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Uma sociedade dominada por fantasmas de ocasião

O senso comum é um conjunto de fragmentos dos mais diversos tipos de saberes, que convivem juntos amarrados pelo laço organizado por uma cultura; embora eles não formem um todo coerente, obedecem a um tipo de lógica (dispersa e mal articulada) que justifica a existência de afirmações e proposições.

Este mesmo senso comum é a referência pela qual podemos avaliar se uma sociedade desfruta de uma educação eficiente ou, se ela é dominada por fantasias e crendices de sentido vago. É quando examinamos algumas amostras dos discursos estabelecidos – do popular até as grandes políticas públicas – que percebemos, também, o nível da manipulação ideológica que se tenta exercer sobre a opinião pública (ou, senso comum).

No caso específico de nossa sociedade, posso entender que somos dominados por fantasmas de ocasião, criados por um sistema que propõe problemas fantásticos por motivos políticos. Hanah Arendt já tinha alertado em seu Origens do Totalitarismo que um sistema autoritário fica incessantemente criando causas populares, e envolvendo a população em debates extenuantes, para desviar sua atenção de problemas mais prementes e ainda, criando a falsa imagem de um sistema ‘participativo’, em que todas as camadas da sociedade seriam chamadas a opinar.

Não digo que o Brasil se tornou um país totalitário, mas alguns expedientes testados (e aprovados) em regimes fechados têm sido aplicados e bem sucedidos em formar uma opinião pública vazia de opinião e atitude. O enfraquecimento da educação é um deles, que se reproduz nesse senso comum carente de elementos discursivos que possam embasar opiniões sensatas ou ao menos, coerentes. O outro é o de conclamar o público para grandes ‘causas sociais’, e envolvê-lo em debates estéreis que jogam os grupos uns contra os outros, deixando que haja um fracionamento da opinião e de sua capacidade de reação frente aos verdadeiros erros governamentais.

Ao examinarmos o conjunto de opiniões emitidas em nossa sociedade, vemos o quão despreparada ela está para estabelecer debates que sejam coerentes e respeitosos. Aliás, a própria palavra ‘discutir’ em português remete a conflito, briga, e não troca de idéias. Isso significa, de fato, que as discussões são inconclusivas pois não partem de elementos comuns, ou não buscam estabelecer uma comparação avaliativa entre os dados. No entanto, a constatação de serem inconclusivas é que leva a imposição de políticas públicas que são entendidas como ‘decisões’ em cima do debate, quando um olhar mais acurado nos permitirá perceber que quase nenhuma dessas decisões envolvia, realmente, a ‘opinião pública’. Assim sendo, o senso-comum é preparado para não ser capaz de reagir, mas de ter a ilusão que participa; muitas de suas conclusões são evidentemente equivocadas, mas é preciso que sejam - caso contrário, elas poderiam se opor, de modo organizado, à decisões equivocadas tomadas por interesses políticos a priori.

Mas que tipos de argumentos tão falíveis encontramos no senso comum? Poderíamos resumi-los dessa forma:

Argumentos pseudo-científicos: são feitos a partir de leituras superficiais e incompletas de estudos científicos. Deve ser levar em conta que, inclusive, muitos dos dados levantados podem não ser de ciências propriamente ditas (como o caso da astrologia) ou ainda, podem ser completamente superados ou obsoletos –mas que são usados por conveniência da ocasião.

Argumentos ético-históricos: quem já ouviu a famosa frase ‘então, quer dizer que tudo o que nos ensinaram é mentira?’ já testemunhou, por conseguinte, o que são os argumentos ético-históricos. Eles se baseiam em versões antigas, incompletas e equivocadas sobre o passado e sobre outras culturas. No entanto, as pessoas não gostam (e nem querem) perceber e aceitar que muitos de seus conhecimentos, adquiridos ao longo de anos de estudo, foram superados por novas descobertas. Isso as remete ao tipo seguinte de argumentação;

Argumentos de autoridade: são aqueles calcados em experiências pessoais, níveis hierárquicos ou tempo de vida, que se julgam capazes de se imporem como decisórios e ainda, de serem projetados para o restante da sociedade. O aspecto restritivo desse argumento é um foco de tremenda tensão, tendo em visto o impacto da modernidade na evolução científica, que se reflete na obsolescência das opiniões pessoais ou ainda, se as vivências íntimas podem ou não ser referencial de conhecimento para os outros. Há outro problema: o quanto a experiência em um campo profissional contribui num determinado debate (pois contribui: a questão é saber em que nível ele será decisório ou não).

Argumentos teológicos: os argumentos de origem religiosa são bastante problemáticos, tendo em vista que partem de um referencial que não possui diálogo ou interatividade com outras religiões. Não se trata de discutir as crenças, mas do quanto elas embasam opiniões sobre questões sociais que extrapolam os limites da comunidade religiosa que vivencia certo culto e se projetam sobre toda a sociedade.

O anseio de um bom pensador é realizar a interdisciplinaridade, fazendo esses eixos dialogarem; mas a questão é que o senso comum, desconhecedor da maior parte das regras do debate científico, político ou mesmo de etiqueta, se impõe mutuamente uma troca de idéias no qual a tentativa de vencer o debate conta mais do que, propriamente, a sua eficácia ou a construção de um conhecimento válido. Nesse momento, o uso de sofismas (corroborados por evidências ‘científicas, pessoais ou intelectuais’ incomprováveis, cujo único referencial é o ‘eu penso que, eu li que’...) se torna uma regra generalizada, levando a total indecisão sobre problemas reais.

Essas observações todas têm por fim esclarecer que somos uma sociedade dominada por fantasmas de ocasião. Acredito que a opinião pública está longe de ser respeitada – não apenas por sua incapacidade de concatenar posturas e raciocínios lógicos na maioria dos casos – mas também porque, mesmo quando o faz, ela pode evidenciar problemas seríssimos na imposição de uma ideologia que se pretenda dominante.

Isso fica mais do que claro nos recentes ‘casos’ populares promovidos pelo governo. Vamos tentar examinar as coisas em conjunto. Comecemos pelo plebiscito sobre as armas, que redundou numa aprovação geral a manutenção do direito a possuir e portar armas – e que depois, o governo desrespeitou autocraticamente impondo leis restritivas ao uso das mesmas. As hipócritas leis contra o fumo perseguem e demonizam os fumantes; e as mesmas pessoas que agora são criadas para desmoralizar os fumantes podem, no entanto, se beneficiar do debate da liberalização da maconha. Não se trata de proibir tudo ou liberar tudo; mas o debate não é feito de modo claro, ou com consulta das partes. Ele é promovido sobre forma de uma campanha impositiva que visa transtornar a opinião pública, antes que a imposição dos discursos previamente definidos seja feita de modo à (aparentemente) ‘solucionar a questão’. Por essa razão, o plebiscito sobre as armas foi uma lição: não se deve consultar efetivamente o povo que ‘nada sabe’ sobre esse tipo de problema – até porque, são esses mesmos governantes que promovem a educação e má qualidade, e por isso mesmo, sabem que o povo ‘nada sabe’.

Agora, o governo novamente lança a população em um novo conflito: a questão gay. Que se entenda; a união gay, a educação gay e os direitos gays devem ser debatidos a luz do direito e da cidadania, e não por meio de argumentos pseudo-científicos, éticos, experienciais e teológicos que não dialogam uns com os outros, mas apenas brigam entre si porque não tem nem origens e nem objetivos comuns. Alguns argumentam: e a questão dos negros? E a questão dos gordos? E a questão das drogas? Isso evidencia que o debate popular tenta escalonar, numa hierarquia, o que seria mais importante para ela mesma, quando não se percebe que TODOS esses assuntos são urgentes. Alguém ainda poderia argumentar: ‘enquanto isso, se passa fome não sei onde’, ‘enquanto isso se rouba não sei o que’... o que demonstra que não há um exame acurado dessas problemáticas. Tentar estabelecer uma pauta de prioridades sobre esses assuntos já é, de saída, cair no engodo que o discurso oficial cria; e enquanto se decide sobre o que é mais importante, TODOS os outros problemas são negligenciados.

No entanto, como todas as coisas têm seu aspecto yin e yang, as ‘causas populares’ tem também desdobramentos imprevistos para essa ideologia impositiva. Ela acaba estimulando o desejo do debate e da participação, que não pode ser evitado. O controle total sobre as políticas públicas acaba se vendo prejudicado pela reação dos diversos grupos sociais, que mesmo em conflito uns contra os outros, se propõem atuar de algum modo para que suas opiniões se vejam respeitadas.

É lamentável que essas causas sejam escolhidas propositalmente para perturbar e gerar conflito, e não o debate. No final, os direitos adquiridos não passam da forma da lei, mas criam (ou reforçam) aversões e preconceitos sociais. Isso não implica que essas causas populares devam ser levantadas: ELAS PRECISAM SER, E DEVEM SER levantadas. Mas onde estão os fóruns de debate? Onde estão os plebiscitos? Onde está a democracia? Por que esses projetos já vêm prontos? Quem os construiu? Quem eram os especialistas? E por fim, por que não se ensina o povo a opinar , dando-lhe meios efetivos para debater, seja pela educação, seja pelo fornecimento de informações relativas a essas ‘causas sociais’, para que se possa realmente consolidar algo mais abrangente e efetivo?

Quem acha que manipula o povo pela ignorância se engana; ele fica volúvel, ao sabor de suas vontades e iniqüidades. Quando um povo está bem preparado, ele encara com maturidade suas questões fundamentais, e decide o que lhe parece mais apropriado, assumindo o ônus da prova. O principal, contudo, é que seus líderes são ainda mais respeitados por trazerem tais questões ao debate.

Quem agora, por oportunismo, quer ganhar o voto dos gays ou dos ‘anti-gays’, vai ter que inventar outra polêmica daqui a algum tempo – essa é a dinâmica da política. Contudo, minha preocupação com essa ideologia é de que ela crie tantos conflitos que não seja possível, um dia, administrá-los. Atualmente se misturam, nos diálogos públicos e políticos, preconceitos étnicos, sociais, religiosos... é lastimável que, no fundo, a política pense somente em legislar de modo oportunista, esquecendo que os humanos deveriam ser respeitados em sua autonomia e que esta, para ser devidamente construída, depende do preparo intelectual, sentimental e cidadão que só a educação consciente e sapiencial pode construir.

A opinião pública, pois, é governada por fantasmas de ocasião – ou seja, problemas que focam toda nossa percepção em apenas um ângulo das coisas, sem que tomemos consciência da dimensão social restante. Termino esse texto com um conto chinês do Soushenji, chamado ‘O homem que vendia fantasmas’, que ao meu ver, ilustra o que pode ser de nós se continuarmos a lidar com os fantasmas criados por essa ideologia política dos dias de hoje:

Quando Sung Tingpo, de Nanyang, era ainda rapaz estava passeando certa noite quando encontrou-se com uma fantasma. Perguntou à aparição quem era e ela respondeu que era um fantasma. - "Quem é você?" perguntou por sua vez o fantasma. Tingpo mentiu e respondeu - "Eu também sou um fantasma." O fantasma então quis saber para onde ele ia e Tingpo informou - "Estou a caminho para a cidade de Wanshih." - "Também vou para lá," afirmou a aparição. Assim puseram-se a caminhar juntos. Após uma milha, se tanto, o fantasma disse que era estupidez estarem andando ambos quando um podia carregar o outro, por turnos. - "ótima idéia," achou Tingpo. O fantasma pôs Tingpo às costas e depois de ter andado uma milha disse - "Você é pesado demais para um fantasma. Tem certeza de que é um fantasma mesmo?" Tingpo explicou que ainda era um fantasma novo e que, por conseguinte, ainda pesava um pouco. Tingpo, por sua vez, pôs-se a carregar o fantasma, mas esse era tão leve que tinha a impressão de não estar carregando nada. Assim foram caminhando, revezando-se, até que Tingpo perguntou ao companheiro qual era a coisa que metia mais medo aos fantasmas. - "Os fantasmas têm um medo horrível da saliva humana", afirmou o fantasma. Assim foram andando, andando até que chegaram a um rio. Tingpo deixou que o fantasma fosse adiante e observou que ele não fazia barulho algum ao nadar, mas quando ele entrou n’água, o fantasma ouviu o estalar na água e pediu-lhe uma explicação. Tingpo explicou novamente - "Não se surpreenda, pois ainda sou muito novo e não estou ainda acostumado a atravessar a correnteza." No momento em que se aproximavam da cidade, Tingpo começou a carregar o fantasma nas costas apertando-o fortemente. O fantasma pôs-se a gritar e a chorar lutando para apear-se, porém Tingpo o apertou com mais força ainda. Ao chegar às ruas da cidade, soltou-o e o fantasma se transformou num bode. Tingpo cuspiu no animal a fim de que não pudesse transformar-se outra vez, vendeu-o por mil e quinhentas moedas e foi para casa. Eis a razão do ditado de Shizong: "Tingpo vendeu um fantasma por mil e quinhentas moedas."


Com inteligência, superaremos os fantasmas: do contrário, acabaremos vendidos como bodes...


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