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Entender as Pessoas




Aquele que fala sobre o antigo, deve saber sobre o novo. Aquele que fala sobre o Céu, deve saber sobre a humanidade. Observe o que diz uma pessoa: pelo que ela fala, saberemos se é honesta ou perversa, se é inteligente e capaz. Quem fala, sentado, deve saber ficar de pé, para provar o que está dizendo. [Xunzi 荀子, -313 a -238]

Zapotzu comentou: Claro! Imagine alguém que só sabe falar do antigo, sem saber do novo; ou pior, que só fale do novo, sem lembrar-se do antigo. Quem só fala do Céu, e esquece-se das pessoas, é um hipócrita; quem só fala das pessoas, e esquece-se do Céu, é um leviano. Não podemos afirmar sem provas, mas precisamos provar o que afirmamos. Essa é uma regra simples para não cair em conversas moles.


Ziyu tinha um aspecto notável, e Confúcio aceitou-o como discípulo. Com o tempo, porém, descobriu que sua conduta não correspondia a sua aparência. Zaiyu falava de modo culto e elegante, e Confúcio o aceitou como discípulo: mas com o tempo, descobriu que ele sabia menos do que aparentava. Por isso Confúcio disse: ‘Com Ziyu, me enganei com a aparência, com Zaiyu, me enganei com a conversa’. Assim, mesmo uma pessoa inteligente como Confúcio pode enganar-se e arrepender-se. Mas vejam: nos dias de hoje, as pessoas se encantam com conversas agradáveis como a de Zaiyu, e os soberanos tem menos lucidez do que Confúcio. Como eles não se enganarão, então, com conversas fiadas?

Do mesmo modo, [o Estado de] Wei sofreu uma terrível derrota perto da cidade de Huayang, por dar ouvidos às bravatas de Meng Mao (guerreiro famoso de Wei), e [o Estado de] Zhao quase teve a mesma sorte em Chenping por escutar as lorotas de Zhao Kuo (guerreiro de Zhao). Em ambos os casos, vemos como é perigoso dar atenção a palavras belas e loquazes. Nem mesmo o melhor armeiro pode dizer se uma espada é boa ou má apenas de olhar a cor do metal, se amarelo ou verde, ou mesmo pela aparência das chamas na forja.  No entanto, o mais ignorante dos escravos não terá dúvida que uma espada é afiada se vê-la cortando patos. Bolo, o grande domador de cavalos, não podia determinar se um cavalo era bom apenas olhando seus dentes ou o seu porte. Mas atrele um cavalo ao carro e o ponha pra correr, e nem mesmo o mais estúpido terá dúvida se ele é bom ou não. Apenas olhar o rosto e as roupas de uma pessoa, ouvir suas palavras, nem mesmo sábios como Confúcio podiam determinar se alguém era inteligente ou torpe por essas coisas: em compensação, coloque alguém num cargo público, ou mande-o para uma batalha, e descobriremos logo se ela é capaz ou inapta. [Hanfeizi 韓非子, -280 a -233]

O Andarilho Celeste comentou: Por onde já passei, eu vejo os embusteiros contando vantagem, e espalhando suas mentiras. Quando secam o poço*, vão pra outro lugar vender sua farsa, e aplicar seus truques. Mas o que continua a me impressionar é que, apesar dessas patranhas serem conhecidas por quase todo mundo, o povaréu continua a cair nelas. Como as pessoas se iludem fácil! Como é que ainda caem nessas trapaças?

* [Já tiraram tudo que podiam, foram desmascarados.]


Em tudo o que o sábio fala, o obscuro traz clareza, o distante se aproxima, o grande se torna simples, e o complexo fica evidente. Tudo o que ele fala pode ser provado. Se fosse algo que não pudesse provar, seria algo absurdo. E um sábio fala absurdos, por acaso? [Yang Xiong 扬雄, -53 a -18]

Zapotzu comentou: ‘Não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe!’ Já ouvi esse provérbio em algum lugar. Pois bem: se um povo prefere agir assim, ao invés de aprender, tudo o que ele ouvir de sabedoria lhe parecerá absurdo! Pasme! E o que ele ouvir de absurdo, lhe parecerá agradável! Mesmo que possamos provar o que afirmamos [como disse Xunzi], muitas vezes as pessoas preferem cair em bazófias da pior espécie. Coitado de Confúcio! Por isso que, mesmo com tanto amor no coração, ele era obrigado a perambular de um lado ao outro. Mas Hanfeizi repete o que Xunzi já tinha dito: ponha os falastrões a trabalhar, e vemos como eles se saem. Essa é uma boa fórmula, embora a maior parte das pessoas nem ligue para a incompetência alheia, desde que ela seja revestida de charme espalhafatoso e uma boa canalhice. Yang Xiong está certo, mas esqueceu que, às vezes, belas palavras soam melhor do que as verdadeiras.


Pergunte sobre o certo e o errado, para saber seus ideais; peça que interprete alguns textos e frases, para saber sobre suas capacidades e conhecimento; pergunte sobre um estratagema, para saber sobre seu discernimento; avise-o de um perigo eminente, para ver sua valentia; deixe-o bêbado, para conhecer sua índole; coloque-o frente a torturas, para verificar sua integridade; descubra o que ele anseia, para revelar seu caráter. [Zhuge Liang 诸葛亮, 181 a 234]

O Sábio-que-dormia comentou: E se pudéssemos ouvir o que elas falam quando dormem, seria ainda mais completo o diagnóstico do caráter de alguém. Tal intimidade, porém, é rara. A ideia de embebedar é muito boa. Disse o Livro das Canções Outonais: ‘Homens duros que bebem/E ficam bons/São bons; Homens bons que bebem/E ficam maus/São maus; Homens que não bebem/ Não vão à festa dos ancestrais/ São os piores de todos’. Eu nunca vi aqueles que são realmente perigosos beberem pra valer: eles têm medo de revelarem suas fraquezas e vícios. Outros, porém, falam tantas bobagens que nem precisam beber pra mostrar sua idiotice. Quando o fazem, apenas aprofundam o que já são de ruim. Sondando as pessoas com perguntas, vamos aos poucos as conhecendo. Ao ver como elas escapam das perguntas, ficamos sabendo de suas limitações e de sua desfaçatez. Tudo isso, porém, é importante para quem tem que lidar com as pessoas todos os dias. É uma chateação.


Para conhecer mais profundamente uma pessoa, e ter uma ideia de seus sentimentos, observe o que ela diz, o que ela aprova, o que a interessa, e o que ela faz. Ao perceber o que ela fala, e o que a interessa, sabemos se ela é honesta ou não; ao observar o que ela aprova e faz, sabemos se ela é inteligente e capaz, ou não. Todas essas coisas são complementares, e uma não existe sem a outra na compreensão do caráter de alguém. [Liu Shao 刘劭, 220 a 265]

Zapotzu comentou: Esse pensador, Liu Shao, era um bom entendedor das pessoas. Lia seus rostos, ouvia suas palavras, e pretendia que assim alcançaria suas almas. Porém, conheço um provérbio que diz: ‘As más companhias são como um mercado de peixe; acabamos por nos acostumar ao mau cheiro’. Ora, se convivermos muito com pessoas de má índole, e nos acostumarmos com elas, como saberemos a diferença entre o certo ou o errado? Precisamos saber conviver com elas, mas mantê-las à distância, para não nos envolvermos em suas confusões.

O Sábio-que-dormia comentou: ‘Ficar acordado’ significa: descobrir como as pessoas são. ‘Dormir’ significa: esquecer um pouco de tudo isso – sem o que, a vida se torna difícil e cansativa.

O Andarilho Celeste comentou: ‘Dormir’ significa, também, não receber aqueles que são inconvenientes.


Observa-se uma pessoa por oito meios:
Primeiro: como ela toma algo de alguém, ou como a ajuda, para compreender sua mentalidade.
Segundo: observe suas variações de humor, para ter uma ideia de seu caráter.
Terceiro: observe suas peculiaridades, para saber de que tipo de gente se trata.
Quarto: observe seu comportamento, para saber se é sincero ou falso.
Quinto: observe sua cortesia, para saber suas razões.
Sexto: observe seus movimentos, para conhecer seus interesses.
Sétimo: observe suas fraquezas junto aos fortes, para saber quais são verdadeiramente suas habilidades.
Oitavo: observe sua inteligência, para definir seu talento.
[Liu Shao 刘劭]

Zapotzu comentou: Eis um bom método para analisar as pessoas, e evitar cair em lorotas.

O Sábio-que-dormia comentou: Mas aplicá-lo já denota, de certa forma, que se trata de uma pessoa interessante – no bom ou no mau sentido.


Todo ponto forte de alguém está submetido à um ponto fraco. Assim, observe seus pontos fracos, para saber seus pontos fortes.
[Liu Shao 刘劭]

Zapotzu comentou: Tem gente com tantos pontos fracos que me pergunto o que elas tem de bom!

O Andarilho Celeste comentou: Seus erros nos ensinam a como proceder de modo correto.

Zapotzu comentou: É uma lástima que precisemos aprender tanto sobre o que é errado, para melhor fazer o que é correto. Mas acredito sinceramente que as pessoas podem melhorar, senão, eu desistiria delas. Esses fragmentos são caminhos para entender as pessoas; e entendê-las significa, enfim, alcançar a Humanidade. Se bem empregados, nos levam ao intuito supremo do Humanismo, e à redenção harmônica dos seres.

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