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Reinventando o Doutor Fu Manchu




O insidioso Doutor Fu Manchu foi um personagem vilanesco, criado em 1913, pelo também insidioso escritor Sax Rohmer, autor sem muita originalidade e dado a cópias mal feitas das aventuras de Sherlock Holmes. A novidade de Rohmer foi apelar para o lado excêntrico, misterioso e perverso do orientalismo europeu do início do século 20, quando falar das ‘esquisitices’ asiáticas era uma moda nas rodas literárias ‘cultas’. Fu Manchu era um misterioso e perverso cientista chinês (ou Manchu, para ser mais exato – isso não fazia muita diferença no romance), formado nas melhores universidades inglesas, mas que dedicava seu gênio malévolo a conquista do mundo pelos ‘orientais’. Para tanto, ele abusava de toda a tecnologia aprendida no Ocidente, empregando-a de modo vil e criminoso.

Tantos preconceitos amarrados em apenas uma narrativa já dariam um bom motivo para deixar de lado a figura de Fu Manchu – embora ele tenha sido brilhantemente representado, no cinema, por atores magníficos como Boris Karloff, Cristopher Lee e Peter Sellers. Alan Moore incluiu-o no fabuloso imaginário da série em quadrinhos da Liga Extraordinária. Tais contribuições a difusão deste personagem tornaram-no inevitavelmente atraente ao público – enfim, um daqueles vilões que acabam atraindo a simpatia do público, e eclipsando completamente os heróis da narrativa.

Já escrevi um texto anterior sobre essa fascinante figura, e sua relação com a construção do orientalismo. Contudo, o objetivo do presente texto não é o de retomar uma análise literária de Fu Manchu. Queria me dedicar aqui, ainda que de forma breve, ao Complexo de Fu Manchu que se desenvolve na mentalidade brasileira atual.

Vejamos alguns dos pontos de vista desconexos que desenvolvemos sobre a China, e que podem ser encontrados facilmente na mídia:

- a China será o grande parceiro do Brasil na economia;
- empresas chinesas prejudicam a economia brasileira;
- a China é um país totalitário e perverso;
- a China é um modelo de administração para o Brasil;
- a China valoriza a educação;
- a educação chinesa é opressiva, e nunca poderia ser aplicada no Brasil;
- os chineses são cruéis, tem pena de morte;
- chineses dão o exemplo e fuzilam criminosos;
- governo chinês é corrupto (e o brasileiro é um exemplo?)
- governo chinês é composto por doutores formados em universidades de nível internacional
- chineses só produzem porcarias;
- adoramos produtos chineses;
- carro chinês não presta;
- carros chineses mostram o peso dos impostos e o lucro excessivo das montadoras brasileiras...

E a lista poderia se estender indefinidamente. A questão é que, tal como o personagem de Fu Manchu, os brasileiros não sabem o que pensar sobre a China. Num momento a China é uma vilã, noutro é um exemplo. E se não sabem, é por que não a conhecem.

Existem, claro, alguns problemas para dimensionarmos nossas relações com a China. Vemos notícias constantes sobre como a indústria chinesa tem tirado empregos brasileiros, graças a seus produtos de baixo custo; mas são poucas as pessoas que tem notado, por exemplo, que muitas fábricas brasileiras tem simplesmente importado produtos chineses, ao invés de manter custosos parques industriais. Isso dispensa empregados, salários, despesas de produção, etc. É muito mais fácil buscar um culpado lá fora, do que admitir a própria vilania de certos setores sociais brasileiros. Todavia, é a mesma China que é tratada como o parceiro ideal do Brasil! Nosso balanço comercial ainda registra superávit em relação à China (ver notícias aqui e aqui).

Que ‘vilão’ é esse, pois, que desperta tanto nosso o interesse e, ao mesmo tempo, rejeição? Que desconhecimento imenso e abissal é esse que nos leva a ignorar tão profundamente o mundo chinês?

Tal como Fu Manchu, só podemos conhecer a figura se lermos o romance (ou ao menos, assistir o filme!). Tratamos a China como uma civilização incômoda, que saiu de um atraso tecnológico devastador do início do século 20, para lançar-se ao ‘domínio do mundo’, como muito de seus detratores apregoam. Ora, a China foi invadida e destruída por duas guerras mundiais, por uma guerra civil sangrenta, e por crises econômicas (incluindo um período de fome terrível) que deveriam arrasá-la por completo; mas ao invés disso, ela levantou-se e se reconstruiu de uma forma impressionante. O Brasil nunca foi invadido, e nem foi devastado ou arrasado. Sou obrigado a perguntar: o que fizemos de errado? Será isso que incomoda tanto quando olhamos para a China? É esse sucesso que nos cria um rancor infundado?

Sim, porque temos medo, temos desconfiança, temos mesmo um ranço com essa civilização que mal conhecemos, e que obteve um sucesso que ainda não conhecemos. Deveríamos estar preparados para lidar com ela: mas o número de cursos de chinês é incipiente no país (embora tenha melhorado bastante nos últimos dez anos). Se optarmos por conhecer nossa ‘futura parceira’ (indo ao outro extremo dessa visão contraditória), nos depararemos com o desolador panorama universitário brasileiro, que nem de longe está preocupado em criar mesmo uma vaga e genérica disciplina de história asiática em seus currículos (e aqui vale a nota: até a recente conquista da inserção de história da África se ressente, profundamente, de especialistas que realmente entendam de África). De fato, a academia brasileira anda tão obscurantista que não são poucas as universidades que tem proposto abolir disciplinas como história antiga e medieval! E isso, num ambiente que se propõe diverso, multicultural e formador de cidadania! Pode o Brasil ignorar suas diversas raízes? E pode, por tabela, ignorar a existência do ‘resto do mundo’, como se tudo girasse em torno de nossa existência?

Há um romance de suspense a se desenrolar nas mentes brasileiras. Por um lado, temos a China de Fu Manchu: perigosa, desconhecida, astuciosa, desejosa de ‘conquistar o mundo’, ainda que isso custe submeter as ‘nações livres’ do mundo, tal como o Brasil. Mas é a mesma China que nos fascina, seja pelo domínio tecnológico, seja pela civilização ancestral, e que nos provoca uma quase inevitável simpatia – e quem sabe, mesmo, uma empatia, diante de tantos problemas que nos parecem comuns, como a pobreza, a corrupção, e o desafio ecológico.

Precisamos, porém, superar esse estágio caipirológico, que oscila entre uma desconfiança reticente e um fascínio ingênuo em relação a tudo que é novo. Para isso, precisamos conhecer – e conhecer é estudar, repetindo a velha cantilena do sábio Confúcio. Sem isso, estaremos fadados a eleger como vilões todos aqueles que, porventura, possam abalar nosso ‘modo de vida’ – como se esse, aliás, fosse tão ideal quanto o dos romances. É preciso vencer de vez esse imaginário. É necessário superar o tão mal concebido personagem de Fu Manchu.

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