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Confúcio, Professor de Música



Confúcio era um professor de música, tanto quanto era filósofo. Ele afirmou: ‘um ‘Educado’ começa nos ritos, se aprimora na poesia e se completa na música’. É quando alguém aprende a versar sobre a prosa que começa a dominar a linguagem; e quando versa, sintetiza a mensagem como sonoridade e eficácia, fortalecendo sua memorização. Afinal, ninguém consegue guardar um texto de prosa, mas uma poesia é muito mais fácil. Que dizer da música, então, cujo significado ‘brota do coração humano’, como dizia o mestre? Ela é completa, a ponto de ser capaz de despertar os sentimentos e imagens mesmo sem ter uma letra – e aliar ambas necessita uma habilidade ímpar. Confúcio sabia bem isso, e por essa razão tornou-se um professor de música.

O mestre sempre é identificado carregando algum instrumento musical. Em sua biografia nos ‘Registros Históricos’ de Sima Qian, Confúcio dedica anos ao estudo da música, e alcança um nível profundo de entendimento. Nas ‘Conversas’, também se diz que numa ocasião ele ouviu uma música que o tocou tão profundamente que ficou três dias sem comer direito. Ele acreditava definitivamente que a música mostrava o caráter das pessoas e das sociedades.

A teoria musical de Confúcio, de que a música é uma expressão do íntimo, acaba significando – se analisarmos mais atentamente – que a harmonia ou desarmonia musical se fundam e repercutem na mente humana. Músicas simples tocam pessoas simples; músicas complexas, pessoas complexas; músicas vulgares, pessoas vulgares, e assim por diante. Parece banal, mas não é: o gosto é apenas a manifestação final, e superficial, do entendimento da música. Um músico autêntico – diferente do ‘profissional’, do ‘mercenário tocador’ ou do cão treinado em truques – é capaz de reconhecer e respeitar músicas bem produzidas e/ou escritas, ainda que não as aprecie diretamente. Ele compreende o que um compositor/cantor deseja expressar – uma história, uma idéia, uma cultura.

Tais coisas, porém, podem ser compreendidas por quem minimamente aprecia a música e desenvolveu o hábito de escutá-la costumeiramente. Com sensibilidade, esse ouvinte qualificado pode quase compreender o mesmo que o músico sabe, desde que o faça com ponderação e contemplação. Então, qual a preocupação de Confúcio em explorar e discorrer tanto sobre a música?


Novamente, por causa dos que não sabem – mas que querem aprender, os buscadores – e dos ignorantes. Os parvos sim, a ‘gente pequena’ – que Confúcio, já nessa época, alcunhava assim por conta de sua pequenez intelectual, sua estreiteza de visão – parece que desde sempre trabalha apenas para estragar o que é sublime (embora isso faça o sublime ainda mais sublime). Neste mundo em que a sabedoria passa por estupidez, e a esperteza por conhecimento, dois tipos de pessoas desprezam a musicalidade como caminho para a sabedoria:

- Os mais limitados simplesmente consomem a música, sem desenvolver qualquer tipo de gosto ou predileção, posto que não compreendem a musicalidade. Escutam músicas sem qualquer padrão de estilo, volume ou respeito. Apenas se projetam no desfrute da música, sem acessar-lhe a profundidade – e nem podem, pois as músicas que mais gostam são tão superficiais quanto eles. Escutam apenas o que é da moda. Dali um ano já escutarão outras coisas. Sua capacidade de perceber a música como um fenômeno particular e pessoal é nula – e não se limitando as apresentações de seus temas e conjuntos preferidos, extrapolam por absoluto as noções de pessoalidade e privacidade, obrigando a todos a compartilhar de suas incompreensões. No entanto, são maioria – e por isso, a etiqueta e cortesia passam longe. Não se pode, afinal, cobrar educação de quem não é educado.

- Todavia, mesmo um ignorante pode estudar e aprender. O problema mesmo é o segundo tipo de ignorante, aquele que ‘estuda’, mas não aprende. São pessoas estranhas: eles não desfrutam da música, apenas a vêem como um ‘objeto intelectual’, que não compreendem. Às vezes, alguns são músicos limitados, embora isso passe despercebido pelo primeiro gênero de gente ‘não-musical’. No entanto, no geral eles não gostam de música, reclamam que ela atrapalha os estudos, o trabalho, e tudo mais. Não se vê, e nem se sabe, em que momento eles escutam músicas, nem se sabe o que apreciam. Quando dão uma pista, se comunicam por meio de um clichê qualquer – uma música considerada intelectual, ou um ‘gênero popular sem ser vulgar’ que não ajuda em nada a captar suas intenções. Para ele, a música – como qualquer outra forma de arte ou estudo – é apenas um meio pra um determinado fim particular e obscuro. É um acessório para uma demonstração vazia de saber, cujo conteúdo vago é ilustrado por uma aparência de sabedoria ou beleza que não se firma diante de um olhar mais crítico. Essas pessoas, na verdade, odeiam música; não sabem e nem podem apreciá-las, pois qualquer coisa que lhes escapa a compreensão e manipulação é objeto de um ódio íntimo, ressentido e frustrado. Mas para chamarem a atenção, sabem espancar um violão, massacrar um teclado e discutir música.

A música é, assim, um dos caminhos para a sabedoria que depende, talvez, mais da fruição e sensibilidade do que da reação obstinada do intelecto, que tente aprisioná-la em visões restritivas de mundo e de humanidade.

Confúcio já dizia: ‘existem pessoas que provam, mas não sabem o sabor’. O ignorante pode encontrar na música o despertar que depende, antes de tudo, de uma entrega íntima, sem receios ou temores. Ao invés de repetir as batidas rítmicas que simplesmente lidam com seu corpo, ele precisa deixar fluir o sabor das notas. Em qualquer gênero musical existem bons e maus músicos. A descoberta é um passo para a auto-realização.

Por isso, em meio a uma de suas muitas peregrinações, quando passava fome com seus discípulos, Confúcio simplesmente se sentou e começou a tocar: e até os estômagos pararam de roncar para ouvir.

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