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Um 'Buda para os Romanos'

Publicado em História Viva, Agosto de 2013.

O 'Buda em Pé'

Dos séculos 1 ao 3, o mundo euro-asiático era dominado por quatro grandes impérios: Roma no Ocidente, Pártia no Médio Oriente, Kushan na Ásia central e Norte da Índia, e a Dinastia Han na China. Esses quatro grandes impérios possuíam dinâmicas relações de trocas comerciais e políticas, articuladas por um grande sistema viário e marítimo, que hoje conhecemos como Rota da Seda. Por ela, trafegavam mercadorias, culturas, religiões, e se estabeleciam os contatos necessários à manutenção de um delicado equilíbrio político que impunha ordem nesse mundo.
A importância e profundidade desses contatos têm vindo à luz nos últimos vinte anos, quando a academia começou a prestar mais atenção na importância de ressaltar os diálogos interculturais na humanidade. Antes disso, víamos apenas esporádicos estudos sobre as relações entre Oriente e Ocidente, muitos deles contaminados pelo colonialismo e pelo imperialismo do século 19 e 20. Iniciativas como a da UNESCO, de realizar um grande resgate da história da Rota da Seda, apresentaram ao mundo um panorama da Antiguidade muito diferente daquele com o qual estávamos acostumados: os povos antigos se comunicavam, interagiam, trocavam experiências, e estavam longe de serem sociedades estanques e separadas.
Um desses fenômenos de diálogo cultural e religioso mais importantes – e ainda, muito pouco conhecido – é o da presença budista no mundo romano. Durante alguns séculos, os budistas tentaram entrar no mundo romano, e buscaram se estabelecer nele. Como disse Greg Woolf, estudioso das religiões, o Budismo era uma das ‘religiões mundiais’ – ou, religiões proselitistas, universalistas e interculturais – , que tinha apoio do império Kushan para estender sua fé por outras regiões. Nesse período – o séc. 1 ao 3 d.C. – os budistas ‘competiram’, junto com várias outras religiões, por fiéis no Mediterrâneo, na Partia, na Índia e na China. A história dos budistas no mundo romano, porém, é quase um caso a parte. Para desenvolver mecanismos pelos quais pudessem se comunicar com o imaginário ocidental, os budistas teriam empregado motivos artísticos greco-romanos para criarem uma imagem de Buda acessível a esse mundo romanizado. Essa é a controversa história de como uma das mais famosas representações de Buda – o ‘Buda em Pé’ – teria surgido, justamente, para converter os ocidentais, antes de tornar-se um cânone na iconografia budista.

Os antecedentes históricos

Para compreendermos como essa história começou, é necessário voltar um pouco mais no tempo. Desde o século 4 a.C., após as conquistas de Alexandre na Índia, comunidades helênicas se estabeleceram numa vasta região, que hoje compreende o norte da Índia, parte do Paquistão e do Afeganistão. A instalação desses gregos nunca foi tranquila: em breve, eles já formavam os chamados reinos ‘greco-indianos’, que lutavam entre si constantemente, e contra o restante dos reinos indianos. Em termos culturais, porém, essa relação parece ter frutificado – especialmente, em relação os budistas. Os budistas se destacavam como uma religião favorável ao diálogo intercultural, interétnico e social; afinal, já fazia séculos que eles lutavam contra o sistema de castas tradicional indiano, e defendiam que a libertação espiritual era acessível a qualquer um. É provável que, em função dessa abertura, gregos (sempre considerados estrangeiros naquelas terras) e budistas tenham estabelecido um contato rico e fértil, que se manifestou principalmente no plano intelectual e artístico. Um exemplo fantástico dessa relação é, por exemplo, o Milinda Panha (ou, Diálogos com o Rei Menandro), que trata de um suposto diálogo entre um rei grego e um sábio budista sobre religião e filosofia. No fim, Menandro, o rei grego, teria se convertido ao budismo. Mas, se não podemos comprovar a veracidade dessa história, por outro, percebermos que no campo das artes, os budistas realmente investiram na absorção de padrões helênicos na formação de sua iconografia.
Uma destacada escola artística budista, a escola de Gandhara, especializou-se em adaptar motivos gregos ao âmbito indiano. Dela, nasceram magníficos Budas diretamente inspirados nos estilos helênicos, mas mantendo certas especificidades (sinais religiosos, posturas, gestos) que denotavam seu caráter budista. A escola de Gandhara tornar-se-ia, pois, a principal ‘representante’ dessa fusão ‘Oriente-Ocidente’, ou ‘Índia-Mediterrâneo’. Contudo, não sabemos ao certo quanto tempo essa adaptação demorou, nem quando surgiram as primeiras obras. Os diversos conflitos na região, as destruições patrimoniais sistemáticas, as evidências arqueológicas de que dispomos, e a separação das peças conservada nos museus de seus contextos original, torna difícil precisar, cronologicamente, a origem e o desenvolvimento dessa iconografia. Quase todas as peças de que dispomos hoje datam do início do século 1 d.C. – nessa época, o mundo já havia mudado bastante, e o Mediterrâneo tinha outro dono: Roma.

As relações entre Roma, Índia e os budistas

Na passagem dos séculos 1 a.C para o 1 d.C., a Rota da Seda se consolidou como a principal via de intercâmbio euro-asiático. Os contatos econômicos e culturais atingiram um novo patamar de intensidade nunca antes visto na história mundial, graças à estabilidade das fronteiras terrestres. Vias marítimas ligando Europa, África, Arábia, Índia e China foram desenvolvidas e aperfeiçoadas, possibilitando um aumento significativo do comércio marítimo. Nesse ínterim, Roma e Índia aprofundaram seus contatos, o que fica evidenciado tanto na literatura da época, quanto pelas descobertas arqueológicas.
Segundo o historiador Floro, Augusto (63 a.C. – 14 d.C.) recebeu uma embaixada indiana; geógrafos como Estrabão e Ptolomeu (séc.s 1 –2 d.C.) descreviam os meios para se chegar à Índia; um manual de navegação chamado Périplo do Mar Eritreuensinava como chegar a duas colônias romanas instaladas na Índia; Plínio Velho (23 a 79 d.C.) cita inúmeras vezes a Índia em sua História Natural; Filóstrato (170[?] a 250[?] d.C.) afirmou que Apolônio de Tiana, famoso e misterioso pensador de origem grega, estudara durante anos na Índia; e outras inúmeras citações aparecem aqui e acolá na literatura romana. Notável, porém, é o fato dos romanos saberem diferenciar os budistas dos outros indianos: o padre cristão Clemente de Alexandria (150 a 215 d.C.) sabia diferenciar os seguidores de ‘Bouta’ dos ‘brâmanes’, e o escritor gnóstico Bardasano (Bardesanes, 154 a 222 d.C.) fora enviado pelo imperador Heliogábalo para investigar as doutrinas indianas, chamando os budistas de ‘sramanas’ (outro dos nomes dos seguidores de Buda). Como os romanos sabiam, tão detalhadamente, essas diferenças?
A presença romana na Índia foi marcante. A arqueóloga Rose Cimino (1998) fez um abrangente levantamento das evidências materiais tanto da presença romana na Índia quanto dos vestígios indianos no Ocidente. Mais recentemente, Warwick Ball (2000) e Raoul McLaughlin (2010) demonstraram que o intercâmbio entre romanos e indianos era extremamente ativo. Produtos ‘exóticos’ vindos da Índia como especiarias, ervas e temperos já eram famosos nos mercados mediterrânicos; por seu turno, os indianos importavam jóias, vidros e perfumes. Isso tudo, claro, apenas no nível comercial. Mas as trocas também existiam no plano das idéias.
Como dissemos antes, grande parte da Índia, no século 1 d.C. fora tomada pelos kushans, povo oriundo do noroeste da China (hoje, província de Xinjiang). O império Kushan estava espremido entre o império Han ao leste e a Pártia ao Oeste, e mantinha contato marítimo direto com a África e a Arábia. Interessados em afirmar seu poder perante os outros impérios, os Kushans decidiram empregar métodos de representação já conhecidos naquela época, apropriando-se de representações de poder aparentemente ‘comuns’ a essas culturas. Um exemplo é a cunhagem: diversas moedas kushans representam seus soberanos em posturas e gestos de poder, amplamente conhecidos, no mundo greco-romano e na Pártia. Algumas delas vinham com inscrições em grego; e ao que tudo indica, esses soberanos pretendiam se representar, perante o mundo mediterrânico, como semelhantes aos imperadores romanos e partos. Uma inscrição kushan descoberta em Ara, na região do Punjab, nos informa que o imperador Kanishka I  (127? a 150? d.C.) se proclamara um ‘kaisara’ – mais precisamente, um ‘César’. Ou seja: os kushans, aparentemente, estavam importando modelos romanos do ocidente, e se valendo da experiência helênica anterior, para construírem suas próprias representações de poder.

Moeda de Kanishka com a imagem de Buda

Augusto da Prima Porta


A idéia não é exagerada: como nos mostrou Paul Zanker (1988), em seus estudos sobre arte e ideologia no início do império romano, Augusto iniciou um programa de renovação visual em Roma, que se destinava a propagar o culto a sua imagem em todas as partes do império. Algumas representações mais famosas, como a de Augusto de armadura (Augusto da Prima Porta) ou Augusto vestido com uma toga pontifícia (Augusto da via Labicana) espalharam-se rapidamente, e esses motivos continuariam sendo reproduzidos nas vias públicas, e mesmo nas casas mais abastadas, durante séculos depois. É bem provável, portanto, que os kushans buscassem inspiração nesses modelos, que os permitiriam ser identificados pelos romanos e, ao mesmo tempo, os diferenciavam de partos e chineses.

O ‘Buda Romano’

E foi nesse contexto que os budistas, amparados pela proteção dos soberanos kushans, também produziram algumas de suas magníficas obras de arte em Gandhara e em outras regiões. Se pudermos admitir que os modelos romanos estavam sendo copiados pelos kushans, porque não admitir, também, que os budistas utilizassem o mesmo expediente para criar uma imagem capaz de dialogar com o Ocidente? Essa hipótese foi aventada desde as primeiras explorações européias na arte budista indiana. Em 1876, James Fergusson propusera que existiria uma arte ‘romano-budista’, o que foi referendado pela análise de outro especialista, Vincent Smith, em 1889. Depois, Alfred Foucher (1907) propôs a primazia helênica sobre a iconografia budista, gerando debates intermináveis que perduraram ao longo do século 20. Benjamin Rowland (1960) manteve a idéia da influência romana, graças à descoberta de depósitos arqueológicos romanos na Índia, e Wladimir Zwalf (1996) seguiu um caminho semelhante. Por fim, Ball (2000) propôs uma solução para a disputa: aceitar que esses elementos seriam, justamente, ‘greco-romanos’, e como estavam inseridos no contexto da época, foram sendo adaptados às circunstâncias político-religiosas. Isso faz sentido, pois não elimina a possível influência grega na iconografia budista, e aceita a incorporação dos modelos romanos como uma adequação temporal e contextual.
É aqui, portanto, que chegamos ao ponto principal: poderiam os budistas ter ‘importado’ imagens romanas para criarem suas representações de Buda? Um dos modelos que mais nos chama a atenção é a semelhança entre o Augusto da Via Labicana e o modelo de estátua do ‘Buda em Pé’. A estátua da via Labicana foi feita para promover o culto ao Genius Augusti – ela apresenta Augusto vestido com uma toga pontifícia, em pé, com o braço esquerdo coberto, e na mão direita provavelmente trazia uma patera – pequena tigela usada para derramar leite ou vinho como oferenda aos deuses. Augusto é representado como o Pai da Pátria e de todas as famílias, protetor, que traz a paz e a tranqüilidade. Essa imagem foi reproduzida nos mais diversas regiões do império, e foi encontrada mesmo em diversas casas romanas. Torna-se bastante razoável supor que os budistas tenham conhecido essa representação, e se inspiraram nela para criar o modelo do ‘Buda em Pé’.


Augusto da Via Labicana

Buda em Pé de Gandhara


O modelo do ‘Buda em Pé’ também foi representado em estátuas, afrescos e pinturas. Ele traz Buda envolto num ‘samghati’, espécie de manto ou toga, que envolve todo o seu corpo, e que até então não aparecia em nenhum outro motivo na arte indiana. Outro detalhe é o gesto das mãos: a mão esquerda fica sempre para baixo, envolta no manto, enquanto a mão direta representa um gesto espiritual – na Índia, chamado de mudrá – que no caso do ‘Buda em Pé’, quase sempre apresenta o Vitarka mudrá (gesto de ensinamento) ou o Abhaya mudrá (gesto de paz, de tranquilização). Ambos, pois, se destinam a pacificar ou a esclarecer. A única diferença marcante é quanto à cabeça – Buda, em geral, é representado com seu halo divino, o ‘chakra’, e uma protuberância na cabeça, ‘usnisha’, que teria surgido quando ele atingiu o nirvana. Os artistas budistas não fizeram por menos: fizeram dessa protuberância um elegante coque de cabelos. Por fim, no formato de estátuas, tanto o Augusto da via Labicana quanto o ‘Buda em Pé’ estão assentados sobre plataformas floridas – pode ser um mero detalhe decorativo, mas a similaridade instiga ainda mais a associação entre as duas. Note-se a extrema semelhança do estilo e dos padrões na representação budista com as formas artísticas ocidentais. É quase irresistível a tentação de admitir que ambas se aproximam bastante uma da outra.
Provavelmente, os budistas esperavam criar uma associação entre um popular motivo romano e a imagem de Buda, tornando-o mais familiar aos olhos mediterrânicos. O ‘Buda em Pé’ também trazia, consigo, uma mensagem pacificadora e familiar, o que o aproximava ainda mais do Augusto da Via Labicana, e concedia a Buda uma certa ‘dignidade imperial’.

Mas o que aconteceu depois?

Apesar desse notável esforço dos budistas de criarem um ‘Buda para os romanos’, as tentativas de estabelecer uma comunidade no mundo mediterrânico não foram bem sucedidas. Entre os séculos 1 e 3 d.C., o mundo romano era palco de inúmeras disputas religiosas, e não faltavam ‘religiões mundiais’ para competirem com os budistas. No entanto, uma dessas religiões acabaria por vencer todas as outras: o Cristianismo. A ascensão dos cristãos varreu do mapa diversas religiões orientais que perambulavam pelo Mediterrâneo, e os budistas perderam tudo o que, possivelmente, tinham conquistado por lá. Contudo, o modelo do ‘Buda em Pé’ permaneceu dentro do cânone iconográfico budista, tornando-se uma de suas representações mais populares e autênticas. Além disso, se as portas do Ocidente foram fechadas, tanto a China como Sudeste Asiático estavam abertos, e receptivos, a vinda dos missionários indianos. Começava aí uma nova etapa da história do Budismo, que levaria para a China suas férteis experiências interculturais, e que iria revolucionar o panorama religioso e artístico chinês nos séculos vindouros através de sua riquíssima iconografia ‘indo-greco-romana’.

Para ler:
André Bueno, Interações Euroasiáticas na formação da iconografia budista: um estudo sobre os processos de interação cultural entre os mundos greco-romano e sino-budista e a formação de símbolos interculturais na antiguidade. UNIRIO, 2012 (no prelo).
Gilles Beguin, Buddhist Art: An Historical and Cultural Journey, 2009.
Raoul Mclaughlin, Roma e o Oriente Distante, 2012 (original, 2010).
Warmick Ball, Rome and East, 2000.

Wladimir Zwalf, Buddhism: art and faith, 1996.




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