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Universidade Bonsai


Para aqueles que entendem um pouco sobre cultura asiática, o Bonsai – a árvore em miniatura – é um presente lindo e fantástico. O Bonsai surgiu na China (onde originalmente era chamado de ‘penjing’ ou ‘punsai’), e significa literalmente ‘árvore no vaso’. Alcançou, porém, um grande sucesso pela divulgação realizada pelos japoneses ao redor do mundo – era um das técnicas mais almejadas da chamada Ikebana, ou ‘arte do arranjo floral’. O Bonsai é uma miniatura de árvore, feita basicamente de duas formas; pela deformação controlada de uma árvore real, cujas limitações físicas impostas terminam por reduzir suas dimensões; ou pela transformação estilística de um outro tipo de planta em uma suposta árvore anã, com cortes de folhagens e caracterizações no caule que criem a aparência de árvore deformada, como no primeiro caso.

O punsai, que deu origem ao bonsai, surgiu na China em função de duas circunstâncias – uma histórica e outra filosófica – que determinaram o caráter dessa arte. Durante o período Tang, o grande crescimento urbano levou a redução dos espaços para jardins e quintas dentro das cidades. Como disse o grande sinólogo Ricardo Joppert:
A China tendo atingido uma fase de urbanismo, houve necessidade de transferir atmosfera rural para as cidades. Como conseqüência, foi à recriação do macrocosmo no microcosmo, o mundo em escala reduzida num vaso de planta. Naquela época houve um urbanismo que obrigou os chineses a terem jardins em miniatura, uma vez que eles não podiam ter grandes propriedades. (http://bonsaistudio.wordpress.com/entrevista-ao-presidente-da-sbbo-claudio-ratto/entrevisata-de-claudio-ratto-ao-sinologo-riccardo-joppert/ )
A arte da jardinagem chinesa, que buscava a criação de paraísos artificiais e em miniatura, desenvolveu-se assim dentro de uma perspectiva filosófica cujo objetivo era, como bem observado por Joppert, representar, em escala microcósmica uma visão macrocósmica do mundo. Ou seja, isso implicava em transformar um reduzido espaço numa miniatura de mundo, com pequenas pontes e pavilhões, fontes, arranjos de plantas, espaços planejados, caramanchões, etc. (veja aqui algumas fotos http://depts.washington.edu/chinaciv/home/3garintr.htm). O punsai surgiu disso. A necessidade de acondicionar as planas em vasos, de criar miniaturas para altares ou maquetes de vilas, levou ao desenvolvimento das técnicas de miniaturização. Ao ser levada para o Japão, essa arte ganhou um caráter próprio, servindo a criação de peças únicas, muita vezes usada, inclusive, na decoração de interiores.

O bonsai, portanto, carrega consigo milênios de experiências estéticas, que se conjugam na criação de uma obra de arte – e por isso mesmo, um presente de alto valor simbólico.

No entanto, para se fazer um bonsai, como vimos, dois procedimentos são utilizados: o primeiro, consiste em podar a árvore desde a idade mais tenra, amputando-lhe os pedaços e amarrando os galhos de modo que ela não possa crescer. A limitação calculada de terra, espaço e nutrientes impede seu crescimento normal, e atrofia-lhe irreversivelmente. Muitas vezes, ela ainda é submetida a tratamentos severos para ganhar uma aparência de antiguidade antes de tempo normal. O segundo método é tão interventor quanto o anterior: uma planta apropriadamente escolhida, de caule grosso e folhagem frondosa, é amputada de forma a que seus ramos pareçam galhos e seu corpo, danificado e causticamente tratado de modo calculado, transforme-se e ganhe aparência de tronco. Inevitavelmente, em ambos os casos, o resultado pode ser magnífico: contudo, essas árvores nunca irão crescer. Além disso, sua fragilização diminui drasticamente sua saúde, e elas tornam-se extremamente sensíveis e dependentes de um cuidado atencioso – sem o que, suas chances de vida são diminuídas drasticamente.

Ao refletir sobre isso, percebi o quanto os chineses e japoneses estavam corretos em imaginar o bonsai como uma representação da realidade – mas não pelo motivo estético, e sim, pela analogia. A universidade no Brasil, hoje, se dedica a formar alunos bonsai.

São alunos podados, orientados desde o início a serem pequenos e limitados. Amarrados a um orientador, e a sua linha de estudo sufocante, eles são amputados (e mesmo, se amputam) – muitas vezes de modos que ultrapassam os limites éticos – a uma promessa de ‘beleza’ enganosa, a uma formação medíocre que não lhes permite a sobrevida. Eles são iludidos de que sem a orientação do ‘jardineiro fiel’, seu mestre, eles não poderão crescer; e no entanto, de fato, o que ocorre é que nunca crescem, pois toda sua criatividade e imaginação são violentadas e chantageadas, sob a promessa de se tornarem grandiosos. No entanto, tudo que alcançam é a limitação; sua beleza é artificial; seu conhecimento é frágil, muitas vezes incapaz de sobreviver às dúvidas; seus objetivos são limitados e canhestros; não são originais, nem mesmo realizados; são, como dizia Fernando Pessoa, “aquilo que falharam ser”. Alguns ainda são como no segundo tipo de bonsai; disfarçam-se, mas são incapazes de ser a si mesmos (uma planta) como não são, também, uma árvore em potencial. Apenas buscam o brilho por empréstimo, o sucesso por estarem associados com alguém que julgam importantes.

Os orientadores de bonsai, em nosso país, têm feito muito disso: eles têm destruído gerações inteiras de boas árvores para criarem miniaturas monstruosas de si mesmos, destruindo-lhes o futuro e a capacidade de serem por si mesmos. Suas belezas são emprestadas e falsas, sua autonomia é nula, sua produtividade é pífia, e a vida que neles residia morre, ou sobrevive no eterno coma da dependência. A perversidade do sistema envolve, igualmente, os estudantes; alguns deles, inspirados na malévola ideologia do jeitinho e da esperteza, acreditam que podem se ‘dar bem’ fazendo o jogo de seus orientadores-jardineiros-boçais (perdão, bonsais) – e a complacência para com a leviandade é a consolidação do errado, e a reprodução de uma tragédia histórica de burrice e alienação.

Sim, olho para os educadores de hoje e não vejo neles arquitetos do futuro, ou médicos de alma, muito menos sábios: vejo pessoas ignorantes e frustradas, cujo egoísmo e a ânsia de poder os transformam em fazedores de bonsai – sem que compreendam, porém, que o bonsai é parte de um jardim vivo e de um cuidado atento. Eles atrofiam os seus jardins até a quase inexistência de vida: e descartam seus bonsais doentes e enfraquecidos quando esses não são úteis, substituindo por outros.

Por essa razão, milhares de estudantes hoje saem das faculdades sem a mínima idéia do que vão fazer. A promessa de frutificarem não se cumpre, porque são bonsais: limitados, atrofiados e frágeis. Quando penso nisso, me obrigo a separar os bonsais como obra de arte dos que são os alunos universitários – caso contrário, eu não poderia mais gostar de bonsais. Compreender os bonsais é o contrário disso: é tentar captar na miniatura o potencial de grandeza que existe na vida. Contudo, se essa reflexão transformou-se numa analogia que dirige todo o texto, é porque não pude resistir à idéia de que hoje milhares de alunos estão sendo destruídos pelos desejos vis de posição, fama, e riqueza de seus orientadores e gestores. O desejo de singularizar-se se confunde facilmente com a mediocridade, e não com o orgulho dignificante daquele que é autônomo e pensa por si próprio. Confunde-se o pequeno com o obtuso; se confunde o grande com o rico. São raros os formadores, no sentido de ensinarem os alunos a conquistarem por si próprios seus sucessos. A dependência é a cantilena do falso sucesso, e o caminho mais rápido para o fracasso e a decepção. Ser pequeno acaba se tornando o aparente possível, e o belo ideal; mas no fundo, é o escopo da mediocridade, a desculpa para o abandono do conhecimento individual e por fim, o grande engano destruidor de sonhos e esperanças. É a grande desilusão que toma os alunos no fim da graduação, e que em breve se transforma em angústia: sem proteção e cuidado, quem pode sobreviver? A promessa de sucesso não se realiza, e a suposta ‘beleza’ do fiel orientando não é reconhecida – simplesmente porque não existe.

Adoro bonsais, como obras artísticas e filosóficas; mas fiquei pensando que, se meus alunos devessem ser algum tipo de planta, qual seria? Pois alunos não são plantas; mas se o ideal do Ocidente é criar boas ovelhas para um pastor que, no final, irá sacrificá-las, prefiro então o ideal do jardineiro chinês, que expõe suas plantas a adversidade, mas que espera e deseja que elas cresçam sozinhas.

Porque transformar alunos em bonsais é um crime, embora muitos dos meus pares considerem isso ‘normal’. Miniaturizá-los seria podar-lhes as chances de crescer no futuro, e isso eu não desejo de modo algum. Atrelar-lhes aos meus cuidados, sem que eles aprendessem a ser independentes, seria vedar-lhes a autonomia e fazê-los fracassar pelo meu egoísmo. Não, não quero alunos bonsai; como também não desejo alunos flores, que são lindos, mas efêmeros e frágeis. Não desejo que meus alunos sejam trigo, que para alimentar aos outros, precisam se sacrificar sem redenção ou proveito. Pode parecer que seria normal desejar – tal como num clichê – que meus alunos fossem árvores, fortes, frondosas e cheias de frutos: mas árvores levam pedradas para que se roubem seus frutos, são maltratadas pelos ignorantes que não lhe vêem a beleza e apesar de serem grandiosas e seculares, são pouco flexíveis e continuamente exploradas. Então, imaginei que devo educar meus alunos para serem como os cactos. Eles são espinhosos por fora, mas doces por dentro. Ninguém lhes explora facilmente, pois eles podem se defender; resistem à adversidade, são criados no extremo das temperaturas e das condições de solo, e por isso mesmo adaptam-se muito bem a vários climas diferentes. Cactos dão flores lindas, e nem por isso perecem facilmente. Por fim, o cacto não é egoísta; ele dá água ao sedento que lhe perfura a pele (e no caso do agave, um sumo fantástico que, se destilado, vira a famosa tequila), e possui tantos usos alimentares, medicinais e práticos como algumas das árvores mais bem conceituadas que conhecemos.

Mas no fim, todas essas comparações, cheias de pontos discutíveis, servem para dar aqui, unicamente, uma mensagem tão simples quanto às constatações feitas ao longo desse texto: que alunos demais se perdem pelas pequenezas de seus ‘orientadores’, e se torna quase impossível manter a dignidade da carreira docente se são estes justamente os primeiros a dar o exemplo errado e a diminuir, de modo aviltante, a sua própria condição, transformando o futuro num jardim de árvores nanicas e improdutivas. A universidade perde seu sentido de ‘universal’ para tornar-se, aviltantemente, na versão única de um saber – uma ‘uni-versão’, que tem se decidido por excluir a Diversidade de visões. Que frutos pode se esperar disso? No entanto, o humanismo é um otimismo; e é a crença de uns poucos mestres, sustentados pelo idealismo envolvido e consciente de seus poucos discípulos, que sustenta a continuidade e a evolução do mundo da mutação.

Os antigos, que desejavam dar exemplo da virtude ilustre em seu reino, começaram por bem ordenar seus próprios Estados. Desejando ordenar bem seus Estados ordenaram primeiro suas famílias. Desejando ordenar suas famílias, cultivaram antes suas pessoas. Desejando cultivar suas pessoas, primeiro corrigiram seus corações. Desejando corrigir seus corações, primeiro trataram de ser sinceros em seus pensamentos. Desejando ser sinceros em seus pensamentos, primeiro ampliaram ao máximo o seu conhecimento. Essa extensão do conhecimento baseia-se na investigação das coisas.

Uma vez investigadas as coisas, seu conhecimento tornou-se completo. Sendo completo seu conhecimento, seus pensamentos foram sinceros. Sinceros que foram seus pensamentos, seus corações corrigiram-se. Corrigidos os corações, suas pessoas foram cultivadas. Cultivadas que foram suas pessoas, ordenaram-se-lhes as famílias. Ordenadas suas famílias, foram justamente ordenados seus Estados. Justamente governados seus Estados, todo o reino viveu tranqüilo e foi feliz.

Desde o Filho do Céu até a massa do povo, todos devem considerar o cultivo da pessoa como a raiz de todas as outras coisas.
Daxue

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