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O mundo como sala de aula

Os alunos estavam reunidos com Zapotzu. Mestre Za iniciou o debate com a seguinte frase de Confúcio:

‘ensino a todos, sem distinção’

- o que isso significa, pois? Que ensinamos a qualquer um, ou que ensinamos qualquer coisa? – perguntou o mestre Za.

O consenso era de que Confúcio queria dizer, simplesmente, que o ensino é aberto a todos. Mas as dúvidas surgiram: como conciliar isso com um mundo em que muitos não querem aprender? Devemos ensinar para quem não quer ou devemos ensinar o que cada um quer ouvir?

Mestre Za sorriu: - de fato, temos um problema. Se quiséssemos ensinar a todos mesmo, teríamos que ensinar qualquer coisa – o que não ensinaria a ninguém – ou, ensinar o que cada um quer aprender – mas como alguém pode saber o que quer sem conhecer as opções? Confúcio estava aberto a ensinar para quem quisesse aprender, mas seus ensinamentos – que formam o humanismo (o Ren), e preparam as pessoas apropriadamente (junzi) – embora abarquem o mundo, são uma coisa só. Confúcio não podia ensinar qualquer coisa, isso é um hábito de farsantes; e ele só ensinava, portanto, o que sabia, que era seu modo de olhar o mundo – ou ainda, a termos as dúvidas necessárias para enfrentar a vida.

- Mas mestre – perguntou um discípulo – e como ficam os que não querem aprender?

Zapotzu sacou outra frase das Conversas de Confúcio:

‘Não adianta tentar ensinar para quem não quer aprender’, e comentou:

- um bom mestre não abandona seus alunos, mas esses se abandonam a si mesmos. Confúcio olhava o mundo como uma sala de aula. Todos precisam aprender para avançar. Mas suponhamos que essa classe, que é o mundo, tenha uns trinta alunos. Cinco, em geral, são ótimos, e nem precisam de muita ajuda. Outros vinte não sabem exatamente o que fazer ou o que querem, mas se esforçam para ‘passar’ de ano e se manter na média até que um dia escolhem seus caminhos. No fim, apenas uma minoria mesmo – os outros cinco – faz bagunça, criam caos e intimidam os outros. Em geral andam juntos, e agem em bloco. Se olharmos o mundo dessa maneira, veremos que o exemplo é fundamental. Se privilegiarmos os bons, e estimularmos os medianos, todos seguirão o bom exemplo, e os alunos fracos se envergonharão e se sentirão impelidos a melhorar e buscar ajudar. Se não o fizerem, devem ser reprovados e expulsos.

- e isso não é cruel, mestre? Isso não é exclusão?

- diga-me: como é possível arar o campo se há guerra? Como é possível orar com barulho? E como é possível aprender sem disciplina e dedicação? Eu acredito que os professores devem saber estimular os alunos, mas eles não devem ser reféns daqueles que criam a desordem. Hoje se dá tanta atenção aos bagunceiros que eles se sentem privilegiados por isso, e só fazem mais desordem. Os medianos, assim, perdem a vontade de estudar e se miram nos exemplos errados. Por fim, os bons acabam sendo excluídos e perseguidos, numa inversão total de valores. Além disso, a vida implica a realidade das experiências desfavoráveis, que nos ensinam o valor da felicidade, do aprimoramento e do esforço. Lembremos que muitas das pessoas que abandonaram a escola, ao chegarem na fase adulta, relembram e lamentam que deveriam ter estudado mais. Ora, se a maturidade e o tempo ensinam isso, porque então favorecer o erro para depois tentar consertá-lo? Não se deve manter na escola um aluno que não quer aprender. Deixe-o ir. Não se podem criar regulamentos que favoreçam a difusão da ignorância e a imposição da leniência. Hoje, muitos professores já não querem ensinar também – que absurdo! – e se tornaram profissionais dinheiristas, que entendem que qualificações e estudo são apenas meios para se ganhar mais e suportar menos os alunos! Por trás de todos esses erros existem governantes inaptos e educadores estúpidos e incompetentes, que só imaginam a educação como um evento político. No entanto, não é possível manter uma sociedade assim; não é possível manter o mundo assim. Ao lapidarmos o jade, tiramos lascas de pedra bruta para manifestar sua beleza. Mas hoje as pessoas querem que qualquer granito passe por diamante, e que qualquer caco de vidro seja chamado de esmeralda. Era para isso que Confúcio alertava quando falava de retificar os nomes. Se o bom não for bom, e se o erro for o correto, então, não há o que fazer, senão contar com a sorte – e um sábio não faz isso.

Zapotzu leu uma última frase para terminar a conversa:

- está escrito nos Registros Culturais (liji): 'a educação é um assunto fundamental, e os soberanos da antiguidade davam suma importância a ela'. Quem seria tolo, pois, de querer governar o mundo e não dar atenção a isso? Quem pode esquecer que o mundo, afinal de contas, é uma grande sala de aula, e a vida, um aprendizado contínuo?

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