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Dazibao

O magistrado local havia convocado a reunião. Seria na verdade uma palestra, feita por um emérito sábio vindo de fora, que trataria de educação.

A preocupação do magistrado era-lhe clara: os educadores iam de mal a pior. Em sua ignorância abissal, esta gente que nada sabia ensinava de tudo. Desenvolveram uma crença quase religiosa em seus “saberes” fantasiosos, mas sabiam, no fundo, que sabiam muito pouco. O magistrado já percebera, e precisava mudar a situação – afinal, uma terra sem educação é um campo desolado e perdido, em que as ervas daninhas tomam o bom fruto.

Então ocorreu-lhe a idéia de chamar este sábio, e convocar os professores para ouvi-lo. Quem sabe isso não poderia tocar seus corações duros, e ajudar a todo o povo?

No dia marcado, estavam todos presentes no pavilhão da invocação da primavera, para tornar tudo mais auspicioso.

Estava lá um professor que havia criado um projeto para investigar a exploração dos pobres. Suas supostas descobertas apontavam a culpa do governo em tudo, embora ele louvasse o mesmo governo por financiá-lo. Ele proclamava, aos quatro ventos, que se pudesse assumir o mesmo governo, sua primeira medida seria criar mais projetos contra a exploração dos pobres, assim como o dele.

Havia também um casal de professores que ensinavam de tudo: dança, teatro, filosofia, letras, culinária e estratégia. De fato, eles não ensinavam nada, e sabiam menos ainda; mas começaram a dizer que somente seus iniciados poderiam compreender suas lições sublimes. Não demorou que um certo número de ingênuos, incautos e aproveitadores se aproximassem deles; e como constatassem que nada aprendiam – ainda que fossem iniciados – começaram a repetir a lorota de seus mestres, para não passar vergonha.

Estava também um que era só risadinhas, e que todos consideravam a diversão da turma. Como havia conseguido algum sexo fácil, convencera-se que estava no caminho certo.

Outro, ainda, achava que a educação era um meio de promoção social e ganho financeiro. Como era um comerciante mal-sucedido, um cobrador mal-sucedido, um atleta incompetente e um aluno medíocre, arrogou-se ares de erudito e investiu na traição, na intriga e na indistinção. Conseguiu meia dúzia de fiéis iguais a si.

Esses eram alguns do vasto público com que o sábio teria que lidar. Quando ele chegou, recebeu as palmas calorosas e hipócritas de quem quer muito ganhar, mas está disposto a pouco ouvir. O sábio foi recebido como alguém que vinha ensinar a vender um produto qualquer.

Mas ele era um sábio de fato. O magistrado depositava nele a confiança de sua profundidade e a agudeza de sua mente.

Ao chegar, um mero olhar já propiciou ao sábio um panorama do que teria de enfrentar. Firme, porém, e movido pelo hábito da verdade, ele começou sua preleção:

-Caros colegas;
Vivemos no mundo da mutação. É um tanto óbvio começar dizendo que tudo muda, e que nós só acompanhamos este movimento. No entanto, o mesmo se dá com o conhecimento. Por isso, vim hoje lhes avisar que vocês sabem muito pouco – menos do que pensam. E talvez, NADA.

Aquela platéia de ilusão engoliu em seco, ofendida por esta afirmação escandalosa e eu lhes parecia agressiva. Contudo, alguns – cientes de que nada sabiam mesmo – intuíram que seria bonito repetir as palavras do sábio. Afinal, nada melhor para a falsa humildade do que afirmar que “não sabemos de nada”, ou “eu não sei isso”. Muitos professores haviam aprendido que essa era uma boa desculpa para “construir conhecimento com os alunos” – algo semelhante ao que acontece nos dias de hoje quando uma professora pede dicas de moda para suas alunas, ou quando docentes aprendem a usar um telefone celular com eles.

Mas o sábio não se intimidou: - e quando falo isso, não afirmo para desmerecer apenas o que aprendemos. Mas a questão é que precisamos continuar estudando sempre. Se nos dispomos a ensinar, precisamos saber o antigo e o novo. Assim como um macaco não cai no mesmo truque duas vezes, o ser humano não deveria fazê-lo. Como se contentar, portanto, em ficar vinte ou trinta anos repetindo as mesmas lições? Um cavalo velho não puxa carroça; um remédio antigo não faz mais efeito; e uma pessoa cujos conhecimentos não evoluíram não deveria ensinar.

Essa realmente incomodou os “educadores”. “Agora, além de dizer que não sabemos nada ele quer que voltemos a estudar, como crianças?”. Esse era o pensamento geral. Imagine! “Estudei para ter esse emprego; agora que o tenho, preciso estudar para mantê-lo?”, diziam outros para si mesmos. Alguns ensaiaram que iam levantar e ir embora. Mas o sábio continuou:

- pois aquele que não sabe, não aprende, e mesmo assim ensina, esse demonstra não ter princípios. É um mentiroso, um impostor, e o que ensina aos seus alunos é a falsidade, a ganância e o caminho da desilusão. Alguém sem princípios não pode ensinar princípios.

Nesse momento, a turba irrompeu: “está nos chamando de mentirosos?”; “veio aqui nos ofender?”, berravam os “educadores” numa balbúrdia terrível. A gritaria generalizada correspondia a uma confissão de culpa, embora eles não pudessem compreender essa sutileza. Os maus, quando ofendidos, partem para a violência e o deboche, da ira à ofensa e ao escárnio. Em peso, atiçaram o magistrado a levar aquele “homem grosseiro” embora, antes que se desse um tumulto.

O sábio não se incomodou. Desde Confúcio, os que desejam ensinar o caminho da sabedoria correm esses riscos. Ele pegou suas coisas e foi embora. Sua partida foi a previsão de um mau agouro. Ele e seu amigo magistrado já sabiam disso. Pouco tempo depois, o segundo abandonou seu cargo também, e sumiu.

Se fizeram as convocações, e um pilantra qualquer virou o novo magistrado. Este contratou sofistas para dar palestras em troca de dinheiro, e consolidou-se a pedagogia da falsidade. Quando os mestres não dizem nada que preste, os discípulos que nada sabem confirmam seus saberes.

Não passou um ou dois anos e os alunos ludibriados queriam enganar também e ganhar seu troco. A disputa pelas vagas descambou na violência. A sociedade adotou a força como medida da razão, e o mais bruto começou a ditar as regras do apropriado e do inapropriado. Quando finalmente se tornou insuportável, o governo central interveio com mais violência ainda, matando muito, prendendo outros tantos, e pondo uma ordem artificial em meio aquele caos. Pairava, porém, uma sensação de injustiça no ar, pois era corrente entre os educadores que

Eles não sabiam de nada...

他们不会了乌有

Eles não fizeram nada...

他们不作了乌有

Eles não entenderam nada...

他们不懂了乌有

......

No dia em que o sábio foi embora, ele pincelou um dazibao – um cartaz de grandes palavras – dizendo a famosa frase do mestre Confúcio:

"Não tema ser desconhecido pelas pessoas, tema somente desconhecer as pessoas"







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