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Harmonia e Diferença


Vivemos tempos em que todos clamam por ‘igualdade’; mas precisamos mesmo da igualdade, ou precisamos de harmonia entre as diferenças? Os chineses antigos respondem.

Costuma-se dizer que vivemos numa época complicada, em que lutamos pela igualdade e pelo respeito às diferenças. Me pergunto qual foi a época, na verdade, em que a humanidade não enfrentou dificuldades; e se não há uma grande confusão – mas essa bem atual - entre as noções de ‘igualdade’ e ‘diferença’. Queremos ser iguais perante o quê, se pedimos privilégios legais e políticos? Exigimos respeito às diferenças; mas considerar alguém ‘diferente’ já não seria um desrespeito à noção de ‘igualdade’? Essa discussão é complexa; e no caso do Brasil, ela é intensamente atravessada por preconceitos arraigados, e interesses políticos oportunistas. Como de costume, buscamos amparo nas teorias de outras culturas, em busca de uma experiência que possa nos iluminar. Vamos nesse espaço, então, ouvir um pouco da opinião chinesa sobre essas questões.

Pra começar, os pensadores chineses antigos não acreditavam realmente numa ‘igualdade’. É só olhar, e perceberemos que nenhum humano é igual a outro. Contudo, o que nos torna humanos é o princípio (‘Li’, 理) de humanidade, que se manifesta tanto em nossa estrutura física comum (temos dois braços, duas pernas, dois olhos, etc.) como na nossa capacidade criar, conviver e aprimorar nossa maior realização, que é a cultura – nosso modo de viver em comunidade, essa capacidade de superar nossas limitações físicas. Uma das primeiras coisas que torna os humanos ‘iguais’, portanto, é sua capacidade de perceber as suas próprias diferenças, sejam elas físicas ou intelectuais. Por essa razão, não é difícil perceber que quando um grupo reclama muito por uma ‘identidade própria’, logo ele resvala na intolerância, no preconceito, no racismo, entre outros males provocados pela utopia de uma ‘igualdade’ exclusivista. A grande ironia dessa busca de uma ‘igualdade’ artificial é que ela reconhece a diferença, mas não de modo saudável: é necessário menosprezar, repelir e mesmo exterminar a ‘diferença’. Mas os chineses entendiam que a diferença era fundamental, e sem ela nada existe. É a famosa teoria da ‘oposição complementar’, que organiza o mundo em duas coordenadas fundamentais, yin e yang. Sem o seu ‘oposto’, algo simplesmente não existe. Por isso, na cabeça dos sábios chineses, era preciso harmonizar-se com o seu oposto, pois no dinamismo dessa relação que residiria a transformação, a sobrevivência e a continuidade de todas as coisas. Não seria possível, portanto, haver ‘igualdade’ entre as coisas, mas sim, harmonia entre as ‘diferenças’. Quando se afirma: ‘fulano está em harmonia comigo, ele é igual a mim’, comete-se um erro terrível. Quem apenas concorda com outra pessoa não o ajuda a evoluir ou a crescer. Se um erra e o outro concorda, ambos erram. Se um acerta e o outro concorda, este que concorda não aprende a acertar por si mesmo, e diante de um novo problema, não saberá como agir. Por isso, para os chineses, a diferença é uma lição fundamental de harmonia. Confúcio [551 à 479 a.C.] gostava de invocar a analogia da música para explicar a vida em sociedade: as notas são diferentes, mas numa composição harmoniosa, regida por uma melodia equilibrada, formam uma bela música. Ele mesmo disse, nas Conversas: “me ponha junto com duas pessoas escolhidas ao acaso, e com certeza vou poder aprender algo com elas. Vou imitar suas qualidades, e vou me precaver de não ter os mesmo defeitos”. Curiosamente, o ‘oposto complementar’ de Confúcio, o sábio Laozi [séc. 6 a.C.], dizia algo semelhante: “O que ‘está’ e o que ‘não está’ se engendram; o ‘difícil’ e o ‘fácil’ se alternam; o ‘longo’ e o ‘breve’ contrastam; o ‘alto’ e o ‘baixo’ são posições; o ‘som’ e o ‘silêncio’ formam a harmonia; a ‘frente’ e ‘costas’ andam juntas.” Para pensadores tão distintos, a regra parecia se aplicar: a diferença é necessária a criatividade e a vida. Elas precisam estar ‘harmonizadas’ para existirem. A anulação de um implica na morte do outro. A Harmonia (‘He’, 和), portanto, é a compreensão da interdependência que existe entre as diferenças, é o arranjo eficaz que será feito para que ambas se alimentem e se aperfeiçoem indefinidamente, gerando a continuidade.

A regra da vida harmoniosa – e no que tange a convivência em sociedade, principalmente – pode ser resumida novamente nesse trecho de Confúcio: “Ranyong perguntou sobre o Humanismo. O Mestre disse: fora de casa, aja como se todos fossem convidados importantes. Cuide do povo como um evento importante. Não imponha a ninguém o que não gosta pra si mesmo. Não deixe o ressentimento pessoal se intrometer nas coisas públicas ou nos assuntos particulares”. Séculos depois, o sábio budista Shitou Xiqian [700 à 790 d.C.] diria algo nesse mesmo sentido: “cada uma das inúmeras coisas tem seus méritos, e se expressa de acordo com sua função e lugar [...] a verdadeira igualdade é a harmonia entre os diferentes”. Com regras tão simples, é fácil evitar preconceitos e concepções obscuras de convivência em sociedade.

Ao olharmos a China de hoje, vemos que essas teorias não conseguiram evitar a existência de problemas sociais sérios. Contudo, essa orientação sobreviveu. O filósofo contemporâneo Tang Yijie, em seu famoso artigo ‘Être en harmonie sans être identiques’ (Estar em harmonia sem ser idêntico, 1999), nos mostra que o princípio foi brilhantemente aplicado, por exemplo, nas relações que o governo chinês desenvolve com o restante do mundo – principalmente no caso dos Estados Unidos, seu maior rival e, no entanto, seu maior parceiro comercial no mundo. Por analogia, isso demonstra que uma educação voltada ao reconhecimento e a integração das diferenças pode ser salutar para a sociedade. Talvez - se ao invés de buscar uma ‘igualdade’ artificial - nós procurarmos desenvolver a aceitação criativa e plena pelo que consideramos ‘diferente’, criando uma verdadeira harmonia, a ‘diferença’ deixará de existir como um problema, e passará a ser parte integrante de nossa vida, como um motor de transformação e – porque não dizer? – um dos acessos a sabedoria de viver.

Na revista Filosofia - Ciência e Vida desse mês (06/2013), N. 83.

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