Pesquisar este blog

Uma reflexão Histórica sobre o Presente



O livro das Primaveras e Outonos (Chunqiu春秋), de Confúcio, recebeu na antiguidade três comentários diferentes (Zuo zhuan 左傳, Guliang zhuan 穀梁傳 e o Gongyang zhuan 公羊傳) que buscavam elucidar suas passagens. Um deles, o Gongyang Zhuan, é atribuído a Gongyang Gao 公羊高, aluno de Zixia子夏, um dos discípulos diretos do Mestre. Durante a Dinastia Han 漢, o Gongyang dispunha de certo prestígio, e era o preferido, para a interpretação das Primaveras e Outonos, por autores importantes como Dong Zhongshu董仲舒 e Hexiu 何休. Hexiu nos legou uma interessante teoria no comentário sobre o ‘Ano 1 do reinado do Duque Yin de Lu’. Ele propunha que a história se dividia basicamente em três eras: a era do ‘ouvi dizer’, a era do ‘eu ouvi’ e a era do ‘eu vi’. Hexiu tomava por base a vida de Confúcio para estabelecer a evolução da história, e a fundação do confucionismo – na época, a doutrina oficial do império – como o elemento fundamental do resgate social que o período Han vivia. Para os chineses, a história era a base da ética (‘cultura’ ou ‘ritos’), e o seu entendimento - segundo Hexiu - servia diretamente ao ajuste social: "Em épocas em que a bondade está em declínio, e a justiça está desaparecendo, [essa regra] pode ser usada para ordenar as relações humanas e classificar os diferentes tipos de pessoas. Com base nela, podemos administrar as leis, que vão criar ordem a partir do caos".

E no que consistia a teoria de Hexiu? Para ele, quanto mais distantes estamos do tempo, menos sabemos sobre ele. Sobre as eras mais antigas, muita coisa é duvidosa. Sabe-se que eram épocas mais difíceis, mas nelas foram fincadas as raízes da mudança. É a era do ‘ouvi dizer’. É a época dos parentes e ancestrais com ao quais não mantivemos contato direto. Por isso, a segunda época, ‘eu ouvi’, é aquela em que nos aproximamos daqueles que viveram o contexto anterior ao nosso, e podemos escutar diretamente deles seus testemunhos sobre o passado. Por fim, a época ‘eu vi’ é aquela em que nós mesmos testemunhamos a história, a escrevemos, e a legamos para a posteridade. Na visão de Hexiu, a era ‘eu vi’ havia se iniciado com Confúcio, o grande reformador da sociedade. Por essa razão, ele acreditava que o período de vida de Confúcio fora o início dos tempos bons, que culminariam com a dinastia Han.

Do ponto de vista de Hexiu, a dinastia Han era o melhor momento que a China vivera em sua história. De fato, isso se projetou sobre o imaginário chinês de tal maneira que, ainda hoje, etnia chinesa se autodenomina Han em homenagem a esses tempos antigos. Todavia, a teoria de Hexiu também estabelece um paradoxo interessante para a análise histórica: se o testemunho direto for o melhor tipo de vivência histórica, como interpretar o conflito de gerações, dentro de uma sociedade, em relação a construção do conhecimento histórico?

Permito tomar-me como exemplo: tive oportunidade de assistir, diretamente, alguns grandes eventos da história, tais como a Queda do Muro de Berlim ou o episódio da Praça da Paz Celestial. Vivi numa época em que se comprava um chiclete com um ‘barão’ (nota de mil cruzeiros), pois a economia vivia um caos semelhante ao da segunda guerra mundial – mas sem guerra. Pois bem, ‘eu vi’. Meu testemunho, a princípio, se qualifica como sendo direto, e ‘superior’ ao de muitas informações secundárias. Contudo, me espanto que as novas gerações não apenas desconheçam o passado, mas se recusem a acreditar que tais coisas podem ter acontecido. Elas não costumam dar grande importância a tais eventos fundadores, menosprezando-os. Mais: quando elas se põem a comentar sobre o passado, por meio de textos virtuais ou informações duvidosas, elas sobrepõem o depoimento de quem viveu (‘eu ouvi’) e colocam o ‘eu ouvi dizer’ como se fosse superior nessa escala de importância!

Assim, pois, elas estabelecem uma associação lógica curiosa: se ‘eu vi’ é o mais importante, ela toma o ‘eu vi’ como sendo seu. Elas recusam as pessoas que ‘viram’ de fato, e entendem que o seu ‘ouvi dizer’ ou ‘eu ouvi’ as qualificam como ‘tendo visto’ o passado – mesmo que isso implique em desqualificar o testemunho daqueles que realmente viram! Já explorei essa contradição em outro texto meu, A ampulheta quebrada. Notem que minha preocupação não é execrar a juventude em si: conflitos entre gerações, aparentemente, existem de longa data. Eu mesmo já fui jovem, e me pus contra os dogmas de gerações anteriores. No entanto, me parece que até a década de oitenta, havia uma importância em rediscutir a história, em reescrevê-la a partir de ‘novos’ testemunhos (isto é, dar voz a fontes anteriormente desprezadas ou segregadas). A liquidez pós-moderna, que dissolveu o espectro da valoração da cultura e da sociedade (como afirmou Bauman), lançou o Brasil – nesse caso específico – a um processo de obscurantismo intelectual, que promove uma total dissociação entre o sentido histórico e a vivência cotidiana em si.

Senão vejamos: se fossemos aplicar a teoria de Hexiu ao nosso país, poderíamos afirmar que, no caso, econômico, o atual estágio realmente é bem superior ao do passado. Mas quem pode constatar isso? Aqueles que ‘ouviram dizer’, aqueles que ‘ouviram’ e que agora ‘vêem’. Contudo, a geração mais recente refuta o passado, em função da pujança econômica do presente. Ignorante sobre as terríveis crises pelas quais o país já passou, ela se entrega a um imediatismo perigoso, que desconhece as raízes históricas dos problemas sociais e políticos. Como afirmamos antes, o ‘eu vi’ atual se transforma numa pretensa autoridade histórica, que se sobrepõe a todas as outras épocas. A geração de agora se afirma por uma desconexão com a história, caracterizando uma ‘nova era’ de bem estar que nunca antes teria existido. Até aqui, parece que ela continua concordando com Hexiu. Mas quando precisa justificar-se, quando precisa discutir fundamentos, ela se ampara numa leitura amplamente superficial do passado, recheadas de erros e imprecisões, cujas contradições eles mesmo não se apercebem. A retomada pontual de ícones musicais e culturais, das décadas anteriores, evidencia isso: deslocados de seu contexto histórico, seus produtos artísticos são consumidos e rapidamente descartados. A preponderância econômica torna-se, assim, um péssimo guia da história, e o porteiro o desastre social.

Meu questionamento, portanto, é se a teoria de Hexiu não é também qualitativa. Será que uma pessoa pode ‘ver’, ou afirmar ‘eu vi’, se ela não ‘ouviu dizer’ e nem mesmo ‘ouviu’? Ou seja: que autoridade moral ou social alguém pode construir para si baseado, somente, na pujança econômica? Explico: há civilizações (como a brasileira, notadamente) que se fundamentam na ideia de que a economia é a base da autoridade cultural. Concordo que a economia influencia bastante o ponto de vista cultural; mas discordo completamente de que ela é decisiva. Cito exemplos: ciosos de sua história e identidade cultural, o Vietnã conseguiu derrotar os Estados Unidos, e o Afeganistão fez o mesmo com a União Soviética. A Índia fez a única independência pacífica do mundo, com Gandhi. Economicamente, esses países viviam em total atraso, graças ao período pós-colonial. Qual era sua força? A cultura, a sua história, sua identidade.

Se essa afirmação parece, dogmática, devemos então inverter nosso padrão de comparação. Se a economia for a base de um fortalecimento cultural, por conseguinte, o Brasil deveria estar construindo uma percepção social e histórica bastante distinta do seu passado. A sociedade deveria estar evoluindo como um todo, se capacitando intelectualmente e moralmente, correto? Não, errado! Quem acompanhar as notícias cotidianas, perceberá que, apesar do Brasil estar rico como nunca, ele está com indicadores sociais e educacionais cada vez piores. Um em cada cinco jovens brasileiros pertence a geração ‘nem-nem’: não quer nem estudar, nem trabalhar. Isso pode ser conferido, a título de ilustração, nas reportagens do Jornal o Globo (link) e Estadão (link). O que essa geração ‘vê’, que não consegue então nem enxergar o passado (os tempos difíceis) e nem o futuro – a possibilidade de crise, a necessidade de trabalho, a exclusão mercadológica? Me ocorre agora, também, a lembrança de uma reportagem que passou na tevê, sobre um casal de brasileiros que foram morar na China, e que admitiam, diante do repórter brasileiro, que suas crianças não estavam se adaptando bem ao país. ‘A escola pública aqui é muito rígida, disciplinadora, exige muito nos estudos e no comportamento. Passa muito dever de casa. Por isso tirei meus filhos de lá e coloquei numa escola particular, onde eles podem brincar mais, se divertir, sem ter muitas obrigações’. O tom era esse. Esse é um testemunho claro de alguém que ‘não vê’.

Essa reflexão me leva a crer que Hexiu estava propondo um sentido histórico baseado numa ‘evolução’. Partindo do princípio que havia preservação cultural, e transmissão de conhecimentos, a continuidade estava garantida, e o presente seria sempre melhor que o passado. Isso engloba, porém, um amplo conjunto de coisas – inclusive, a noção de história. Sem isso, pois, como se poderá ‘ouvir falar’, ‘ouvir’ e ‘ver’? A ausência da construção de um sentido de continuidade é um caminho para o acidente numa sociedade. Isso, o próprio estudo da história já demonstrou várias vezes. Então, o que falta para nós, brasileiros, aprendermos isso?
O Mestre estava em Chen. Ele disse: 'vamos voltar pra casa. A juventude está cheia de vontade e talento, mas está sendo desperdiçada'. [Conversas论语 ]

Nenhum comentário:

Postar um comentário