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O “Outono Árabe”



“Primavera Árabe” é mais um daqueles termos abrangentes, superficiais e de efeito que a mídia cunhou para criar uma imagem de força dos movimentos políticos e sociais que surgiram no Oriente Médio e no Norte da África desde o final de 2010. A própria denominação é inspirada no fracasso romântico de 1968 da “Primavera de Praga” – movimento mal sucedido que tentara afastar a extinta Tchecoslováquia da pesada influência soviética. Se lembrarmos disso, veremos que a denominação “Primavera Árabe” acabou sendo, ironicamente, apropriada – justamente, porque ela está quebrando.

O problema em si de tentar diagnosticar o que aconteceu com a tal primavera, depois de dois anos, já começa pelo falso pressuposto - comum ao orientalismo tradicional ocidentalista - de acreditar que qualquer um, no Oriente Médio, é árabe. De fato, alguns desses países receberam uma marcante influência da cultura árabe, e são predominantemente islâmicos. Contudo, analisá-los em conjunto seria tão problemático como tentar entender, por exemplo, a América Latina (do Chile ao México) como se fosse algo homogêneo. Os países do Oriente Médio e Norte da África são diferentes entre si o suficiente para justificarem uma análise em separado de cada um. Por outro lado, não podemos ignorar que os eventos políticos que varreram essas nações estavam encadeados. Estava nossa breve reflexão trata, pois, de tentar pensar: o que aconteceu com a “Primavera Árabe”?

Primeiramente, devemos identificar uma série de equívocos cometidos pelos “especialistas” em “Oriente” ligados à mídia Ocidental – principalmente a dos Estados Unidos e da Europa, mas das quais somos amplos consumidores. É o velho erro, reincidente, dos orientalistas contemporâneos – tentar entender o mundo moderno dessas nações sem compreender seu passado, e realizar generalizações vinculadas a interesses particulares. Esses dois pontos são fundamentais para compreendermos o que falhou no desenrolar dessa “Primavera Árabe”.

O problema das análises contemporâneas

De maneira ingênua, a mídia ocidental começou a acreditar que, após os eventos políticos ocorridos na Tunísia em dezembro de 2010, os conflitos iniciados em outros países da região levariam a uma nova onda de independências e democracias. Passados dois anos, quase todos esses movimentos naufragaram – ao menos, em se tornarem “democracias”. Mas o que havia de comum entre esses países? Eram governados por longas ditaduras, quase todas surgidas na época em que o grande inimigo ainda era o comunismo. Seus governos se assentavam nas forças militares e numa repressão interna severa, que parecia não fazer mais sentido num mundo cuja configuração política mudou bastante desde a década de 80.

Na Tunísia, os protestos deram certo, e derrubaram o governo. No Egito, houve uma escalada de violência, que conquistou a duras penas uma nova eleição – e que elegeu um partido de orientação conservadora. Na Líbia, virou guerra civil, cuja solução foi dada com ajuda da Europa, pois o país tem petróleo em abundância. Todavia, a Líbia também está vendo conservadores assumindo o poder. No Iêmen, Marrocos e Jordânia, houve apenas mudanças nos governos; mas na Síria, uma longa e violenta guerra está se desenrolando até agora.

Não podemos ignorar que havia uma insatisfação generalizada com os caducos sistemas políticos da região, “inadequados ao contexto contemporâneo”. Todavia, imaginar que tais mudanças políticas levariam à democracia (tal como teria ocorrido no Leste Europeu, após 1989, como fim da União Soviética) constituiu um erro fatal dos analistas.

A questão é que esses países tiveram uma história absolutamente diferente das nações européias. São civilizações milenares, que conviveram com o império romano, mas cuja formatação cultural se alterou substancialmente com a conversão maciça ao islamismo. Durante séculos, formaram impérios orgulhosos e sólidos, que impuseram respeito (e limites) aos europeus. Somente a poderosa virada tecnológica e industrial do século 19 inverteu o jogo dessas relações. O historicamente rápido período de colonização e domínio europeu sobre o Oriente Médio criou um amplo ressentimento contra a presença abusiva do imperialismo. Por fim, a desordem instaurada pela divisão da região, após o final da Segunda Guerra Mundial, criou ainda mais atritos em meio à diversidade étnica e cultural desses povos. A herança desse processo foi uma sucessão de governos despóticos, cuja orientação oscilava entre apoiar o Ocidente capitalista ou o “Oriente” socialista. A instalação de Israel acentuou ainda mais esses conflitos, que sistematicamente foram dirigidos contra a sociedade israelense. Obviamente, isso aprofundou uma série de tensões sociais já existentes nesses países.

Os anos 90, e a primeira década do século 21, marcaram o ressurgimento da radicalização religiosa – caminho para entendermos as mudanças que aqui analisamos. O “fim” da opção ideológica representada pelo socialismo promoveu a retomada das religiões como uma via política e social relevante, e que se dirigia diretamente – no caso desses países - ao passado glorioso de suas civilizações. É nesse contexto que veremos surgir movimentos de inspiração religiosa radical (ou, conservadora), que pregam a retomada de um passado ideal. O islã seria o caminho para retomar o respeito que havia nesse passado, e a religiosidade instauraria novamente a organização de uma sociedade ordeira e poderosa.

Generalizações problemáticas

Contudo, estamos aqui fazendo uma generalização – e como dissemos, tais propostas são problemáticas. Minha crítica, nesse caso, se volta contra a generalização forçada, equivocada e quase inexperiente promovida pela mídia ocidental em relação a tais protestos. Animados por uma possível “reviravolta” democrática nesses países – e quem sabe, subjetivamente, por uma suposta simpatia pelo Ocidente – nossos canais especializados promoveram esse movimento com uma grande “esperança” para o Oriente Médio. De fato, podemos identificar alguns grupos – mas não em todos esses países – que lutavam por algum tipo de democracia. O caso do Egito, no entanto, é emblemático; o povo elegeu um governo que prega o retorno ao passado ideal de um grande Islã, e não a uma sociedade pluripartidária. Na Líbia, os revoltosos se aproximavam desse perfil. O caso sírio deixou ainda mais evidente esse panorama complexo: se os revoltosos parecem ser radicais, quem (na Europa e Estados Unidos) está disposto a apoiá-los, sabendo que se pode cometer um “erro clássico” já ocorrido no Afeganistão e na Líbia? A ausência da guerra síria, bem como os destinos da “Primavera Árabe” nos meios de comunicação, evidencia o espantoso erro de avaliação dos orientalistas ocidentais em relação ao que alguns desses povos realmente desejavam – e desejam. Mas aí, também invisto particularmente numa outra generalização, que veremos a seguir, e que pretende dar conta de entender esse panorama complicado da contemporaneidade.

O retorno ao Passado Ideal

Critiquei a idéia de que poderíamos generalizar a análise da “Primavera Árabe” por causa da diversidade de civilizações abrangidas. Insisto nesse ponto: o que há de comum nesse movimento é a revolta contra sistemas ditatoriais, muitas vezes impostos com ajuda européia, americana ou soviética. As formas de reação, porém, são diferentes, e variam de país para país. Algumas descambaram em guerra civil. Outras, simplesmente, foram resolvidas de forma política, por meio de negociação. Mas em quase todas, a marca do conservadorismo de faz presente. Grande parte das sociedades envolvidas nesses protestos clama por um retorno ao conservadorismo. Não negam a autoridade (e em alguns casos, o próprio autoritarismo), desde que ele combata a corrupção e a perda de valores morais antigos. A religião é tomada como ponto de referência para a formulação de uma nova ordem – com todos os conflitos que derivam, obviamente, do fanatismo e da intolerância que a instituição de uma religiosidade única traz.

Todavia, isso me parece mais amplo. Em tempos recentes, países da Ásia central têm observado o crescimento desse islamismo politizado, desejoso de uma nova ordem política. Mas isso não se restringe ao Islã. Recentemente, a Índia teve um governo orientado por um hinduísmo nacionalista. Países ocidentais cristãos também constatam o crescimento de radicais religiosos na política. O Brasil, inclusive, é um caso claro desse fenômeno. Hoje, os grupos que defendem a instauração de um cristianismo político conservador são quase tão grandes em número quanto os defensores da diversidade – embora a democracia dê abertura, naturalmente, a todo tipo de radicalismo.

A questão que contemplamos, a meu ver, é que o fracasso da “Primavera Árabe” – ou talvez, mais apropriadamente, o seu “Outono”, antes de uma época de “renovação” cujos aspectos são temerários – revela a incapacidade do mundo contemporâneo em criar novas opções políticas. Tratar a retomada do Islã como um sistema ideal nesses países e considerar isso um “problema”, é algo tão hipócrita quanto não reconhecer a retomada do cristianismo conservador no mundo ocidental. Não raro, as democracias ocidentais têm proporcionado um palco solícito para todo o tipo de obscurantismo e radicalismo religioso, mesmo que isso implique na falência do próprio sistema democrático. E lembremos: com um vasto apoio do povo.

Talvez precisemos, pois, de uma religião que realmente pregue o amor – se as religiões realmente forem as opções políticas de agora, e se desejamos um mundo de equidade e inclusão. Mas qual delas está capacitada para isso?


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