à divulgação da Sinologia no Brasil. Nesse tempo, tive que refazer diversas vezes as impressões que fui construindo sobre a recepção, por parte do público acadêmico, ao estudo das histórias e culturas asiáticas. Alguma coisa já melhorou: é possível hoje, por exemplo, aprender chinês ou japonês em cursos regulares, sem a necessidade de professores particulares. No entanto, esse começo ainda é tímido. Grande parte do público interessado nesses cursos pretende carreiras no mundo comercial ou do Direito, atinando a necessidade que já se faz presente em nosso país nesse sentido. Mas os Cursos de Humanidades, em geral, continuam fechados a essas iniciativas. Ignorantes sobre aquilo que não sabem, ficam receosos com o ‘novo’ – um hábito arraigado em gente que vive de estudar o passado, sem reconhecer o ‘imenso passado’ que o mundo asiático representa.

Obviamente, tais mudanças demoraram realmente a acontecer. Talvez um pouco mais em nosso contexto educacional, em que os alunos são estimulados a fazer sempre o mais fácil e simples, sem um real compromisso de aprendizado. De qualquer modo, essas reflexões retornam periodicamente ao ponto crucial da questão: como fazer para despertar o interesse dos brasileiros pelas culturas asiáticas? Na seqüência, é necessário perguntar: como pesquisar, e como ensinar, as histórias asiáticas? A formação histórica, filosófica e sociológica dos acadêmicos é, em geral, absolutamente esvaziada desses conteúdos. Precisamos quase sempre partir do zero. É praticamente indispensável voltar aos princípios, constantemente, para construir algum conhecimento. Nesse jogo de vai-e-vem, praticamente tudo que se constrói se desfaz, e não sobrevive aos seus fundadores. O Brasil depende eternamente dos manuais de introdução, e dificilmente produz umas poucas linhas novas sobre temas asiáticos.

Isso remete, diretamente, a questão que gostaria de abordar nesse breve ensaio: quem é Confúcio (-551 -479), o velho e grande sábio chinês, para o público acadêmico brasileiro? A questão ocorreu quando me dei conta dessa ausência que existiria, em nossa cultura, de sua figura. Depois de anos lecionando sobre a China, e mais recentemente, tentando apresentar um pouco mais sobre o movimento intelectual do Novo Confucionismo na China, me vi forçado a relacionar, mentalmente, qual era a base que possuíamos para discutir a figura de Confúcio. O próprio Mestre dizia: ‘Sem princípios comuns, é inútil discutir’. Se esses princípios forem o conjunto de conhecimentos que a academia brasileira constituiu sobre a história antiga chinesa, estaremos então em um terreno árido e desolador. Todavia, é necessário reconhecer que a quase total ausência de fontes e estudos, aliadas a uma preguiça conveniente, tornaram desestimulante – e quiçá, ‘desnecessário’, de um ponto de vista imediatista, aprender algo sobre Confúcio. A compreensão da China como um fenômeno histórico depende, intrinsecamente, de um conhecimento maior sobre o Confucionismo. Como dissemos, porém, ao olhar sobre o passado, vemos que pouquíssimo foi publicado sobre Confúcio no Brasil. Esse breve texto, pois, examina essa ‘não-construção’ de um entendimento sobre a história de Confúcio no Brasil, buscando compreender as dificuldades que notamos, atualmente, na construção do ensino das civilizações asiáticas.

Um início religioso
Curiosamente, a primeira vez que a figura de Confúcio teve destaque nos meios intelectuais foi na fundação de um dos primeiros grupos espíritas brasileiros, em 1873 – ou seja, em plena época imperial. A Sociedade de estudos espiríticos – Grupo Confúcio surgiu na cidade do Rio de Janeiro, e durou apenas três anos. Ela congregava a nata da sociedade carioca, e tornou-se um dos principais centros de tradução e difusão da literatura espírita kardecista no país. Os mentores espirituais do grupo seriam Ismael, o espírito protetor do Brasil [que anunciou a missão espírita do Brasil perante o mundo] e Confúcio. Sim, Confúcio aparecera no Brasil, em forma espiritual, orientando os trabalhos do grupo.[1]Não nos cabe aqui analisar a questão da crença; mas de notar que a primeira inserção notável da figura de Confúcio, em nossos meios intelectuais, se deu por meio da via religiosa. O próprio espiritismo fora tratado, na época, como ‘uma epidemia mais perigosa que a febre amarela’, o que nos permite um trocadilho jocoso com Confúcio. As atividades do grupo são encerradas em 1876, por orientação de Ismael, que teria indicado a formação de um grupo substituto, intitulado Sociedade de estudos espíritas Deus, Cristo e Caridade. Desde então, o papel de Confúcio [e de suas orientações espirituais] desapareceu dos meios espíritas. Não há meios disponíveis para sabermos se essa mudança foi provocada pelo perfil do espiritismo brasileiro, essencialmente voltado ao cristianismo. A presença de Confúcio [mas isso só podemos supor] daria um aspecto exótico a esse movimento religioso, preocupado em afirmar-se como uma ciência do espírito? De qualquer modo, Confúcio é engolido pelo tempo, e só retornará as estantes brasileiras, praticamente, setenta anos depois. Nesse meio tempo, resta-nos supor, apenas, que ele teria sido lido, por uns poucos curiosos, em francês ou inglês.

A Philosophia de Confúcio, de Ignacio Raposo
A China retornou aos jornais brasileiros com algum destaque em 1936, após a violenta invasão japonesa [considerada, por alguns, como o verdadeiro início da Segunda Guerra Mundial]. É provável que isso tenha despertado certo interesse do público leitor brasileiro sobre a cultura chinesa. Em 1939, Ignacio Raposo publica A Philosophia de Confúcio, que consta de uma breve introdução e uma recolha de fragmentos das quatro principais obras confucionistas; Lunyu, Daxue, Zhongyonge Mengzi (Mêncio). Pode-se dizer que pela primeira vez, no Brasil, se via um livro de introdução a obra de Confúcio. Mesmo assim, o texto era traduzido de uma versão francesa, e estava organizado de maneira ligeiramente confusa [os comentários de Zhuxi (1130 a 1200), por exemplo, são apresentados de forma solta, o que não permite ao leitor desavisado compreender quem era esse comentarista confucionista].

O Pensamento vivo de Confúcio, de Alfred Doeblin
Integrante de uma série de livros que abordava os principais pensadores da humanidade, O pensamento vivo de Confúcio é uma interessante obra de introdução ao mestre chinês. Feita por Alfred Doeblin [Döblin], famoso romancista alemão, ela foi publicada pela primeira vez no Brasil em 1940, quase ao mesmo tempo em que nos Estados Unidos e na Europa. O texto sobre a vida de Confúcio é bem elaborado, embora não apresentasse referências. O projeto da coleção consistia em apresentar uma introdução e também, trechos selecionados da obra do autor. Aqui surgem as primeiras páginas dos clássicos chineses coligidos por Confúcio, além das quatro primeiras obras confucionistas. Novamente, porém, a apresentação é confusa. Os fragmentos estão desorganizados de tal forma que às vezes torna-se difícil saber onde começa termina um livro e começa outro. Há passagens misturadas, ou com a ordem trocada. Para a construção de um quadro geral da visão tradicional que existia sobre Confúcio, o livro se presta bem ao papel. No entanto, permanecia a necessidade da publicação de uma obra capaz de aprofundar o pensamento confucionista sem perder-se. O livro foi republicado diversas vezes, até o final da década de 60. Note-se que, até aqui, Confúcio continuava sendo apresentado como uma figura religiosa – ou ‘religiosizada’-, o que o tornava relativamente desinteressante para um país, quase em absoluto, cristão.

O primeiro contato com um especialista: Lin Yutang
Em 1945, a publicação de A sabedoria da China e da Índia [Pongetti, 1945] trouxe pela primeira vez, para o público brasileiro, uma obra realmente produzida por um especialista, o chinês Lin Yutang. Preocupado em apresentar o ‘Oriente’ [principalmente a China] para o público ocidental, Lin publicou inúmeros romances e coletâneas que tiveram boa recepção do público brasileiro, haja visto que quase todos os seus livros foram traduzidos para o português. A sabedoria da China e da Índia trazia uma seleção extensa, precedida de copiosas introduções, dos textos fundamentais da civilização chinesa e indiana. A seção sobre os clássicos chineses, que trazia o Shijing [Poesias] e o Shujing [Histórias], junto com a seção específica de Confúcio, proporcionava uma bem elaborada apresentação sobre o sábio, bem como sobre os textos chineses, capazes de construir um bom e seguro conhecimento sobre os temas. Contudo, o cacoete das ‘traduções religiosas’ atingiu o bem escalado time de tradutores escolhidos para versar a obra em português. Há uma insistência, contínua, em valorizar [e traduzir] conceitos chineses de uma forma cristianizada. A palavra ‘Deus’ aparece tantas vezes no texto, que quase nos leva a pensar que os chineses eram monoteístas. Em parte, essas aberturas eram culpa do próprio Lin - ele mesmo um cristão, e filho de um pastor protestante chinês - e foram devidamente aproveitadas para formatar o caráter da obra.

Treze anos depois, uma obra específica, intitulada A sabedoria de Confúcio[José Olympio, 1958], trazia uma apresentação temática da obra de Confúcio. É a primeira obra em português que apresenta a biografia de Confúcio feita por Sima Qian [-145-90], trechos do Liji[Recordações Culturais] sobre temas diversos como política e educação na China Antiga, e fragmentos esparsos das obras de Confúcio. Tais materiais tornaram o livro uma preciosidade em termos documentais, possibilitando uma leitura de fontes até então desconhecidas no país. Aventados por um especialista, isso tornava o livro uma fonte confiável de informações sobre Confúcio. No entanto, Lin Yutang era entendido nos círculos literários brasileiros como um romancista, e não um sinólogo. A recusa do caráter válido de suas obras de divulgação revelava o pesado preconceito, contra o desconhecido, que marca a sociedade brasileira. A China – e Confúcio – não podiam, ainda, ser considerados temas de estudo acadêmico, mas sim, uma moda de romances históricos.

O primeiro padre católico chinês a visitar o Brasil: Frei João Batista Se-Tsien Kao
Lin Yutang tinha um forte concorrente no Brasil da época: o primeiro padre católico chinês. Em 1945, o frei João Batista Se-Tsien Kao visitaria os Estados Unidos e a América Latina, passando em nosso país para realizar diversas palestras sobre a China.[2] O mundo estava atento ao caso chinês. Após a Segunda Guerra Mundial, a China agora se digladiava num terrível guerra civil, e perigava tornar-se comunista, temor que atingia uma boa parte do mundo ocidental capitalista – e que se tornaria real em 1949. Frei João tentava convencer os cristãos do mundo a apoiar Jiang Jieshi [Chiang Kai Shek] contra os comunistas, a aproveitava para divulgar um pouco de sua própria cultura ancestral.[3]Duas publicações suas constituem os primeiros estudos específicos sobre confucionismo publicados no Brasil: A filosofia social e política do Confucianismo [1952] e Confucianismo e Tridemismo [1953]. O primeiro tratava-se de uma análise sobre a vida e obra de Confúcio, bem como do Confucionismo. O segundo, numa relação panfletária entre o confucionismo e a teoria política de Sun Yatsen, o grande patrono da república chinesa. Nesse momento, ainda havia esperança de reverter o quadro de instalação do comunismo no continente; e para isso, era necessário invocar o passado da civilização chinesa, encarnado em Confúcio, cujos pressupostos milenários de ordem política e social pareciam tão necessários para a China daquele momento.

O fracasso dos republicanos em manterem a China [tendo que refugiar-se em Taiwan], e o caráter religioso das palestras e pregações de frei João jogaram Confúcio, novamente, no limbo dos interesses intelectuais brasileiros. Em 1955, frei João já se dedicava a um congresso de praticantes de Esperanto, que seria realizado junto ao Congresso Eucarístico no Brasil, deixando de lado o antigo mestre chinês.[4] O Confucionismo parecia ser uma doutrina religiosa, anacrônica e falida, enterrada no chão chinês pela vitória comunista. De fato, nos anos seguintes, grande parte dos solitários viajantes brasileiros interessados na China iria para conhecer a experiência comunista.[5]  E para muitos deles, a repetição da ladainha panfletária presente em Crítica contra Lin Piao e Confúcio [Moraes, 1975] já bastava pra explicar como Confúcio fora reacionário, feudal, etc.

Uma década de sumiço
Desde então, a figura de Confúcio desapareceu dos horizontes intelectuais brasileiros. Menosprezado como uma forma religiosa acabada, a doutrina do Confucionismo não tinha porque despertar qualquer interesse acadêmico sério. Desconhecia-se o trabalho do Confucionismo filosófico asiático e norte-americano. Apostar no Confucionismo parecia, de fato, uma excentricidade inútil. Um único livro, Filosofia: Oriente e Ocidente, organizado por Charles Moore, e publicado em 1978 em São Paulo, trazia alguns ensaios sobre filosofia asiática. O livro, apesar de excelente, trazia os textos de uma conferência realizada em 1939! Ainda assim, foi um dos primeiros esforços em apresentar as filosofias asiáticas de forma séria. No entanto, isso seria rapidamente eclipsado pela retomada dos saberes asiáticos pela via esotérica.

É o esoterismo brasileiro que iria resgatar Confúcio, Buda e outros pensadores asiáticos. Inseridos na caótica sistematização da ‘sabedoria universal’ esotérica, os ‘mestres orientais’ começaram a ressurgir nas mesas dos centros esotéricos, dividindo espaço com meditação transcendental, artes marciais, astrologia, runas, cristais e tarôs. Lidos de forma superficial, os pensadores asiáticos eram enquadrados numa forma de crença religiosa sem contornos definidos, senão pelo seu papel sapiencial e exótico, que se contrapunha o que era visto como dogmatismo religioso [isto é, o cristianismo institucionalizado das igrejas].

Captando essa tendência, que iria se desenvolver fortemente nos anos seguintes, a editora Pensamento [especializada em publicações desse campo] publicou a primeira edição dos Analectos, traduzida por Múcio P. Ferreira, em 1968. Pode-se dizer que foi a primeira versão quasecompleta do Lunyu publicada no Brasil [no início do texto, o autor admite ter omitido certos trechos relativos aos discípulos de Confúcio]. Quase metade do livro, no entanto, é uma excelente introdução a Confúcio, e vale a sua aquisição. Essa versão reinou solitária nas estantes das livrarias brasileiras, e foi relançada em 1986, obtendo um relativo sucesso. Talvez não fosse o caso de classificar a tradução de Múcio como ‘esotérica’, mas esse foi o seu grande mercado consumidor, dada a editora que o vinculou e o interesse dos leitores; é um problema reincidente com sinólogos ter que lidar com este tipo de situação [eu passo pelo mesmo até hoje].

Um esforço pouco conhecido foi o de Ginés Gebran, que publicou uma tradução dos quatro livros de Confúcio [do francês] em 1974, intitulada A doutrina de Confúcio, e de fato, a primeira completa em todo Brasil. Ginés também publicou Mêncio, em volume separado. Embora sua produção pudesse ser vinculada, também, ao ‘esoterismo’ [dadas suas relações com o Instituto Pitagórico de Curitiba], sua tradução [embora indireta] era cuidadosa e bem feita, o que lhe concedia um caráter especial e bastante aproveitável no conjunto das traduções de Confúcio.

O problema insolúvel do afastamento acadêmico em relação ao ‘Oriente antigo’ permanecia. Na década de 70, um autor se destacou tentando encurtar essa distância. Murillo Nunes de Azevedo publicou o livro O Olho do Furacão em 1973, fazendo uma breve apresentação das principais linhas de pensamento asiáticas [indiana, chinesa e japonesa]. Murillo era monge budista, professor universitário, e membro da sociedade teosófica. Obviamente, pois, seu livro mantinha o tom religioso com o qual se abordavam as doutrinas ‘orientais’ [e a própria apresentação delas, em conjunto mantém, em si, certos problemas]. No entanto, o livro foi relançado em 1987[com o nome de O pensamento do extremo Oriente], e continuou a ser, também, uma das poucas [e podemos dizer, boas] introduções – na qual Confúcio estava incluído – sobre os pensares asiáticos.

Década de Oitenta: a fabulosa obra do Padre Guerra
Nos anos 80, o jesuíta português Joaquim Guerra iniciou a tradução completa de todas as obras de Confúcio para o português – tantos os clássicos chineses como os livros do próprio Confúcio e Mêncio – algo absolutamente inédito em nossa língua. Era a primeira vez que Confúcio era vertido diretamente do chinês, e não uma tradução de outras traduções. Os trabalhos foram feitos em Macau, e não se incluiriam em nossa breve análise sobre Confúcio no Brasil, se não fosse pela abnegação de alguns poucos que se esforçaram em trazer exemplares dessa obra para cá. Em São Paulo, a distribuição dos exemplares ficou a cargo da pequena editora Rosita Kempf; no Rio de Janeiro, alguns jesuítas ficaram conhecidos entre os livreiros do centro da cidade por andarem com grandes malas, cheias de livros, a venderem de porta em porta. Tanto esforço se dava pelo caráter magnífico do projeto: até então, ninguém se arriscara a empreender uma obra desse fôlego e originalidade. Infelizmente, contudo, a distribuição era irregular, distante e difícil [lembremos, não havia internet]. Dependia-se de catálogos, ou mesmo do contato com os religiosos, para receber os exemplares – às vezes, com previsão anual, às vezes sem previsão. Somava-se a isso o desconhecimento do público, e o complicado [mas brilhante] sistema de transliteração de nomes chineses que o Padre Guerra criara e utilizava, mas que afastava muitos principiantes.

Dentro da melhor tradição jesuíta, o Padre Guerra esperava converter Confúcio à tradição cristã, inserindo-o numa genealogia da anunciação de Deus na Terra. Assim sendo, não poderíamos esperar outro Confúcio dele, senão aquele mais próximo de um profeta bíblico. Todavia, suas traduções são excelentes, e poderiam ter aberto um caminho interessante para os estudos confucionistas. Mas nem os religiosos, e nem esotéricos, se interessaram pelo seu trabalho. Suas introduções eram bem feitas [embora algumas fossem essencialmente proselitistas], mas os volumes grossos e simples não eram atraentes. Definitivamente, o público não estava preparado para essas publicações, que mesmo assim percorreram o Brasil por quase uma década, ocasionalmente, enquanto foram produzidas. [6] 

Diálogos de Confúcio, de Anne Cheng (1983)
Uma nota especial deve ser dedicada aos Diálogos de Confúcio, publicado em 1983 pela editora Ibrasa. Trata-se de uma tradução da versão francesa do Lunyu de Anne Cheng, renomada sinóloga sino-francesa e especialista em Confucionismo Han. É a primeira versão filosófica do Lunyu apresentada ao público brasileiro, sem a pesada carga religiosa que se impunha as outras versões. A tradução brasileira [ainda que feita com base da versão francesa] conseguiu manter a clareza e simplicidade do texto, conseguindo estabelecer ligações seguras com o texto chinês. Diga-se, pois, um feito notável. Mesmo assim, a Ibrasa, assim como a Pensamento, colocou esse exemplar numa coleção intitulada ‘gnose’, da qual fazem parte títulos que poderíamos classificar, novamente, como ‘esotéricos’ ou de ‘ocultismo’. Vale ressaltar, porém, que ambas conheciam bem o mercado de livros no Brasil, e provavelmente essa era uma das poucas opções para tornar o livro vendável num país que ignorava Confúcio como intelectual ou filósofo.

Confúcio em 90 minutos, de Paul Strathern
Passados mais de dez anos – e mostrando que nosso público pouco assimilara sobre Confúcio –, publica-se Confúcio em 90 minutos, de Paul Strathern [Zahar, 1998]. Talvez fosse aconselhável não ler esse livro; por outro lado, esse tipo de conselho só estimula mais gente a lê-lo. Devo, pois, explicar porque esse livro é um problema. O objetivo de Strathern era fazer uma apresentação cômica de vários filósofos, fazendo colocações bem humoradas e provocativas. Alguém que tivesse um conhecimento prévio de Confúcio poderia rir de algumas piadas. O problema é que o público brasileiro não riu das piadas, por que não as entendeu. Pior: na época que a coleção foi lançada, muitos de meus alunos a levaram a sério, utilizando-a em seus trabalhos.

Esse dado é alarmante sobre o baixo nível de conhecimento do público acadêmico; não raro, ainda hoje [mais de uma década depois] vejo alunos utilizando os livros dessa coleção como fontes fiáveis, junto com O Mundo de Sofiade J. Gaarder ou O Código Da Vinci de Dan Brown. Cabe-me, no caso, fazer uma análise do livro sobre Confúcio: a questão é que ele contém erros sérios. Inventar que Confúcio condenava pessoas à morte por causa de roupas erradas, por exemplo, é um erro pesado, que induz a construção de uma imagem totalmente equivocada sobre um dos maiores humanistas que o mundo já conheceu. Por analogia, seria como dizer que Gandhi condenaria alguém a morte por comer carne. As piadas se perdem, deixando de ser colocações bem humoradas, para tornarem-se uma distorção. Se o nosso público pudesse entender isso, talvez repudiasse o livro; mas a coleção teve boa vendagem. Por outro lado, devo admitir que, em particular, sou a favor da total e ampla liberdade de leitura – pois até uma crítica só pode ser feita depois que se lê o livro. De fato, se vejo alguém rindo do livro, esse é um bom sinal: tal pessoa compreendeu as piadas, e se afastou da seriedade doente, ou do mau humor reincidente, que tanto caracteriza os pretensos sabichões.

O Pensamento Chinês, de Marcel Granet
Mas a década de 90 não foi absolutamente perdida. O clássico O Pensamento Chinês, de Marcel Granet, foi publicado em 1997 [Ed.Contraponto, 97]. Granet foi simplesmente um dos melhores sinólogos que já existiu, e essa obra cobre, exatamente, o período fundador das filosofias chinesas na antiguidade. Analisando a cosmologia chinesa, o pensamento imanente, e o surgimento das escolas éticas, o livro de Granet é um livro denso, às vezes complicado, mas extremamente recompensador e instrutivo para aqueles que começam no campo da sinologia séria. Apesar do original ter sido publicado em 1934, é uma leitura que ainda vale à pena. A publicação de Granet pode ser entendida, também, como um despertar tímido do público para o interesse científico e acadêmico na China. Os anos 2000 iriam mudar bastante esse quadro.

Os Anos 2000-12
A virada do século marcou a ascensão da China. O país consolidou seu lugar entre as superpotências, renovando o interesse do restante do mundo em sua língua, cultura e tradições. Isso se refletiu no Brasil, onde um público disperso começou a buscar pelas esparsas fontes chinesas.

Foi nesse ano que comecei as atividades do Projeto Orientalismo, disponibilizando na internet as fontes que pude encontrar, em português, sobre a China e Índia. Como vimos, encontrar fontes que estivessem esgotadas, disponíveis ou fossem de domínio público constituiu uma dificuldade - e que continua a existir - em relação à história e cultura asiática. Uma média de dez mil acessos anuais, ao longo de mais de uma década, é ainda um número baixo, mas indica uma presença constante e interessada nos materiais disponíveis, cujo lócus foi definido no período tradicional [China e Índia antigas]. No âmbito chinês, é possível contabilizar um número maior de leitores, dado que existe um conjunto mais amplo de páginas, cobrindo aspectos diversos como história, religião, arte, filosofia, e fontes.

Do mesmo modo, o mercado literário começou a apresentar novas obras sobre Confúcio. Uma novidade estupenda foi a versão dos Analectos [Martins Fontes, 2000] de Simon Leys, um dos mais críticos e renomados sinólogos da atualidade. Uma introdução analítica de Confúcio, e aforismos amplamente comentados, dão a essa tradução um caráter sinológico especial. Pode-se dizer que um estudioso em China deve, necessariamente, ler essa tradução para completar sua formação de maneira adequada. Um amplo quadro do pensamento de Confúcio se desenha, segura e solidamente, nesse livro.

Outras duas versões do Lunyu que surgiram logo a seguir são: O livro das respostas e explicações em vinte capítulos [Landy, 2001] e Os aforismos de Confúcio [Madras, 2003]. Embora não apresentassem nenhum elemento novo na questão da tradução, ambas propunham uma abordagem diferente da obra: a sua popularização. Simples e de baixo custo, permitiam um primeiro contato com a obra de Confúcio, para uma gama mais ampla de leitores, que provavelmente não sabiam o que iriam encontrar ao ler o velho mestre chinês.

Dados os espaços de tempos que a divulgação literária de Confúcio teve no país, demorou pouco para que novas obras surgissem. Claro, podemos identificar aí um problema: a insistência, sempre, em traduzir apenas o Lunyu. A intensidade ainda não substituiu a diversidade, e muitas obras confucionistas continuam desconhecidas. Por outro lado, as versões diferentes do Lunyu podem criar um quadro de opções, que permitem graduar o nível de conhecimento do leitor. Ou seja; com o aprofundamento do interesse, passam a existir também versões aperfeiçoadas disponíveis.

Em 2008, o Instituto Confúcio, principal órgão chinês para a divulgação da língua ao redor do mundo instalou-se em São Paulo. Isso inaugurou uma nova fase dos estudos chineses no Brasil, construindo uma base segura para a formação de especialistas em língua chinesa em cursos regulares e supervisionados [e posso garantir, por experiência própria, que o ‘romance’ de aprender chinês com tutores privados é bonito, mas bastante difícil e cheio de lacunas]. Em função talvez desse interesse reavivado, lançou-se em 2008 o Autêntico Confúcio, de Anping Chin [JSN, 2008], uma livro inteiramente dedicado a história e a obra de Confúcio. Uma das poucas obras especializadas na questão confucionista, e disponível ao público, ela apresenta um conjunto de referências sobre a figura do mestre que podem ser utilizadas com segurança no ambiente acadêmico. É também uma obra moderna e atualizada, o que reforça seu valor.  

Um desdobramento dessa curiosidade pela China foi o lançamento do fabuloso manual História do Pensamento Chinês, da já citada Anne Cheng, publicado em 2009 [Vozes, 2009]. Cobrindo a história do pensar chinês desde a antiguidade até períodos mais recentes, esse livro é indispensável na prateleira de qualquer especialista em ciências humanas que se pretenda um humanista. O livro de Cheng tem inúmeras qualidades notáveis: escrita fluída, fácil, acessível e bem construída; o texto é abrangente sem ser superficial, e atualizado em relação às descobertas arqueológicas e textuais chinesas. Organizado cronologicamente, apresenta as diversas escolas do pensamento chinês, revelando sua multiplicidade. Enfim, uma referência indispensável para a Sinologia.

Outras editoras resolveram entrar na disputa pela divulgação de Confúcio. A LP&M trouxe a consagrada versão dos Analectos de D. C. Lau [2009], traduzida do inglês, e uma excelente obra de divulgação. Por outro lado, o aspecto de ‘auto-ajuda’ de Confúcio foi retomado com a publicação de Aprendendo a viver com Confúcio [Autêntica, 2009], de Kuijie Zhou, pequeno livro em que o autor seleciona fragmentos do mestre e lhes aplica um caráter sapiencial [ou, ‘para viver a vida cotidiana’]. O que dizer? Afinal, Confúcio é o maior fornecedor de frases para biscoitos da sorte.

No mesmo ano, Introdução a filosofia chinesa, de Karin Lay [Madras, 2009] tornou-se uma boa opção para compreender os primórdios do pensamento chinês, concorrendo diretamente com o manual de M. Granet [mas não com o de A. Cheng]. O problema do livro de Lay é que ele tem alguns graves erros de tradução, que ocasionalmente comprometem o entendimento do texto. Uma boa revisão o tornaria uma fonte segura e confiável. Karin Lay é uma especialista altamente qualificada em pensamento chinês, e suas indicações sobre o Confucionismo são muito boas.

Sintomaticamente, no ano seguinte foi lançado no Brasil o livro Confúcio com amor, de Yudan [Best Seller, 2010]. Esse livro foi um sucesso absoluto na China continental, trazendo uma apresentação de passagens de Confúcio igualmente aplicadas à vida comum. Embora pudéssemos enquadrá-lo como ‘esotérico’, devemos ter um grande cuidado nesse ponto: ele foi produzido na China, por uma chinesa, e seu intento é reler o Confucionismo a luz da modernidade, preparando o campo para uma nova compreensão do mesmo dento dessa sociedade. Assim, embora o livro possa parecer superficial, ou ter um caráter de ‘auto-ajuda’, ele representa a ponta de um projeto mais amplo de re-significar o Confucionismo na China contemporânea [e quem sabe, para o mundo]. O original é de 2006, mas no Brasil ele foi publicado no mesmo ano que a biografia chinesa de Confúcio foi lançada no cinema.[7]É uma obra significativa, se bem interpretada, para compreender como os chineses têm retomado seu interesse por Confúcio, e pelo Confucionismo, como uma doutrina moral e política, numa sociedade em que o discurso comunista maoísta dá sinais de cansaço, e se apresenta cada vez mais anacrônico perante a realidade econômica.

Na esteira dessas publicações, um novo [?] estudo sobre Confúcio foi publicado. Introdução a Confúcio [Contraponto, 2012] é a junção de três textos diferentes, e todos de domínio público, dada sua antiguidade. O primeiro é uma apresentação de Confúcio feita por Richard Wilhelm, sinólogo alemão bastante conhecido por sua excelente tradução do Yijing. O texto é da virada do século 20. O segundo é a biografia de Confúcio feita por Sima Qian; o terceiro texto é uma tradução péssima e cheia de equívocos do Zhongyong feita por Ku Hung Ming – nesse caso, porém, o texto de Ku já vinha com todos esses problemas existentes, não sendo culpa da versão brasileira. Os textos são desiguais e antigos, não apresentando dados novos em relação às publicações mais recentes que vimos. Talvez o mais aproveitável seja a biografia feita por Sima Qian, já que a versão de Lin Yutang [Sabedoria de Confúcio, 1958] só é encontrada raramente em sebos.

Os Analectos, de Giorgio Sinedino
Em 2012, a UNESP publicou a primeira versão absolutamente brasileira do Lunyu, realizada por Giorgio Sinedino. Essa tradução, realizada diretamente do chinês, representa um dos primeiros esforços no sentido de construir uma literatura sinológica séria e científica. A obra conta com uma tradução cuidadosa dos aforismos de Confúcio, coberta por copiosas notas explicativas, que enriquecem bastante sua leitura. Seu tamanho o torna atraente para um público mais especializado e interessado, e mostra a viabilidade de se construir uma sinologia brasileira, desvinculando-se das traduções de traduções. Ela consigna-se também como um estudo acadêmico aprofundado, escapando das interpretações religiosas que tanto marcaram as traduções nacionais.  Por fim, a versão de Sinedino acompanha, igualmente, a atenção renovada que tem sido dada ao Confucionismo na China atual, e que deveria servir de alerta para os intelectuais brasileiros.

E que conclusões podemos chegar?
Vimos, pois, que apenas num período muito recente de nossa própria história foi possível desvincular Confúcio e o pensamento confucionista do campo das religiões. Enquanto Confúcio foi tratado como uma figura ‘sacro-oriental’, numa sociedade marcadamente cristã, foi praticamente impossível analisá-lo de modo sério. O Confucionismo, como filosofia, foi desprezado pela academia, tão dependente do eurocentrismo que marca sua formação. No entanto, o crescimento chinês dos últimos anos tem forçado uma revisão desses parâmetros. Vimos que alguns estudos sérios surgiram; e mesmo o campo da história das religiões renovou seus interesses nos saberes asiáticos – mas agora, buscando formas de diálogo, e não de exclusão ou da construção de estereótipos. Contudo, devemos lembrar que hoje, inúmeras figuras religiosas imiscuem-se no governo, defendendo que não há separação de religião, política e pensamento. Como, então, separar a figura de Confúcio [político e social] do problema da visão religiosa? Além disso, há o problema - muito próprio da academia brasileira - de praticar uma ciência humana 'devocional'. Como nossos primeiros mestres em história e filosofia foram padres, absorvermos a prática de idealizar apenas um autor como o 'nosso caminho' teórico e metodológico, como se ele fosse um espécie de santo. O mesmo se dá com as figuras asiáticas, tais como Confúcio. Quando ele não é repudiado, o outro extremo é adorá-lo como 'um guia de sabedoria' indiscutível e perfeito. Fazer isso é incorrer exatamente no mesmo erro. Precisamos escapar dessas armadilhas.  

Ainda há um longo caminho, pois, para conseguir incluir Confúcio na academia; disso depende a formação de sinólogos, que ainda estão encerrando seus recentes cursos de língua chinesa. Por isso, Confúcio representa um problema epistemológico para os brasileiros: é um problema de construção do conhecimento, que deriva da mistura de preconceito, ignorância e limitação que afeta nossa formação cultural e universitária. Conhecer Confúcio não nos mostra apenas o que é a raiz da China, mas revela nossas próprias deficiências de formação, e a incapacidade que tivemos até agora de lidar com a diferença. Se quisermos realmente nos categorizar como humanistas, precisamos, com urgência, conhecer os outros dois terços do mundo que habitam fora da gaiola logocêntrica do Ocidente.





[1] A teoria Kardecista pressupõe que os espíritos podem usar pseudônimos ao se apresentarem publicamente. Isso tornaria viável pensar, então, que não seria o Confúcio de fatoque apareceu, mas um espírito guia que utilizava esse nome. Note-se, porém, as implicações dessa escolha, numa época em o que o movimento orientalista europeu estava em plena força.
[6]As obras confucionistas do Padre Guerra:
Livro dos Cantares, 1979 [Shijing]
Escrituras Selectas, 1980 [Shujing]
Quadras de Lu e Relação Auxiliar, 1981 [Chunqiu Zuozhuan] cinco volumes
Quadrivolume de Confúcio, 1984 [Lunyu, Daxue, Zhongyong e Xiaojing]
Obras de Mâncio, 1984 [Mengzi]
Livro das Mutações, 1984 [Yijing]
O Cerimonial, 1987. [Liji] três volumes
[7] No Brasil, o filme Confúcio foi lançado em 2011 com o incompreensível título de A batalha pelo império, mantendo a velha tradição brasileira em dar péssimos nomes para filmes estrangeiros.

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