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A China em um só tempo

Palestra no Curso de Pós-Graduação Lato Sensu da UERJ, dia 26/01/2013

Não devemos de modo algum rechaçar a herança dos antigos e dos estrangeiros, nem nos negar a tomá-las como ponto de referência, sejam as obras da classe feudal ou da burguesia. Mas tomar o legado do passado, e usá-lo como ponto de referência, jamais deve substituir nosso próprio labor criativo. 
Mao Zedong (1893- 1976)

A afirmação de Mao Zedong 毛泽东 manifesta perfeitamente o complexo paradoxo da história chinesa. A China se entende uma civilização fundada no passado, e o principal elo dessa ligação é sua história. Na visão chinesa, a própria cultura é mantida pela história; é a arte de ‘historiar’ que a preserva, a investiga, observa suas mudanças e propõe certas transformações nas práticas culturais. Mao percebera que era prisioneiro dessa história. Em 1956, ele criou a Campanha das Cem Flores 百花运动(Baihua Yundong), para estimular o debate entre as diversas correntes intelectuais existentes na época. O pretenso objetivo era o de criticar o governo, de modo legítimo, para que ele pudesse ser aprimorado. No entanto, um ano depois, a maior parte dos críticos que ingenuamente revelou-se foi parar na prisão. Muitos foram acusados de invocar os pensadores do passado, como Confúcio 孔夫子(-551 a -479), para desviar os caminhos da revolução comunista. Uma década depois, 1966, ele detona a violenta Revolução Cultural 文化大革命 (Wenhua Dageming), visando ‘limpar’ a sociedade de revisionistas, imperialistas, burgueses, conspiradores, etc. Oficialmente, a Revolução Cultural teria terminado em 1969, mas até 1971 ela continuava funcionando – como ficou evidente na Campanha contra Lin Biao 林彪, um dos seus principais adversários (pois até então, antes de tornarem-se desafetos, Lin havia sido um dos grandes aliados de Mao, e seu amigo pessoal) – intitulada, curiosamente, de Campanha contra Lin Biao e Confúcio 批林批孔运动(PiLin PiKong Yudong). O que o antigo sábio Confúcio tinha a ver com tudo isso? Na cabeça de Mao, Lin transformara-se num conspirador, defensor de uma visão antiga de sociedade chinesa, representada pelo Confucionismo. A Revolução Cultural tinha, como um de seus principais e assumidos objetivos, a destruição do passado. Era preciso inaugurar uma ‘nova China’, baseada no ‘Maoísmo’ – uma versão do marxismo-leninismo adaptado à cultura chinesa, criada pelo próprio Mao – e abolir de vez as práticas e pensamentos antigos. No entanto, o processo da revolução foi diretamente inspirado, como o mesmo Mao admitiria, em Qinshi Huangdi 秦始皇帝(-259 a -210), imperador que reunificou a China em -221. Qinshi construíra uma nova China, com uma só lei, uma só escrita, e tentou uniformizar a cultura do país. No entanto, para realizar seus planos, ele realizou um massacre de intelectuais, fez a primeira queima de livros da história chinesa, e impôs um programa de centralização do poder que impedia qualquer forma de discordância política ou administrativa. Qinshi seguia as orientações do filósofo Hanfeizi 韓非子(-280 a -233), para o qual a criação de uma nova sociedade só seria possível com a destruição da antiga. A abolição da cultura anterior seria um mal necessário. E o que Mao buscava com a Revolução Cultural? Exatamente o mesmo. Para criar sua ‘Nova China’, ele precisava acabar com a antiga – e, no entanto, usava de um expediente diretamente importado do passado, como se esse ainda servisse em pleno século 20. Para completar sua personificação como o ‘Grande Timoneiro’, ele divulgou intensamente o seu livro, Citações do Camarada Mao 毛主席语录(Mao Zhuxi Yulun, também conhecido no Ocidente como o ‘Livro Vermelho de Mao’), que continha um resumo de suas principais ideias sobre a política e a cultura chinesa. Denis Bloodworth observou conscientemente, em seu livro Imagens da China (1969) que Mao buscava apresentar-se como ‘Maozi’, ou ‘Sábio Mao’ – denominação (,Zi) usada, justamente, para os sábios da antiga China.

Como dissemos, Mao Zedong percebera-se preso aos mecanismos da história chinesa; ele entendia que, para realizar as transformações que pretendia na sociedade, era necessário usar essa mesma história a seu favor. Sem isso, ele não conseguiria se comunicar com o que poderíamos chamar de um ‘espírito do povo chinês’. Esse ‘espírito’, de fato, é a percepção milenarmente consolidada no imaginário chinês de que a identidade de sua cultura é construída por meio da história. Assim sendo, não se poderia ‘mudar’ a China sem fazê-lo a partir de sua própria cultura, de sua própria historicidade. Era preciso sinizar o comunismo para que ele realmente pudesse penetrar a cultura chinesa, e assim, ser aceito como ‘chinês’.

É notável pensar que uma teoria moderna com o marxismo tivesse que passar, ao fim, pelo crivo de uma ‘sabedoria histórica’ milenar para se impor. Ele vinha como uma solução para os problemas do país, como uma superação do passado; e, no entanto, apenas ao dialogar com esse passado – e de certo modo, adaptar-se a ele, submeter-se às suas especificidades – é que ele foi ‘aceito’, mas não sem alterações profundas, que caracterizam o Maoísmo.

Mesmo assim, depois da morte de Mao em 1976, a China começou, gradualmente, a retomar sua sabedoria tradicional (se é que, em algum tempo, ela realmente sumiu, ou só esteve guardada); hoje, esse ressurgimento do antigo é representado principalmente pelo movimento intelectual do Novo Confucionismo 新儒家 (Xin Rujia), que propõe uma nova política baseada nos antigos princípios éticos de Confúcio.

O que essa nossa discussão inicial pode nos ensinar sobre a mentalidade chinesa? Que essa civilização opera numa concepção histórica bastante diferente da nossa, em que a percepção do tempo (Shi), enquanto ‘momento histórico’, assenta-se em camadas no imaginário, provocando um fenômeno de continuidade que é praticamente desconhecido na historiografia ocidental.  Que se entenda: um chinês pode colocar em pé de igualdade, numa discussão, Confúcio e Mao Zedong, como se ambos dialogassem num plano ‘atemporal’ de ideias. Por comparação, seria como um político ocidental da atualidade propor, com naturalidade, a adoção de alguma ideia de Platão. Poderíamos objetar que esse argumento é válido, contudo, para o plano religioso. Não são raros os políticos ocidentais que invocam preceitos religiosos para resolver questões contemporâneas. Mas a questão é que, no caso chinês, nem o Confucionismo e nem o Maoísmo são religiões, mas sim, doutrinas filosóficas, cujo plano de debate é essencialmente materialista.[1] Como explicar, então, o sucesso do Confucionismo? Como entender a durabilidade da cultura chinesa? É comum usar o velho clichê de que, na China, ‘Passado e Presente convivem em Harmonia’. A pergunta é mais profunda: será que a cultura chinesa tradicional distingue, plenamente, as diferenças entre esses momentos temporais (passado e presente)? Se há distinções, quando ou onde elas começam, como são percebidas?

Por outro lado, historiadores como Fernand Braudel (1902-1985), em sua Gramática das Civilizações (1963), propunham que a continuidade da China demonstrava o fenômeno da Longa Duração histórica, calcada num ‘imobilismo civilizacional’. Como explicar, então, o surto atual de desenvolvimento chinês? Ou ainda, que até o século 18, a China era a grande exportadora mundial, recebendo as frotas mercantes de todo o mundo? Novamente, nossos modelos históricos não servem adequadamente para explicar a civilização chinesa. Precisamos, então, recorrer à visão que os chineses têm de si mesmos para compreendê-los. Essa chave se encontra em seu passado, e em seu modo de fazer história. É isso que buscaremos analisar, a seguir.

A Linguagem

O primeiro elemento que podemos elencar, aqui, para compreender a conexão chinesa com seu ‘passado’, trata-se da linguagem. Mesmo para um chinês que ignorasse completamente sua história, seria absolutamente impossível para ele distanciar-se do ‘passado’ pelo simples uso de seu idioma. De todas as línguas em uso, até hoje, em todo o mundo, o chinês é com certeza a mais antiga e a mais praticada. Não nos referimos a idiomas que, possivelmente, possam ser utilizados no estudo da antiguidade, como Latim ou Sânscrito. A questão é que o chinês – escrito e falado – é basicamente o mesmo há mais de dois mil anos. Talvez o único idioma que tenha alguma que tenha uma sobrevida tão grande como o chinês é o grego; mas a China conseguiu fazer com que ele não apenas se mantivesse, como se transformasse, ainda, no idioma mais praticado no planeta. O impacto que isso causa no imaginário da civilização chinesa é difícil de ser apreendido por nós.

Um leitor chinês pode ler, por exemplo, um texto escrito há mil anos atrás sem saber, exatamente, quando ele foi produzido. Isso ocorre porque a escrita é, em essência, a mesma usada até os dias de hoje. Um chinês pode, portanto, conectar-se com um passado distante de modo imediato, pelo simples uso de seu idioma. Por analogia, seria como se, até os dias de hoje, aprendêssemos latim ou grego como nossas línguas correntes, e que todos os textos de nossa tradição – desde Cícero, passando pela Bíblia, até Camões ou Machado de Assis – estivessem em um desses idiomas.  O sistema de escrita chinês também é amplamente distinto do nosso. Ao invés de um alfabeto, os chineses usam um sistema logográfico, composto por pictogramas (sinais que representam imagens) ou ideogramas (sinais compostos que representam ideias). Esse vasto conjunto de símbolos e sinais, organizados dentro de uma lógica própria, exige que um chinês aprenda não apenas a desenhar as palavras, como também a pronunciá-las – já que esse sistema não associa, diretamente, o som com a imagem, como no alfabeto. Se isso continua a trazer certas dificuldades no aprendizado desse idioma, por outro lado, o sistema logográfico mostrou-se uma ideia genial: ele permite que alguém possa aprender a escrever e ler, em chinês, sem saber pronunciar qualquer uma das palavras. Esse potencial fez com que o chinês se espalhasse pelo Extremo Oriente como uma ‘língua comum’. Além disso, até o século -3, havia um grande número de ideogramas diferentes, mas Qinshi Huangdi uniformizou a escrita chinesa, criando um padrão de uso geral. Os ideogramas por ele padronizados foram utilizados sem interrupção até o final do império, em 1911. A China popular realizou, após a década de 50, uma simplificação dos caracteres para difundir o letramento da população, mas versões antigas continuam a ser conhecidas e escritas. Em Taiwan, o chinês ainda é escrito do mesmo modo. Assim sendo, quando um estudante chinês resolve ler algum texto clássico do passado, precisará munir-se de um dicionário para compreender algumas palavras menos usadas ou, que foram mudando de sentido. Todavia, ele nem de longe precisará aprender uma outra língua como, em geral, precisam os ocidentais.

Vemos, portanto, que acesso dos chineses ao seu ‘passado’ se dá de um modo muito mais amplo e direto do que em nossa cultura. Essa é a razão, mesmo de usar ‘passado’ entre aspas: pois como vimos, um chinês comum pode ler textos feitos há milênios sem saber se eles foram escritos na semana passada. Coletâneas de fragmentos sapienciais, na China, podem emparelhar autores de épocas diversas, versando sobre um mesmo tema, de modo absolutamente indistinto. Ou seja: o ‘passado’ está absolutamente presente na formação da consciência desses indivíduos, como uma herança viva que continua a se reproduzir. Localizar um evento no ‘passado histórico’ exige, pois, um conhecimento da ciência histórica (Shi), que foi amplamente desenvolvida na China desde a antiguidade.

Historiar e preservar

Desde tempos imemoriais, os chineses já mantinham registros de suas atividades políticas e culturais. É possível que essa prática tenha se iniciado em torno do segundo milênio antes de Cristo, junto com o desenvolvimento da escrita. De fato, os primeiros materiais escritos da China antiga se preservaram em carapaças de tartaruga e grande ossos bovinos e caprinos, nos quais eram gravadas previsões oraculares. Eles datam do período Shang (séc.-16 a -1027), e eram arquivados pelos soberanos para consultas posteriores. Estabeleceu-se uma íntima conexão entre o registro dos oráculos, das atividades políticas, cotidianas, e o uso da escrita. Não é extremado afirmar, portanto, que um dos grandes motores do desenvolvimento da escrita chinesa está diretamente ligado ao registro histórico. 

É possível que os antigos anais chineses contivessem informações dos mais variados gêneros, além das datações e dos eventos mais significativos. Paulatinamente, os chineses desenvolveram a concepção de que a memória histórica referendava o estabelecimento da cultura e de suas práticas. É possível que o estudo da história fosse corrente entre a nobreza letrada, tornando-a uma forma de literatura sapiencial.

Talvez por isso, apenas no século -6 conheceremos o primeiro historiador chinês de fato, Confúcio. A China daquele momento atravessava uma profunda crise social e política, associada a uma visão de ‘decadência’ cultural. Contra essa falência da cultura, Confúcio defendia a retomada do estudo ético e histórico do passado. Mas não seria apenas um ‘retorno’ ao passado: Confúcio pretendia, ao seu modo, reformar a sociedade, tornando-a mais estável e desenvolvida por meio de um amplo programa educacional. Sabiamente, Confúcio percebera que era muito difícil ‘retornar’ a um ‘passado ideal’; da mesma maneira, era impossível consertar a sociedade sem vasculhar a origem de suas práticas e problemas. Por essa razão, ele afirmara: ‘mestre é quem sabe o antigo, e descobre o novo’. Somente pelo estudo da história, poderíamos compreender as raízes das questões atuais. Confúcio dedicou-se a resgatar, então, os livros que considerava como os fundamentos da civilização chinesa, e que haviam sido redigidos pelos menos cinco ou seis séculos antes de sua época – embora esses mesmos livros trouxessem informações sobre a aurora do mundo chinês. Ele mesmo teria redigido uma cronologia histórica, intitulada Primaveras e Outonos (Chunqiu), que continha a história de sua terra natal, e cujos eventos ilustravam passagens de cunho moral.

O importante, no projeto confucionista, é que ele fixou permanentemente, no imaginário chinês, a necessidade de recorrer à história para compreender os fundamentos da civilização chinesa. Doravante, os chineses sempre acreditariam que os momentos de crise estariam ligados a ausência de educação e ao desconhecimento da história – entendida como a grande relação dos eventos e da cultura que a estruturam. Três séculos depois, quando Qinshi Huangdi tentou construir sua nova sociedade, pareceu-lhe fundamental destruir essa forma de pensar. Apesar de violentos, seus esforços foram inúteis; os chineses já reconheciam, desde aquela época, que era impossível desvincular-se por completo do passado. Sem perceber, Qinshi Huangdi, ao reformar a escrita, e ao querer reescrever a história, simplesmente caía na ‘armadilha’ da cultura tradicional de usar a mesma história para fundamentar a existência da sociedade. O desenvolvimento de uma padronização da língua apenas reforçou sua difusão e uso na sociedade, e auxiliou sobremaneira a difusão dos antigos clássicos chineses após o final da dinastia Qin.

Se tomarmos apenas Confúcio como o mais antigo dos historiadores chineses conhecidos, ainda assim, veremos que a China tem a tradição historiográfica mais longa, contínua e proporcionalmente produtiva do mundo. E toda essa produção – que tornou a história uma dos principais gêneros literários da cultura chinesa – recorre constantemente ao passado para compreender e elucidar as questões contemporâneas. Um desafio histórico ou um contexto de crise são sempre, primeiramente, postos a comparação com os eventos antigos: trata-se do mesmo tipo de situação? É possível aplicar a mesma resposta? Há precedentes? É algo distinto, que exige uma ‘nova’ resposta?... Desse modo, a história tornou-se o modelo que explica a estrutura da mentalidade ética chinesa, inspirando sua conservação ou mesmo, sua transformação.

Imaginar o Mundo

Para concluir essa breve apresentação, precisamos adicionar, ainda, um terceiro elemento que caracteriza a percepção histórica chinesa: a ‘invenção’ do ‘passado’ e o uso da imaginação criativa como instrumento de historicidade.

Uma antiga piada na sinologia do século 19 dizia que, por segurança, quando um chinês comum apresentasse ao pesquisador uma data muito antiga para determinado evento, sempre se devia adiantá-la em alguns séculos, pois os chineses tinham a mania de dizer que tudo na China era muito antigo; do mesmo modo, porém, se o mesmo chinês dissesse que algo era relativamente recente, seria adequado, por cautela, jogar as datações para muitos séculos antes, pois na China as coisas sempre são mais antigas do que se imaginava...

Essa afirmação jocosa, na verdade, era causada pelo desconserto que a historiografia chinesa provocara nos estudiosos ocidentais. Acostumados a pensar que a Europa era a inventora das teorias históricas, os sinólogos ficaram absolutamente surpresos ao saber que a China tinha uma longa tradição nesse campo, utilizando metodologias e conceitos próprios. Desde o estabelecimento de missionários cristãos no país, depois do século 16, ficara evidente que seria impossível fazer qualquer tentativa de aproximação a essa cultura sem conhecer, devidamente, sua história e seus pensadores. Por outro lado, alguns dos procedimentos chineses para reconstruir sua história eram, basicamente, inaceitáveis para o ‘espírito positivo’ dos pensadores europeus.

Vimos que a escrita articula a conexão com o passado, e de como a história estrutura a continuidade da cultura; no entanto, não é estranho, aos mesmos chineses, admitir que o ‘passado’ já foi, e o que sobreviveu dele é o que está vivo, ainda, na cultura. Entenda-se: no imaginário chinês, os eventos já ocorreram. Eles nunca poderão ser reconstruídos plenamente. O que sobrou é uma ideia do que ocorreu, que serve de teoria, de modelo para comparação. Sabendo disso, pode-se admitir que é praticamente impossível reconstituir a história de forma completa; por outro lado, se dela temos alguma recordação, ela sobreviveu (como uma espécie de patrimônio imaterial) na memória – e o que sobreviveu dos eventos seria, assim, o seu essencial. Novamente, a história cai no esquema ‘passado-presente’: o que está presente, agora, se funda no passado, e só podemos conhecer o passado pelo que dele sobrou no presente. Obviamente, isso causava uma série de problemas aos historiadores chineses, principalmente em situações de crise.

Citemos um exemplo: quando os portugueses propuseram sua instalação em Macau, no século 16, os funcionários chineses enfrentaram uma acirrada discussão política interna, justamente pela falta de precedentes para esse pedido na história chinesa. Vasculhando os textos históricos anteriores, era possível encontrar evidências da presença de europeus na China (incluso os romanos!) como comerciantes, e ocasionalmente como missionários. No entanto, eles nunca haviam pedido para se fixarem no país, muito menos numa cidade relativamente autônoma das autoridades chinesas. Isso levantava uma série de questões para os chineses: tratavam-se dos ‘mesmos ocidentais’ da antiguidade? Isso implicava numa perda política para o império? Pedido similar já havia sido feito? Haviam comunidades religiosas instaladas no país, desde a antiguidade, que seguiam a lei básica imperial; seria o caso de aplicar a mesma noção? Nesses momentos, os historiadores reclamavam bastante da ausência de materiais sobre o passado. Essa era uma reclamação reincidente, que o próprio Confúcio já fazia desde sua época. Os chineses reconheciam a perda de vestígios e textos que pudessem aprofundar seu conhecimento sobre o passado – e consequentemente, sobre o presente.

Por causa disso, a historiografia chinesa desenvolveu uma prática que poderíamos considerar intrigante, e que talvez só encontre semelhança com a postura pós-modernista frente à história: a de que o passado é, de algum modo, uma ‘invenção’. Seria como afirmar que a história seria uma forma de literatura, uma ‘ficção científica’ sobre o passado, baseada nos conhecimentos de que se dispõe. Sendo assim, para ‘reconstruir’ um contexto, um evento ou a trajetória de um conceito, é necessário ‘imaginar’ – a partir dos dados disponíveis – seu surgimento, desenvolvimento e sobrevivência, articulando-o ao que, porventura, sobreviveu nos dias de hoje.

Mais uma vez, é inevitável pensar o quanto um chinês sente-se imerso em seu ‘passado’ quando simplesmente usa o tempo presente para justificar um modelo sobre o antigo. Do mesmo modo, a vida atual só pode ser entendida pela longa evolução da civilização desde a antiguidade, que justifica a durabilidade de suas instituições e práticas sociais. Creio que seria oportuno questionar, porém, se recentemente não temos chegado a conclusões semelhantes na historiografia ocidental. Afinal, a interdisciplinaridade tem proporcionado possibilidades extremamente ricas de cruzar os dados históricos de ciências absolutamente diferentes, como história, arqueologia, genética, etc. O quanto, pois, nossos modelos históricos também não foram baseados num longo exercício de imaginação criativa?

Conclusão

Retomemos Mao: ao examinar suas tentativas de reformar a sociedade chinesa, constatamos que ele simplesmente reproduziu um velho esquema. Ele gradualmente modificou os ideogramas, tentando atuar sobre a linguagem; queimou livros, perseguiu intelectuais, tentou apagar o passado e quis reescrever a história - o único meio, a seu ver, se construir uma nova cultura. Pretendeu ainda consolidar-se como um sábio, difundindo sua visão política e filosófica como uma forma de sabedoria. Ainda assim, foi inevitável que ele recorresse a um evento do passado, e nele se inspirasse, para alcançar seus propósitos de mudança. Mao, assim como muitos chineses, vivia nesse contínuo histórico, no qual as possíveis barreiras cronológicas são superadas por um outro senso histórico, capaz de rearticulá-las de um modo único. Isso lhes construiu uma ideia de permanência cultural absolutamente diferente daquela de conhecemos no Ocidente.

Estudar a China, pois, é uma necessidade ao pesquisador de ciências humanas. Indevidamente fora de nossos currículos, a civilização chinesa representa um desafio teórico e metodológico para nós. Precisamos ainda criar um modelo que possa explicar sua continuidade para a historiografia ocidental – e quem sabe ela sirva, talvez, de espelho para também compreender mecanismos culturais e antropológicos. A existência da China – e nisso poderíamos adicionar a Índia – são a prova cabal da importância da antiguidade na sobrevivência das civilizações, na construção de sua história e na formação de seu imaginário. A civilização chinesa não pode ser compreendida sem o estudo de seu passado, sob o risco de tornar-se incompreensível para o investigador contemporâneo. Grande parte das apostas sobre a China, feitas pelos especialistas atuais, tem sido frustradas por causa dessa ausência. Pois a China vive em um só tempo – o seu próprio – e é ele que devemos procurar compreender, se quisermos saber um pouco mais sobre uma das mais antigas civilizações ainda existentes.

Para Ler

Gostaria, antes de tudo, de convidar o leitor a conhecer o Projeto Orientalismo, no qual disponibilizo fontes e textos sobre História e Pensamento da China, Índia e Orientalismo em geral. A página principal, no qual vinculo meus textos, e que conta com uma rede de webgrafias é www.orientalismo.blogspot.com.br; para saber mais sobre a História da China Antiga, meu pequeno livro http://china-antiga.blogspot.com; uma apresentação mais geral e completa, feita a partir de textos chineses, pode ser vista em meu livro Mirações do Celeste, disponível em http://miracoes.blogspot.com; sugiro também meu livro Cem textos de História Chinesa, uma coletânea para compreender a China por suas fontes http://chinologia.blogspot.com; uma seleção das fontes chinesas antigas pode ser vista nessa página http://chines-classico.blogspot.com; por fim, uma apresentação geral da civilização chinesa pode ser encontrada aqui, na página China Imperial http://chinaimperial.blogspot.com.

Como sugestões bibliográficas, vão aqui alguns livros básicos, atualizados e razoavelmente fáceis de achar. Indico-os como introdução, e por estarem em português.
Blunden, C. & Elvin, M. China - Grandes Impérios e Civilizações. São Paulo: Folio, 2010. – um excelente manual histórico e geográfico da China, cobrindo o seu desenvolvimento histórico até os dias de hoje.
Cheng, A. História do pensamento chinês. Rio de Janeiro: Vozes, 2009 – indispensável manual de história da filosofia chinesa, realizado pela conceituada sinóloga franco-chinesa Anne Cheng.
Scarpari, M. China Antiga. São Paulo: Folio, 2009 – Belo e atualizado manual de história da China Antiga, com uma apresentação abrangente da arte e dos vestígios arqueológicos chineses.
Vandermeersch, L. e Mirabel, J. Sabedorias Chinesas. Lisboa: Instituto Piaget, 2003. – uma introdução geral a civilização chinesa, feita de modo agradável, para iniciantes e curiosos.
Duas sugestões de vídeo bastante interessantes e bem realizadas são:
China – Construindo impérios, em:http://www.youtube.com/watch?v=braJtcgS8TU






[1]Alguns sinólogos tentam insistir na ideia de que o Confucionismo poderia ser uma religião; novamente, é a imposição de um critério ocidental que se sobrepõe ao exame atento do Confucionismo. O Confucionismo é uma escola filosófica de sucesso, cuja durabilidade histórica desafia a nossa compreensão. Seria mais interessante, pois, examinar as razões do sucesso confucionista como filosofia, ao invés de se buscar, grosseiramente, classificá-lo e reduzi-lo como ‘religião’.

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