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Uma sociedade contra si mesma

Todas as culturas têm suas tradições de provérbios e ditados populares. No caso da China, essa tradição é extremamente valorizada; conciso e direto, o provérbio expressa de modo rápido e profundo a síntese de uma idéia. Ele é considerado uma forma de exercício mental, que tanto induz a reflexão quanto estimula o aperfeiçoamento na arte do discurso, posto que o uso apropriado (ou ainda, ‘fatal’) de um ditado é que o transforma de clichê numa afirmação decisiva. Os chineses consideram, ainda, que essa arte proverbial expressa a face de uma sociedade, e seu modo de olhar o mundo.

Por conta disso – e obviamente, se concordarmos que os chineses podem estar corretos em sua análise – veremos que a cultura brasileira privilegia uma mentalidade de ângulos catastróficos, que sabotam constantemente o esforço em melhorar a nós mesmos. Isso fica absolutamente manifesto em nossa arte proverbial, cujo pessimismo e oportunismo refletem um modo de agir lamentável.

Senão vejamos: que povo pode se entusiasmar com o estudo e a busca do conhecimento se aqui ‘não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe’? Nosso desejo de evoluirmos e conseguirmos as coisas com honestidade e esforço é destruído pela idéia de que ‘pra tudo tem um jeito, menos pra morte’; ou seja, o desejo de conquista legítima e meritória não importa se soubermos nos ‘contentar com pequenas coisas’. Pobres - intelectual e materialmente-, aprendemos que as concessões de origem duvidosa são dádivas para a incompetência e para o oportunismo; afinal, ‘cavalo dado não se olha os dentes’, e ‘todos’ agem, a princípio, dessa maneira, já que ‘a ocasião faz o ladrão’. Afinal, ‘ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão’. A dedicação e o esforço são adversários do jeito esperto de levar a vida, já que a ‘pressa é inimiga da perfeição’.

E como unir uma sociedade que diz a si mesma que a ‘união faz a força’, quando afirma, ao mesmo tempo, que ‘amigos amigos, negócios a parte’, ou, que a lealdade e o interesse na melhoria geral das coisas são contextuais e sem um projeto de futuro definido? A insistência só existe em coisas pequenas e irrelevantes, cuja satisfação envaidece o oportunista, mas não lhe traz nada de significativo. É a ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’, feita por ‘quem não chora, não mama’.

A apologia do individualismo transparece em ‘cada cabeça, uma sentença’, um sofismo da melhor qualidade, corroborado por ‘antes só do que mal acompanhado’. A união em torno de propósitos comuns é considerada, pois, enfadonha e desagradável. Cada um que se vire, e negocie sua própria impossibilidade e dependência, ‘cada macaco no seu galho’. A ignorância e a total imaturidade para discutir qualquer coisa que seja se consolidam na afirmação de que ‘não se discute religião, futebol e política’: dois dos principais temas da condição humana (religião e política) não devem ser ponderados ou conversados, e são postos em pé de igualdade com um esporte!

Sei, arrisco-me a dizer todas essas coisas, já que ‘quem diz o que quer, ouve o que não quer’, é ‘cutucar a onça com vara curta’, o que revela a disposição de nossos cidadãos em reagir violentamente (não em pensar) no que proponho nesse texto. Mas se ‘contra os fatos não existem argumentos’, a recepção desse ensaio crítico não é discutível. Ó Céu! Como alguém pode acreditar que algo não é discutível? Esse é o princípio da ciência! No entanto, isso é negado a uma sociedade que se formou aprendendo que não deve debater, mas apenas obedecer ou impor. ‘De médico e de louco todo mundo tem um pouco’, o que implica que quem tenta fugir desse esquema estudando e trabalhando é associado a um doente mental.

Pois é, ‘devagar se vai longe’, mas sempre se chega atrasado. Na constatação de que a vida não pode ser mudada (ou pelo menos, baseado nessa crença), as pessoas se sujeitam aos acidentes da existência. Credita-se a Deus e ao acaso o curso do destino; ‘deus escreve certo por linhas tortas’ e ‘ajuda a quem cedo madruga’, embora ele dê ‘rapadura pra quem não tem dente’. Claro: ‘enquanto há vida, há esperança’, o que significa uma vida toda de espera resignada, sem uma atitude sincera de mutação individual – que se diga coletiva.

‘Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’ mostra a completa hipocrisia da máscara social que aprendemos a usar, fazendo ‘aquilo que os olhos não vêem, o coração não sente’. Na pretensão de sermos indivíduos autônomos, somos educados a agir de maneira absolutamente egoísta e auto-centrada – e no entanto, isso não implica numa sociedade de gente determinada, mas sim, num coletivo de pessoas que negam a si mesmas e ao seu poder atuação social para negociarem sua dependência. São todos ‘lobos com pele de cordeiro’, cuja filosofia é ‘mais vale um pássaro na mão do que dois voando’. Egoísmo, possessividade, ambição pequena e sórdida; o que pode um povo com tal educação? ‘Prevenir é melhor do que remediar’ seria um excelente adágio para a educação, mas tornou-se um marco da corrupção ativa e passiva, já que ‘seguro morreu de velho’.

Aqui, ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’, já que ‘melhor ser um burro vivo do que um sábio morto’. Essas afirmações são o reconhecimento de que a sabedoria é poderosa, mas é negada: ‘onde há fumaça, há fogo’, diz-se do que denuncia os erros, mas que é engolido pela tentação da inação: é ‘nadar contra maré’, ratificando a venalidade de ‘uma maioria’ com os erros de uns poucos. O ideal é negar o que é de direito para conseguir aquilo que se transformou em concessão. ‘Nem oito nem oitenta’, indica esse raciocínio de conciliação em grande parte inútil para fazer escolhas na vida, já que ‘nem só de pão vive o homem’, uma das poucas indicações de uma espiritualidade que prefere evoluir pelo sofrimento e abstinência do que se auto-aperfeiçoar. Sim, ‘saber não ocupa lugar’, a frase lapidar da apologia da estupidez. O ‘pior cego é o que não quer ver’ é, de fato, uma afirmação totalmente cabível para essa mentalidade.
Claro, ‘quem espera sempre alcança’ consolida esta atitude de dependência. ‘Quem sabe faz, quem não sabe ensina’ consagra o total desprezo ao aprendizado libertador e independente, daqueles que ‘quem cala consente’.

Contudo, ‘quem não arrisca não petisca’, e creio que todo ensaio se tratou de denunciar essa postura equivocada. ‘Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha’ implica minha crença inexorável de que podemos ser ouvidos e ponderados, já que podemos mudar essa situação calamitosa: ‘querer é poder’, e lembrar disso é fundamental, é o cerne histórico e memorial do ‘recordar é viver’. Sei que ‘santo de casa não faz milagre’, mas me nego a acreditar que ‘a palavra é de prata e o silêncio é de ouro’. ‘Boca fechada não entra mosca’ é uma atitude de resignação que me recuso a aceitar (eu não sou o ‘todo homem tem seu preço’), e mesmo que ‘as verdades façam poucos amigos’ (uma lástima se pensado o conceito de amizade que ela implica), o conhecimento, mais do que tudo, pode de fato melhorar nossa sociedade e nossa cultura. ‘Quem tudo quer, tudo perde’ nos faz pensar o que temos a perder para nos negarmos a conquistarmos algo. ‘Ri melhor quem ri por último’ só será um sucesso factível se nele estiver contida a sabedoria da compreensão. ‘Quem avisa amigo é’ é uma das poucas frases que, se não forem usadas de modo intrigueiro, traz consigo a preocupação sincera com a salvação do outro, o verdadeiro altruísmo de que precisamos. Sim, precisamos dialogar, estudar, questionar (‘perguntar não ofende’), antes que ‘o justo pague pelo pecador’, e a verdade seja obliterada pela sombra da ignorância.

Para o bom entendedor, meia palavra já basta.

Esse é o caminho do bom provérbio.

Isso é o que precisamos saber sobre nós mesmos.

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