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Crises Chinesas



Na virada do século 20, a China encontrava-se em crise. O país era dominado por uma elite estrangeira - os manchus 清朝- que mantinham a sociedade na obscuridade intelectual. Até o século 18, os chineses haviam sido uma grande potência econômica, graças a exportação de produtos como seda e porcelana. Contudo, para manter a dominação dos chineses, os manchus deliberadamente fecharam as portas da nação, e de forma gradual, solaparam as bases da educação chinesa, deformando o confucionismo numa doutrina de subserviência estatal. Transformaram também o sistema de exames públicos (para a formação de quadros burocráticos) numa paródia de concurso público, distribuindo cargos e proventos para os áulicos e bajuladores. Sem a formação de uma intelectualidade capaz de se opor ao domínio estrangeiro, a sociedade alienava-se das questões políticas e econômicas, e ignorava o que se passava no restante do mundo.

A revolução industrial solapou a continuidade do sistema chinês. No mesmo século 18, Voltaire - sinófilo encantado com o ideal da monarquia chinesa - já denunciava o atraso tecnológico dos chineses, embora faltassem ainda algumas décadas para a China entrar na sua espiral de crises sucessivas:

Não é preciso, todavia, ser fanático do mérito chinês. É verdade ser a constituição desse império a melhor do mundo, a única fundada no poder paternal (o que não obsta que os mandarins não vivam a espancar os filhos), a única na qual é punido o governador de província que ao deixar o cargo não seja aclamado pelo povo. A única que instituiu prêmios à virtude, de passo que em todas as outras nações as leis se limitam a castigar o crime. A única que impôs suas leis aos próprios vencedores, enquanto nós ainda vivemos sujeitos aos costumes dos borgúndios, francos e godos que nos avassalaram. Deve-se reconhecer, todavia, ser o vulgacho governado por bonzos tão canalha quanto o nosso. Que, como nós, não perdem ocasião de escorchar o estrangeiro Que nas ciências nos caranguejam a reboque com dois séculos de atraso. Que como a nós gafa-os sem conto de preconceitos ridículos. Que acreditam, como por muito tempo cremos, em talismãs e na astrologia judiciária. Confessemos ainda que ficaram queixicaídos ante o nosso termômetro, ante o costume de gelarmos licores com salitre e ante todas as experiências de Torricelli e Otto de Guericke, exatamente como o ficamos, quando presenciamos pela primeira vez a esses brincos da física. Que seus médicos não curam melhor que os nossos as doenças mortais e que, tal qual como aqui, na China as moléstias triviais são relegadas aos cuidados exclusivos da natureza. Nada disso impede, porém, que há quatro mil anos, quando sequer sabíamos ler, já estivessem os chins de posse de todas as coisas essencialmente úteis de que hoje fazemos alarde. [‘Da China’, em Dicionário Filosófico]

Depois das Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60), a dinastia Manchu caiu para nunca mais se levantar. Ainda que as atividades econômicas continuassem a pleno vapor, o país não conseguia mais se sustentar diante das contínuas agressões estrangeiras, e esteve prestes a ser partilhado.

A China estava exposta, e o diagnóstico feito por vários autores do século 19 buscava interpretar as causas da decadência chinesa. Embora notassem o descompasso tecnológico em relação ao Ocidente, o questionamento de alguns autores chineses ia mais além. A questão fundamental era: qual a razão para a China ter deixado de se desenvolver, de buscar a evolução técnica e científica?

Dentro de uma lógica própria do Confucionismo, os autores chineses buscavam nos fundamentos da cultura a origem de suas deficiências. A conclusão indicava, em particular, a falha na Educação como a principal razão pelo atraso do país. Embora esse fosse um argumento tradicional dentro da mentalidade chinesa, tal entendimento mostrou-se acertado, mais uma vez, para salvar a China do limbo no qual ela entrou no início do século 20.

Como de costume, essas pequenas digressões sínicas têm o claro objetivo de estabelecer uma analogia com o caso brasileiro atual. Obviamente, algumas proporções devem ser guardadas: não somos [diretamente] invadidos e dominados por estrangeiros, não somos uma cultura milenar, bem como iniciamos o século 21 com um crescimento econômico notável, movido principalmente pela exportação de produtos agro-pecuários e de matérias-primas. Contudo, será possível manter o equilíbrio econômico sem a devida atenção à educação? Existe a possibilidade de uma sociedade manter-se harmônica e dinâmica, sem dedicar-se ao estudo? Há uma visão corrente e otimista, na sociedade brasileira de que, que tem permitido a uma geração inteira dedicar-se ao ócio, sem preocupações maiores com o futuro. Acredita-se, de modo vulgar, que esse período de pujança econômica há de durar indefinidamente, e que certas conquistas sociais e financeiras nunca mais se perderão. Como as crises são as Mães da lucidez e da razão, paira no ar a inevitável tensão entre os que percebem a possibilidade do sistema quebrar, e aqueles que buscam respostas para manter o sistema funcionando.

Como sinólogo, o que posso oferecer é o modelo da analogia, baseado num momento de crise da história chinesa. Entendo que existem aí algumas identificações possíveis entre nós e eles: a vasta população, um desejo comum de melhorar a vida, a incompetência política, a miríade de opções e caminhos a serem trilhados... Para isso, portanto, escolhi trechos de quatro autores chineses que testemunharam a crise da virada do século 20, analisando-a em seus fundamentos, e propondo uma solução baseada na questão educacional.

Para selecionar esses trechos, usei de uma metodologia absolutamente passível de crítica, mas que atende aos objetivos propostos: busquem substituir a palavra 'China' por 'Brasil' no texto, e usem do mesmo procedimento em relação as palavras contíguas - 'chineses', 'século 20', etc. Notaremos uma semelhança incrível com a descrição dos problemas; e se nos calcarmos no pensamento analógico, perceberemos que, ao longo de um século, a educação de qualidade, sem subterfúgios, acabou sendo a opção mais adequada para a grande recuperação chinesa. Não será apropriado nos guiarmos por essa experiência?

Falando sobre

A escola é a base da preparação das pessoas de talento, e estes, a base de um país próspero e poderoso. Por isso, a potência e a prosperidade dos países europeus e da América não residem na força física de seus homens, mas em sua ciência e estudos.[Zheng Guanying 郑观应, 1842-1921]

O primeiro trecho de Zheng Guanying nos revela um problema próprio da China da época: a ideia de que o esforço físico significava o 'verdadeiro' trabalho, e que seria capaz de sobrepujar a técnica. Essa visão estava arraigada na cultura chinesa, e se contrapunha diretamente a necessidade de tecnologia defendida pelos intelectuais mais conscientes. Esse embate não era novo, e mesmo no imaginário chinês, a classe dos agricultores só perdia em importância, justamente, para a dos letrados. No entanto, ficara evidente que a massa de guerreiros chineses não era mais capaz de fazer frente as técnicas militares ocidentais; do mesmo modo, a imensa produção artesanal e manual não era suficiente para superar as máquinas. A China poderosa do início do século 18, centro do comércio e das técnicas mundiais, ficara para trás.

Curiosamente, essa concepção é reincidente no imaginário brasileiro. Muitos acreditam que o trabalho braçal é o 'verdadeiro' trabalho, e que as atividades intelectuais e liberais são motivo de desprezo. A inteligência é confundida com a esperteza; por conseguinte, há uma limitada produção de saberes derivados da pesquisa. Somos grandes consumidores e utilizadores, mas não produtores de técnicas.

Os chineses do final do século 19 estavam preocupados diretamente com esse tipo de problema, e compreendiam que a solução só poderia advir de uma revolução tecnológica e educacional. A educação fora gradualmente desmontada pelos manchus, que transformaram a formação humanista do confucionismo clássico numa doutrina caquética e esvaziada de hierarquia social. A meritocracia havia se transformado numa farsa, e os exames para a burocracia exigiam peças laudatórias e literárias que não correspondiam às necessidades de transformação da sociedade. A elite não estava preparada para evoluir e adaptar-se aos novos tempos. 

Xuqin 徐亲[? - 1898], um dos seletos intelectuais críticos e ativos desse período, denunciava o estado de obsolescência das estruturas culturais chinesas. A educação, degradada, punha em risco a sobrevivência da nação. Como ele mesmo afirma:

Eu, Xuqin, advirto solenemente a nação: aqueles que tentam submeter ou subjugar a China, recorrem ao antigo sistema de exames imperiais para manter o povo na ignorância. A China tem uma extensão territorial de duzentos milhões de li quadrados, com quatrocentos milhões de habitantes e duzentos e sessenta mil tipos de produtos diferentes. Nenhum outro país tem tanta gente e variedade. No entanto, o norte da China é controlado pela Rússia; o sul é ameaçado pelos ingleses e franceses, e o leste foi tomado pelo Japão. A China vive numa crise tão grande que a única coisa que eles podem chamar de 'país' é sua identidade cultural. Se analisarmos as causas dessa situação precária, veremos que ela está na ignorância do povo. Para manter o povo na ignorância, não há método mais eficaz do que privar o povo do acesso à boa educação, submetendo-o a manipulação dos governantes. Para privar o povo do acesso à educação e mantê-lo na ignorância, não há método melhor do que despolitizá-lo, para que não saiba os 'porquês' e os 'comos' dos sucessos de todos os tempos e de todos os lugares. Desse modo, criam-se milhares de 'cegos' e 'coxos' dependentes e a mando dos governantes, que os conduzem com o chicote na mão, como se fosse um bando de bestas de curral. Basta dar-lhes um pouco de comida e água para que eles as disputem afoitamente, com medo de perdê-las. Assim se deixam dominar, e se matam uns aos outros por quaisquer mesquinharias.

Vemos que Xuqin estava absolutamente consciente de que a educação fora destruída para melhor dominar o povo. Este, dependente do assistencialismo do governo, achava-se incapaz de compreender as raízes dos problemas sociais. Da mesma maneira, os 'estudiosos' da época, mais interessados em posições burocráticas do que na real melhoria da sociedade, encontravam-se comprometidos com esse sistema venal e perverso. Por essa razão, Xuqin não acreditava mais no sistema de exames, que já havia sido responsável, séculos antes, pela formação de uma das mais capacitadas burocracias do mundo. Por isso, a necessidade de resgatar os estudos acadêmicos era vital para a recuperação da sociedade, do Estado e do país:

A inteligência e a sabedoria de milhares de chineses estão a ponto de esgotar-se, como consequência dos costumes que vêm sendo observados há algumas centenas de anos, e do estado psicológico em que vivem. Já não temos ministros capazes no governo, generais capazes nas cidades, funcionários capazes no funcionalismo público das mais diversas regiões, agricultores capazes no campo, comerciantes capazes no mercado e nem artesãos capazes nas oficinas. As quatrocentas milhões de pessoas talentosas, descendentes dos fundadores do império chinês, e são submetidas a um esquema de preparação que não as ensina outra coisa senão escrever clichês, compor poemas estéreis, e transformá-los em seres sem faculdades intelectuais. A situação do país é tão crítica como a de um homem que, privado da visão, cavalga num cavalo cego, a beira de um abismo à meia-noite. No mundo atual, os mais diversos países mantêm um intercâmbio ininterrupto. Surgem diversas potências entre aqueles que promovem os estudos acadêmicos, dão preferência ao saber, e desenvolvem a inteligência de seus povos. Nós nos encontramos com centenas de milhares de pessoas privadas de visão. Que possibilidade temos de sobreviver no mundo?[idem]

É impressionante a clareza de Xuqin em compreender como sua sociedade encaminhou-se para a crise: a alienação do povo, baseada em sua imbecilização. Sem uma boa educação, como processar a recuperação do país? Como assegurar seu futuro, sua continuidade? Outro intelectual reformista, Liang Qichao 梁启超[1873-1929], seguiu a linha de raciocínio de Xuqin, contrapondo a mítica do 'valor físico' em relação a necessidade do estudo e da inteligência. Liang tinha as mesmas preocupações em relação ao resgate da educação, e de sua importância para resgatar a dignidade e a coesão da sociedade. Para ele, a base de uma sociedade moderna (e mesmo, democrática) e reformada calcava-se, inequivocamente, no desenvolvimento do saber:

Aqueles que andam buscando uma solução para a China, repetem a cada instante que é necessário promover a democracia. É certo fazê-lo, mas isso não ocorre da noite para o dia. A democracia nasce da inteligência. A democracia é diretamente proporcional à inteligência. No passado, quando os governantes queriam suprimir os direitos democráticos do povo, a primeira coisa que faziam era obstruir o desenvolvimento de sua inteligência. Hoje, se queremos restaurar os direitos democráticos, a primeira coisa que precisamos fazer é desenvolver a inteligência. 

Notemos que Liang incorporou a ideia de 'democracia' em sua terminologia, como a representação de uma teoria de liberdades individuais, algo inexistente até então no imaginário político chinês. Essa proposta é tão revolucionária quanto fazia parte de uma velha tradição intelectual chinesa, baseada no confucionismo clássico, que não negava o novo, e pretendia que o sábio verdadeiro estudaria sempre, em busca da evolução da sociedade e da manutenção da harmonia. Mas a mensagem de Liang é clara: quando há ignorância, não há democracia. A liberdade seria diretamente proporcional a consciência políticas, que só se forma pela educação. Caso contrário, cairíamos novamente no domínio da força bruta, como se segue:

Em minha opinião, a tese das três fases do desenvolvimento da sociedade humana, propostas nas Primaveras e Outonos, nos sugere o seguinte: quando reina em um país o caos e a disputa pelo poder, quem tem força vence; quando o país está tranquilo, quem tem força e inteligência vence; e quando prevalece a paz e a prosperidade, quem tem inteligência é quem vence. Nas épocas primitivas da humanidade, os animais eram os donos do país. A ameaça deles era tão grande, que as pessoas tinham que viver em cavernas ou no alto das árvores, para ficarem a salvo do perigo. Do ponto de vista da força física, os animais são superiores aos humanos, porque estes não têm plumas para se cobrirem, nem garras e dentes afiados para se defenderem. No entanto, graças a sua inteligência superior, os homens conseguiram vencer os tigres, rinocerontes e outras bestas ferozes, e domesticaram camelos e elefantes. Nos tempos antigos, os mongóis e os árabes pilhavam e matavam, derrotando países de cultura milenar, e por pouco não dominaram o mundo inteiro, pois tinham tinham uma força física superior. Mas nos últimos anos, os europeus e os russos subjugaram os outros países pela força de suas armas e máquinas, e expandiram seus domínios por todo o mundo através do comércio. Em consequência disso, grande parte do mundo está sob seu domínio, em função de suas forças intelectuais superiores. A lei do desenvolvimento do mundo é que ele passa do caos para a boa ordem; a lei da guerra é que se passa do domínio pela força para a supremacia da inteligência. Por isso, hoje em dia, para termos um país próspero e poderoso, devemos conceder uma importância primordial ao desenvolvimento da inteligência pela educação. [idem]

Essa insistência na questão educativa, e de sua relação com o desenvolvimento de uma consciência crítica, tornara-se o mote das reformas pretendidas pelos chineses na virada do século. Inteligência significava saber; saber significava consciência; consciência constrói a liberdade e a autonomia; e somente assim, um país torna-se forte e soberano. Os raciocínios chineses são esquemáticos nesse sentido, buscando sempre articular as partes num todo harmônico. Todavia, percebemos aqui o mesmo leque de problemas e desafios que - como propus no início do texto - que se encontram na sociedade brasileira atual. Não fomos invadidos, nem estamos falidos; mas como sustentar a riqueza e a estabilidade sem estudo - o motor do desenvolvimento, e base da consciência crítica formadora da autonomia democrática?

Cai Yuanpei 蔡元培[1868-1940], um desses autores que teve o privilégio de acompanhar a derrota dos manchus, encerra esse nosso texto com um trecho cujo significado pode ser entendido como atemporal, para as sociedades que estão em crise - ou a um passo dela:

Se uma nação ou país quiser manter-se em pé e com honra no mundo, tem que calcar-se nos estudos acadêmicos. Isso é particularmente válido para o século 20, a Era das Ciências. Dos países que alcançaram um alto nível de estudo acadêmico, não há nenhum que não seja próspero e poderoso. Em compensação, a nação é fraca, e o povo tem que viver na penúria, quando os estudos acadêmicos estão atrasados, e quando o povo ainda não se livrou do obscurantismo.


Referências
Os textos foram retirados da antologia de 冯天瑜 Feng Tianyu, 中国思想家论智力  Zhonguo sixiang jialun zhili (La inteligencia a los ojos de los pensadores chinos). Shanghai, 1986.


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