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As dificuldades da verdadeira Síntese


Disse Mêncio: “Ao estudar extensamente, e ao discutir minuciosamente o que estuda, o objetivo do Educado é capacitar-se para resumir e explicar com brevidade o essencial”.

A questão

Todo estudante preguiçoso, quando começa a escrever seus primeiros trabalhos, costuma afirmar que seus sucintos e toscos ensaios são curtos porque são 'muito sintéticos'. A ideia da síntese é usada como desculpa para um trabalho fraco e malfeito. Quando há pouco para dizer, também há pouco para escrever.

Os estudantes que evoluem, e aprofundam seus estudos, trocam a síntese pela loquacidade e pelo prolixismo. Gostam de redigir grandes volumes, parágrafos intermináveis, períodos longos. No desejo de esmiuçar, desdobram-se em aspectos diversos, que muitas vezes escapam do tema central. Com o intuito de afirmar uma ideia, repetem-na constantemente no texto, e reproduzem um nome ou uma assertiva que a complete tantas vezes quanto for necessário. É a vontade de estar certo e de provar um ponto de vista que justificam, assim, a produção de um extenso escrito, cujo peso supostamente manifesta, de forma física e palpável, uma pretensa quantidade de estudo.

Contudo, todo esse processo leva, por fim, à síntese. Na síntese se expressa o domínio das palavras e dos sentidos. A arte de dizer muito, com poucas palavras, denota uma compreensão profunda das coisas. Liu Zhiji 刘知几 dizia que o mais difícil, justamente, é atingir a síntese. Os escritos dos sábios são sucintos, e estimulam a reflexão. Confúcio 孔夫子 foi austero e econômico nas Primaveras e Outonos 春秋. As Conversas 论语 também são fragmentadas em aforismos breves e curtos; e Laozi 老子 fundou o daoísmo com apenas oitenta e um poemas. Os clássicos eram longos - mas Confúcio não os escreveu; a história escrita por Sima Qian 司马迁 está longe de ser pequena; e muitos outros escritores, desejando dar sentido aos sábios, usaram milhares de palavras para explicar algumas poucas. Portanto, esse é o problema: como escrever pouco, e dizer muito? Como fazer uma história sintética, moral e profunda, sem perder em informação e conteúdo?

A história de hoje pretende ser científica, e por isso preza sumamente as fontes. Longas teias narrativas são baseadas nas fontes, e as citações extraídas das mesmas abundam. Isso é importante: afinal, um autor não deveria sair por aí afirmando, dogmaticamente, que seus livros são válidos, e que se deve acreditar neles, apenas porque ele 'supostamente' sabe. Por outro lado, quem escolhe as fontes? Quem retira delas apenas o que lhe interessa? O desejo de referendar uma hipótese com provas é correto, mas não é perfeito. Nas humanidades, a manipulação das fontes é constante. Raro são os escritores que reformam seu espírito após ler as fontes. A coletânea de fragmentos que precede a redação do texto histórico é uma recolha pessoal. Ela é movida tanto pela ciência quanto pela paixão, pela vontade de comprovar uma hipótese pessoal.

A visão de Conjunto

A leitura das fontes dá a visão do conjunto a que somente o autor poderá acessar diretamente. Qualquer redação é a projeção de suas ideias sobre a leitura desse conjunto. Não há imparcialidade. Por isso, novamente a questão: são necessários textos enormes para recontar uma história da qual se 'sabe o fim' (ou, sobre a qual já se criou uma impressão)? O resumo de uma fonte já é, em si, uma apreciação crítica e sucinta de seu texto.

Isso ocorre porque as crônicas que se utilizam são, em geral, extensas e pesadas. É uma tradição histórica. Os livros se dedicam a milhares de detalhes, e muitos deles caem em discussões intermináveis sobre seus sentidos. Podemos perguntar se essa é uma reflexão importante ou vã. O debate sobre o superficial dificilmente leva ao profundo.

Os sábios escolhiam as palavras para que elas expressassem o que eles pretendiam: do contrário, lançavam o leitor na contemplação do problema apresentado, que necessitava do pensamento - e não do palavreado - para o seu discernimento.

É possível, pois, pensar uma escrita sintética para a história? É plausível uma síntese histórica, cuja reduzida quantidade de palavras corresponda a apropriada qualidade das ideias?

Quantas ideias?

As ideias, sentidos ou hipóteses da narrativa histórica podem ser reduzidas, quase sempre, a um número limitado de proposições. Se elas podem resumir o que será detalhado e analisado, porque a própria análise (o discernimento, o 'dissecamento') deve ser tão maior que a afirmação inicial? A 'não-análise' torna uma hipótese, automaticamente, num dogma - o que não é o ideal em história; por outro lado, muitas vezes o aprofundamento de uma hipótese visa torná-la uma 'verdade' - por conseguinte, um 'quase-dogma'. Não será função do ensaio histórico ser mais propositivo do que afirmativo?

Por isso, um ensaio adequado deveria propor as ideias para a reflexão, deixando-as em aberto, com as indicações de prova, abrindo um caminho para a reflexão. Se a história não for para refletir, para que servirá ela então? Disse Hong Yingming 洪應明: 'deixe as coisas em aberto, para que sejam continuadas'. Fechar uma análise histórica é dogmatizá-la. Então, talvez, é melhor que a deixe ligeiramente em aberto, flexível, pronta a crítica. Pois, o ensaio histórico é um olhar sobre um momento, um evento, sobre algo que foi. Como tal, será sempre passível de mudança e contestação.

Quantas palavras?

Se as ideias à serem propostas não devem ser muitas, do mesmo modo, as palavras devem buscar expressá-las do modo mais direto possível. Confúcio falava de 'retificar os nomes', e de atrelar sentidos específicos às palavras. É claro que Confúcio não apreciava polissemias. Quando evitava explicar o Ren 仁, talvez não quisesse usar muitas palavras, abrindo margem a ponderação e a dúvida. Hanyu 韩愈, porém, explicou o Ren em poucas palavras. Hanyu estaria errado?

Confúcio escreveu as Primaveras e Outonos com frases lacônicas, e suas palavras já diziam tudo; mas foram necessários três comentários para explicá-los, dada a distância temporal e histórica que os afastava dos sentidos originais. Muitos séculos depois, Sima Guang 司马光 escreveu o Espelho Completo para o Governo [资治通鉴, Zizhi Tongjian] para explicar e criticar o as já longas Recordações Históricas de Sima Qian. Zhuxi 朱熹, no Esboços e Apontamentos do Espelho Completo [通鑒綱目, Tongjian Gangmu], dedicou-se à dar sua visão dessas mesmas coisas, estendendo sua análise para outras épocas, mas criticando Sima Guang e empregando o método de Confúcio, das Primaveras e Outonos, para realizar sua obra. Estavam eles errados, ou apenas interpretando uma ideia?

Ao fim, todo esse processo mostra que a raiz era Confúcio, que disse muito pouco; os que se seguiram, tentaram explicá-lo; e hoje, escrevem-se milhares de páginas para compreendê-los.

Parece-me, pois, que quanto mais distantes no tempo, mais longe ficamos dos sentidos. O que nos aproximaria deles? A interpretação secundária ou a leitura direta do original? Talvez, seja a reflexão que nos transporte ao contexto, ou a ideia central. É a imaginação - tão cara aos chineses, e tão necessária à construção da história. Tal 'imaginar' só pode advir da reflexão fundada na leitura da fonte; do contrário, tornamos um hábito emprestar conceitos dos intérpretes, e acabamos repetindo-os, sem pensar por nós mesmos. Por isso, é crucial ler o original. Assim, fazemos o 'caminho contrário', e acessamos os princípios contidos nos textos.

Quando isso ocorre, temos a mesma sensação de quando um jovem estudante aborda o mestre, ou um filho pequeno aborda os pais, com uma daquelas perguntas para a qual já sabemos a resposta. No entanto, foram necessários tantos anos de experiência para saber as respostas, que precisaríamos de milhares de palavras para explicá-las - e tal esforço pode redundar inútil. Então, o que fazemos? Indicamos o caminho, e respondemos com a simplicidade mais direta, sintética e autêntica possível à questão. Ele deverá seguir o trajeto - o aprendizado, o estudo e a reflexão - para encontrar-se com a resposta. Não é o mesmo roteiro que seguimos?

Será a escrita da história o mesmo?

Quem sabe repetir um parágrafo inteiro, de cor, de um livro erudito? Uma poesia ou uma música são muito mais eficazes nesse sentido. Com poucas ideias, e poucas palavras, elas lançam à reflexão. Não deveria a narrativa histórica, então, fazer o mesmo? Reduzir, sintetizar, propor e deixar refletir?

Tomemos os contos e as piadas; o que elas conseguem, que as escritas maiores não alcançam? O que é grande, é difícil de apreender no todo. Nos contos e anedotas, os detalhes da narrativa revelam o conjunto, e lançam à compreensão do sentido. A narrativa curta e as poucas palavras tornam-na de fácil apreensão. Não serão elas bons modelos, se soubermos utilizá-las?

Liu Xiang 刘向 escreveu pequenas narrativas sobre sua época, e sobre o período dos Estados Combatentes. Faltou-lhe precisar o contexto. Contudo, ele captou tão bem o sentido dos acontecimentos, que foi equiparado a Sima Qian. Para alguns, é irritante pensar o quanto se pode contestar os vastos escritos das Recordações Históricas (史记 Shiji) a partir do Jardim das Histórias (说苑 Shuoyuan) ou das Anedotas dos Estados Combatentes (战国策 Zhanguoce).

Por essa razão é que os sábios são bem humorados. Falam pouco, dizem muito, e o que dizem faz rir, pensar, chorar ou refletir, marcando seus ouvintes.

Mas um bom historiador deveria se perguntar: porque as pessoas preferem as narrativas mais simples, ao invés das mais complexas? Este é um bom exemplo sobre como a economia na narrativa, se bem feita, é capaz de prender a atenção do leitor. Não se trata apenas de chamá-lo; é de como, ao sintetizar as ideias e palavras, prendemo-lhes a atenção ao sentido.

O sentido da proposta

Por esta razão, a proposta desse ensaio é, justamente, sobre a arte de escrever ensaios históricos e filosóficos. A prolixidade parece a régua da prova, mas não é: palavras amontoadas só 'provam' pelo cansaço. Um bom ensaio pode ser sucinto e direto. Pode-se perguntar se isso não desmereceria as grandes coletâneas de informações, ou as enciclopédias do saber. Contudo, as coisas devem ser colocadas em seus devidos lugares; fontes de informação são as mesmas fontes de reflexão? Voltamos ao início desse ensaio; palavras demais não levam à reflexão. As coletâneas de informação são fundamentais; mas sem a síntese, elas são como grandes dicionários de palavras não consultados. A síntese dá-lhes sentido, e encaminha à reflexão. Todo o autor é, portanto, um tradutor de um tema. De sua habilidade e profundidade, decorre a paixão dos que o seguem.

Por uma conclusão

Um ensaio sobre síntese que não fosse sintético seria uma contradição. Por isso, devemos pensar no quanto escrevemos para propor algo de fato. Se compreendemos que alcançamos um sentido - e é isso que desejamos expressar - não nos resta muito senão informar, dizer, e deixar refletir. Um ensaio sobre síntese deve ser sintético o suficiente para dizer o necessário e se fazer compreender. Quem entendê-lo, captou o sentido. Quem não, precisa estudar mais.

Como disse Confúcio: um sábio não maltrata nem as pessoas, nem as palavras.

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