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Que Diversidade Cultural?


A questão é do fim de 2010, mas continua se arrastando na China: deve-se construir uma igreja cristã perto do templo de Confúcio, em Qufu?* Mesmo não sendo novo, o problema tem o espaço de um ano, o que nos permite algumas reflexões sobre ele.

O ‘templo de Confúcio’ é, na verdade, um complexo de casas e salões que foram sendo construídos pelos seus descendentes, ao longo de milênios, em torno da tumba do sábio Confúcio (551-479), localizada na sua terra natal, Qufu, antigo estado de Lu, hoje situada na província de Shandong. A cidade não chega a cem mil habitantes, e sua principal atração turística é, justamente, o complexo confucionista. Curiosamente, no entanto, ela ganhou um ar de diversidade cultural ao longo da história, que se manifesta na existência de pequenos santuários daoístas, um templo budista (que têm fiéis, mas não tinha um monge responsável até a escrita desse texto), um bairro islâmico e ainda, uma crescente comunidade cristã. Em setembro de 2010, a cidade ainda abrigou o seu primeiro fórum mundial de diversidade e diálogo cultural, um evento internacional que contou com renomados especialistas de vários países; a escolha fazia parte da estratégia do governo chinês em restaurar o papel do confucionismo como sua principal linha intelectual e ética para a modernidade, após as pesadas décadas de perseguição feitas pelo maoísmo.

No entanto, no final do mesmo ano, o governo chinês anunciou, em conjunto com a comunidade cristã local (protestante), a construção de uma catedral de proporções monumentais perto do complexo confucionista. A catedral não apenas seria próxima do complexo como ainda, superaria em muito a altura dos templos confucionistas, sendo visível à distância e encobrindo o mesmo. A notícia despertou reações intensas da comunidade chinesa, e um manifesto assinado por dez intelectuais pós-confucionistas (ou ‘novos confucionistas’) causou grande comoção, atravancando o processo de construção da catedral. (veja a notícia aqui 1, 2 e 3, e o manifesto em chinês aqui**).

O que se coloca em questão é o seguinte: é legítimo construir um grande monumento religioso perto de um patrimônio da humanidade? Façamos uma analogia: o que o leitor acharia, por exemplo, de colocar uma cruz ou um crescente perto das pirâmides do Egito? Mesmo não sendo budistas, muitos intelectuais ao redor do mundo sentiram profundamente a explosão dos budas de Bamyian, no Afeganistão, consideradas um patrimônio da humanidade. Do mesmo modo, os intelectuais chineses propuseram, em sua carta, a seguinte analogia: qual seria a reação de se construir um mega templo confucionista em Jerusalém, Meca ou no Vaticano? Embora esse raciocínio pareça simples, e por si só já pareça responder a questão, a visão ocidentalista cristã das coisas inverte radicalmente o propósito da discussão.

Tentei acompanhar o desenrolar da questão, e achei algumas poucas páginas que, informadas sobre a China, abordavam o problema. Não sem surpresa, a iniciativa do governo chinês foi saudada (pelos cristãos) como um indício de liberdade religiosa, enquanto o manifesto confucionista foi tratado como algo um texto ‘nacionalista’ e ‘anticristão’. Quem ler o manifesto verá que, em momento algum, os confucionistas pregam o anticristianismo: de fato, o que se propõe é a preservação de um patrimônio da humanidade, com a construção da catedral sendo sugerida a uma distância mais afastada do complexo e na diminuição de suas proporções, consideradas colossais para uma comunidade cristã que mal poderia ocupar o projeto da igreja com 3000 lugares (e note-se: esse seria o mesmo número de discípulos que Confúcio teve, o que foi entendido como uma cutucada de mau gosto). O plano da catedral pressupunha, ainda, um espaço para o diálogo entre confucionismo e as civilizações mundiais, idéia bem vista pelos mesmos autores.

Contudo, a reação ‘cristã’ foi curiosa: nos blogs e jornais que consultei, a notícia foi saudada como a primeira boa iniciativa do estado chinês – o que é curioso, já que o governo da China tem sido sempre considerado como um vilão em questões religiosas e humanistas (veja um exemplo desses blogs aqui). Ou seja, quando o governo chinês impõe algo que interessa ao Ocidente, então está tudo bem? Essa relação conturbada com o estado chinês foi bem notada por um dos signatários da carta, o intelectual Jiang Qing, que apontou a ambigüidade e a conveniência dessa relação entre o estado chinês e as comunidades cristãs envolvidas no processo (ver aqui - está em chinês, lamento). Para complicar um pouco mais as coisas, um dos descendentes de Confúcio da 77ª geração, Kong Weizhong, virou pastor, e é candidato a assumir a catedral, o que por alguns foi considerado um ‘sinal’. É interessante o raciocínio cristão de impor sua fé: se apoiada pelo estado, ela está correta; e quando a coisa não dá certo, melhor ainda, pois aí surgem os mártires.

Por outro lado, causou-me certa surpresa que esses mesmos intelectuais confucionistas assumam, diante de sua própria sociedade, que o confucionismo possa ser uma religião – coisa que causaria ojeriza em Confúcio. O confucionismo sempre foi marcado por uma abertura religiosa positiva, que permitia a crença em qualquer sistema religioso contanto que se mantivesse a prática de sua ética e a dedicação (ou culto) aos ancestrais. Durante séculos budismo, daoísmo e confucionismo foram classificados pelo império chinês como o sanjiao (os ‘três ensinamentos’), que não poderiam ser considerados por nós como religiões, mas numa visão chinesa, como as ‘três filosofias’. O próprio nome dos templos confucionistas, wenbao (que significa algo como ‘casa ou templo da cultura’) denota que o lugar não era próprio pra rezas, mas para estudos. Que ‘religião confucionista’ seria essa, então? Pois a dos antigos cultos imperiais, com certeza, não é; e se a moral confucionista é distinta da do comunismo, não é, porém, menos materialista.

A história do cristianismo também foi sazonal na China: desde o século 6, a comunidade cristã cresceu e diminuiu no país – e sua sobrevivência está diretamente ligada ao quanto ela se intrometia (ou não) nas políticas de estado. Nesse momento, ela cresce; mas continuará a fazê-lo, se continuar insistindo em questões como controle de natalidade, que o sexo é pecado, e que o estado deve se submeter a Deus?

Ao refletir sobre o assunto, percebi que somos levados a uma tensão inevitável entre dois paradigmas essencialmente ocidentais: preservar um patrimônio histórico ou favorecer um esforço pela liberdade religiosa? Mas nada é tão simples: do mesmo modo como não existem monumentos intocados, a imposição de uma fé não é caminho para a liberdade, mas afirmação de um dogmatismo. Se tomarmos como base a política da UNESCO para preservação de patrimônios históricos, a construção da catedral é um erro, independente do problema religioso. Podemos imaginar, ainda, se a proposta do governo chinês não é uma estratégia para jogar confucionistas contra cristãos: mas em qualquer caso, o estado jogou errado - pois, se der razão aos cristãos protestantes, vai ofender uma herança cultural, e se der razão aos confucionistas, será taxado novamente de autoritário. Mesmo a solução mediana seria fazer o que o manifesto confucionista pede – respeitar distância e dimensões para a construção da catedral -, mas isso pode ser entendido como um respeito ao apelo dos intelectuais, o que se não for bem aproveitado pela propaganda do estado, pode se reverter como um indício de ‘fraqueza’ ou de ‘autoritarismo’ do mesmo – e acaba sendo redundante. Isso nos leva a pensar se o próprio estado acabou não sendo inábil com a questão, e se jogou numa berlinda desnecessária.

Particularmente, sou contra a construção da catedral tão próximo desse patrimônio, como já fui contra a destruição e/ou alteração de outros bens históricos que vi se transformarem em obras hediondas e descaracterizadas. Preocupa-me, contudo, que o evento esteja sendo conduzido para um ‘conflito de civilizações’ ou de religiões, como os próprios autores confucionistas deixaram escapar, aceitando entrar num campo de embate com as instâncias religiosas cristãs que poderia simplesmente não existir.

Num contexto em que tanto se clama pela diversidade, o respeito à diferença é a porta da inclusão. Contudo, visões estreitas da realidade incitam radicalismos que tudo atrapalham, e pouco contribuem para a melhor convivência do mundo, só atendendo a desígnios obscuros da política.

Uma sugestão de leitura: ‘China e cristianismo’, organizado por Leonardo Boff em 1978, foi uma excelente oportunidade de se pensar nesse diálogo. Alguns dos textos desse livro podem ser vistos aqui, aquiaqui.


*No final de 2011, Beijing determinou a suspensão da autorização para as obras. Desde então, o projeto foi praticamente abandonado. [Comentário final inserido em 12/12/2013]
**Caso haja problema com o link, procure pelo título original: "尊重中华文化圣地,停建曲阜耶教教堂-关于曲阜建造耶教大教堂的意见书" [Comentário final inserido em 12/12/2013]

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