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O homem que converteu Confúcio

O fantástico projeto do Padre Joaquim Guerra, um jesuíta que acreditava que Confúcio era um profeta cristão.



Foi em Lisboa, 1993: falecia o Padre Joaquim Guerra, um dos maiores tradutores que o mundo lusófono já conheceu. Praticamente esquecido, ele planejara, um dia converter a China ao cristianismo através da obra de Confúcio, o antigo sábio chinês. Quem era esse homem, que sabia tanto da língua chinesa que fora capaz de traduzir as obras de confucionistas do original? Quem era esse incrível jesuíta que, dentro da melhor tradição de seus antecessores, transformara-se num missionário audacioso, cuja obra é um marco na língua portuguesa? Essa é a mirabolante história do Padre Guerra, o homem que “converteu” Confúcio.

Um padre que amava a China
Joaquim Angélico de Jesus Guerra nasceu em 1908 na pequena e humilde aldeia de Lavacolhos, e de origem pobre, escolheu a carreira religiosa como opção de vida, algo comum nessa região. Ele parecia destinado a ser apenas mais um clérigo comum; mas em 1925, quando ainda se encontrava no noviciado, conheceu o padre Pedro Hui, experiente missionário que atuava na China e que despertou-lhe a paixão por essa civilização. Fascinado com a ideia de converter o gigante o milenário e entrar para a galeria dos grandes apóstolos, Guerra tomou suas primeiras lições de cantonês (dialeto chinês falado em Macau) com o próprio padre Hui e preparou-se, durante anos, para o que considerava a missão e o sentido de sua vida.
Em 1933, surge a oportunidade: sua missão inicial era ir até Xangai, mas o Seminário de Macau, a colônia portuguesa na China, estava em tal estado de abandono que lhe faltava até mesmo um professor de Filosofia. Acabou ficando por dois anos na cidade, depois adotaria de coração. Somente em 1935 ele finalmente embarcou para Xangai, onde ordenou-se e começou a estudar, também, o chinês Mandarim. Acabou viajando por várias partes do país, mas essa estada proveitosa foi brutalmente interrompida pela invasão japonesa em 1936. Temendo por sua segurança, o Padre Guerra e seus companheiros decidiram retornar a Macau, atravessando o país no meio do conflito, testemunhando massacres terríveis e uma violência indescritível.

Após o término da grande guerra em 1945, veio a guerra civil chinesa, opondo republicanos e comunistas. O conflito terminaria com a vitória comunista em 1949, e o Padre Guerra, que nessa época saíra de Macau e missionava pelo interior da China, acabou preso e imediatamente condenado à morte.  Inexplicavelmente, porém, após passar alguns meses terríveis na cadeia, foi perdoado e solto em 1951. Essa experiência foi fundamental para que ele consolidasse sua fé na intervenção divina, e sua aversão pelo comunismo.
Ao longo da década de 50, ele residiu e atuou em Macau, aprofundando seus conhecimentos sobre a cultura chinesa. Doente, em 1959 é obrigado a retornar para Portugal, mas nunca pára de trabalhar. Em 1963, viaja pelo Brasil e em outros países da América latina missionando, durante quase três anos, antes de retornar para Lisboa. Ao longo desse tempo, ele divulga seus conhecimentos sobre a China, e estrutura um inédito sistema de transcrição fonética da Língua chinesa.

O tradutor de Confúcio
Mas o jesuíta se perguntava o que mais poderia fazer para contribuir na obra de evangelização da China. Afinal, seus esforços eram pouco reconhecidos fora de Portugal e Macau. Em 1972, contudo, um convite inusitado bateu-lhe a porta: a editora Verbo o chamou para realizar a primeira tradução completa dos clássicos chineses confucionistas para o português. Esses textos, considerados o cerne do pensamento chinês tradicional, não haviam sido, até então, traduzidos na sua totalidade para a nossa língua. Guerra ressentia-se profundamente disso, e começou assim a delinear uma proposta que considerava inédita: sincretizar a história do cristianismo e da China em uma única mesma cronologia, incorporando o antigo sábio Confúcio (551-479 a.C.) ao mundo bíblico.  

O trabalho foi cheio de percalços; em 1974, a Verbo desistiu do projeto. No entanto, o padre já havia decidido por conta própria de que sua missão era divina, como afirma na introdução do Quadrivolume: “Quanto a mim, fui por diante na mesma, certo de que os homens põem e Deus dispõe. A hora de Deus chegaria; pois, como fica dito, a obra era certamente de Deus. E Deus não falha”. E fosse em função da fé, ou do ineditismo do trabalho, o jesuíta conseguiu amparo do governo de Macau e da Ordem jesuítica, que prometeram financiar a sua publicação. Entre 1973 a 1988, o padre traduziu e publicou, em seu próprio sistema de transcrição, toda a obra confucionista: Livro dos Cantares, Escrituras Selectas, Quadras de Lu e Relação Auxiliar (cinco volumes), Quadrivolume de Confúcio, As obras de Mâncio, O Livro das Mutações e oLivro dos cerimoniais (três volumes).De quebra, ainda traduziu o livro de Laozi, intitulado A prática da perfeição. As traduções foram consideradas impecáveis; contudo, são as introduções de seus livros que dão o caráter singular do projeto. Guerra estava absolutamente convencido de que Confúcio era um santo ou profeta bíblico, que nascera na China para antecipar a vinda de Jesus ao mundo. Ele se encantara, tal como seus antecessores jesuítas, com uma série de semelhanças que enxergava entre o confucionismo e o cristianismo: as frases de Confúcio “não se deve fazer aos outros aquilo que não quer que seja feito com você” ou “ame a todos, sem distinção”, faziam o padre concluir que havia nele uma inspiração divina, e que o povo chinês se inseria perfeitamente na história de Deus. Na introdução das Escrituras Selectas, ele afirma sem receio que “Não faltaram livres pensadores, na Europa, que saudaram o caso da China como uma prova de que um povo pode ser humanamente São, sem fé religiosa. A verdade, porém, é que a moral clássica chinesa está animada pela fé em Deus. Evidentemente, os chineses viveram, praticamente, em regime de religião natural, como era sua obrigação até conhecerem suficientemente a revelação sobrenatural e cristã.” Com isso, Guerra esperava reparar o que considerava o erro mais perturbador nas traduções dos textos de Confúcio em outras línguas: o distanciamento espiritual com que eles trataram a obra de mestre chinês. No raciocínio do jesuíta, se os antigos missionários tivessem sido capazes de perceber a conexão temporal e religiosa do confucionismo com a doutrina cristã, o problema da conversão da China teria sido resolvido há muito tempo. Ele conclui, no Quadrivolume: “procurou Confúcio ser um educador de homens, e tornou-se educador de povos, cujo número iguala hoje a terça parte da humanidade. Assim lhe pagou Deus a sinceridade com que ele cultivou em si e nos outros a virtude da Humanidade” [...]; “Confúcio ensinava como Cristo” e [...] “Confúcio veio anunciar Deus, e o sabia”.

O fracasso do projeto
Todavia, vários problemas surgiram na divulgação das obras. Lembremos que, na época, a encomenda de livros dependia de catálogos e de remessas, muitas vezes anuais e irregulares. A distribuição problemática, a distância de Macau dos grandes centros e o desinteresse quase absoluto que os países lusófonos nutriam em relação à China foram fatais. Juntava-se a isso o complicado sistema de transcrição fonética do Padre Guerra, incompreensível para os leigos, e por fim, a escolha do formato dos livros tornara-os volumosos, e afastava os leitores de ocasião.

O fracasso não frustrou o Padre Guerra. Trabalhador incansável, obstinado e decidido, ele já percebera a importância crescente do inglês como uma língua mundial, e embarcou para o Canadá nos anos noventa, planejando traduzir toda sua obra nessa língua e tentando concretizar seu sonho missionário. No entanto, em 1993, ele sofre um estúpido atropelamento em Toronto, que lhe custou definitivamente a saúde. Transportado para Portugal, veio a falecer pouco tempo depois, deixando seu projeto inconcluso e obtendo apenas um modesto reconhecimento.

A herança
A ponte pretendida pelo padre Guerra – de transformar Confúcio no elemento de diálogo intercultural sob o domínio da fé católica – não surtiu grande efeito. Esse projeto soava ultrapassado para muitos: no entanto, a sutileza da proposta de Guerra, que poucos estudiosos captaram, se baseava num meio termo interessante, que consistia em não impor sua fé dogmaticamente aos chineses, como também em não negar, a essa cultura, sua autenticidade e originalidade. Se ele pretendia cooptar Confúcio para a religião cristã, era porque via nisso uma forma de diálogo autêntico, que a princípio (em seu raciocínio) respeitava as diferenças culturais entre o Portugal cristão e ocidental e a China, que ele considerava carinhosamente como sua “segunda pátria”.

Mas a obra de Guerra é, ainda, imprescindível.  Além de única, suas traduções primam por uma qualidade cuidadosa e dedicada, e são ainda o caminho mais fácil para se conhecer a obra de Confúcio em português. Os textos clássicos confucionistas, que constituem a essência da civilização chinesa, são leitura obrigatória para se compreender a China de ontem e de hoje. Como disse o próprio padre: “eu próprio, só no declínio da vida, tomei providencial contacto com essas obras milenárias, luzeiros de fé e humanismo que, uma vez acesos, nunca mais se deverão apagar”.

Boxe - A Chave de Transcrição fonética do Padre Guerra
O domínio acurado e profundo da língua chinesa pelo Padre Guerra ficou demonstrado, também, pelo seu trabalho como lingüista nas obras Chinês Alfabético (1960), Chinês alfabético em plano nacional (1970) e um Dicionário Chinês-Português de análise semântica universal (1981), nos quais propunha uma inédita forma de transcrição fonética do chinês-cantonês. Explica-se: o chinês - em todas as suas variações dialetais - tem um sistema de escrita ideográfica, em que os sinais exprimem idéias, mas não a pronúncia de uma palavra. Isso implica em duas condições básicas: a primeira, de que alguém pode aprender a ler e escrever em chinês, sem saber pronunciar sequer uma palavra. Por outro lado, a pronúncia dialetal varia; um macauense pronuncia uma mesma palavra de forma bem diferente de um chinês do norte, criando assim uma barreira fonética. Isso se reflete diretamente no modo como as palavras chinesas são transcritas para o alfabeto latino. Por exemplo: se tomarmos apenas o dialeto mandarim como pronúncia oficial, a palavra “Zhou” (uma dinastia chinesa antiga) era escrita como “Chou” em inglês (no sistema Wade-Gilles) ou “Tcheou” em francês (sistema EFEO) – e isso sem contar que “Zhou”, grafado no sistema alfabético “pinyin”, utilizado na China comunista se pronuncia, de fato, como “djou”... Testemunhando todas as dificuldades que isso implicava, o Padre Guerra trabalhou laboriosamente na idéia de um sistema em que a grafia alfabética de um nome pudesse ser transformada, automaticamente, na sua pronúncia correta, fosse em cantonês ou em mandarim, por meio de uma tabela de códigos.  Assim, palavras como “Zhou” seriam grafadas como “Tjó”, que numa tabela de conversão seria transformada foneticamente em “djou”, como no mandarim, e “zaul” em cantonês. Apesar de reconhecido como genial por alguns especialistas chineses, o sistema era altamente complexo, além de possuir uma grafia confusa, e foi pouco divulgado, caindo no esquecimento.

Saiba Mais:
ARESTA, A. Joaquim de Jesus Guerra in Tribuna de Macau, disponível em http://www.jtm.com.mo/view.asp?dT=359902004, 2010.
BRUXO, J. Padre Joaquim Guerra, uma Biografia Intelectual. Macau: Universidade de Macau, 2004
GUERRA, J. Escrituras Selectas. Macau: Jesuítas Portugueses, 1980.
GUERRA, J. Quadrivolume de Confúcio. Macau: Jesuítas Portugueses, 1984
SANTOS, H., SJ, Padre Joaquim Angélico Guerra, SJ , Um Globetrotter ao Serviço de Deus e da China.Macau: Instituto Internacional de Macau, 2008.

Publicado na Revista História Viva, n.111

Um comentário:

  1. Belo trabalho, sou adventista, mas não posse deixar de prestigiar um trabalho como esse!

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