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Buda da Sorte


“Aprende antes a servir os vivos”
Confúcio

O que entendemos de uma imagem budista quando olhamos para ela? Aliás, como sabemos se tratar de um Buda? Quando pensamos nele, que representação nos vem à cabeça? Cavando entre nossas lembranças pessoais, rememoramos um dos primeiros ‘budinhas’ que vimos em nossas vidas, nos fins da década de 70: aquele bem gordinho, sentado em cima da geladeira, rodeado de moedas e balinhas. Aquele Buda, segundo informavam, trazia paz e prosperidade para a casa. Qual a história dele? Ninguém sabia direito, apenas que veio do ‘oriente’ – algum lugar qualquer entre Israel e as ilhas do Pacífico. Na dúvida, ele era japonês – pois todo o asiático ‘era japonês’, assim como todo habitante do Oriente Médio também é chamado de ‘árabe’ até hoje. 

Isso, claro, até 1989. Foi o ano fatídico para os regimes comunistas do leste europeu. China, Coréia e Vietnã continuaram firmes. Qual a relação disso com nosso Buda? É que mais ou menos nessa época, o Dalai Lama, líder espiritual budista, intensificou suas pregações pela libertação do Tibete, de onde havia sido expulso em 1953. Acreditando na possibilidade de que o regime chinês também fosse cair, o Dalai Lama começou a viajar o mundo anunciando sua disposição de negociar a situação tibetana. Mas o governo chinês não caiu, não negociou o Tibete, e continua comandando o país com firmeza. Contudo, as peregrinações do Dalai Lama não foram infrutíferas: ele se transformou na face mais evidente do Budismo - e para muitos ocidentais, ambos se tornaram sinônimos. Isso praticamente varreu do mapa mental ocidental a existência de outras formas de budismo – como o chan chinês (zen, no Japão), ou o theravada na Indochina. O budismo se ‘transformou’ no Tibete. Quem era budista, era pró-Tibete. No entanto, qual a relação do Buda de geladeira com a arte tibetana? Por qual razão nossa cabeça não consegue juntar o Buda gordinho com a imagem dos monges tibetanos?

O cânone tradicional da arte budista demorou séculos para se formar, e encontra variações significativas entre os países asiáticos. A imagem de Buda sempre carrega consigo um vasto corpo simbológico cuja decifração exige treino, conhecimento e sensibilidade. Isso poderia ser um excelente argumento para o nosso desconhecimento sobre as origens de Buda de geladeira, mas a questão em si é que, ao ser trazido para o Brasil, nada sabíamos sobre ele – e não fizemos muita questão e perguntar. Ignoramos ainda muita coisa sobre budismo, mais ainda, então, sobre arte budista. Eia aqui um detalhe importante: quando me refiro a ‘arte budista’, falo de um sistema de representações que se construiu autonomamente. A arte budista absorveu elementos de diversas culturas, e os transportou de um lugar para o outro, nos países em que o budismo penetrou. O budismo é um fenômeno histórico cuja sobrevivência dependeu do diálogo intercultural, motor fundamental de sua criatividade artística.

E como fica nosso Buda de geladeira? Partindo de uma peça aparentemente tão simples como essa, poderíamos tentar explicar seus significados com ajuda de um bom manual sobre budismo, ou arte budista, mas... Não conseguiríamos. Um breve estudo sobre a questão nos revelaria algo surpreendente.

Essa imagem não é de Buda.
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Zhongli Quan é um dos sete – às vezes oito – imortais caminhantes. Gordinho, simpático, ele traz a sorte. Porque foi confundido com Buda, ninguém sabe. Buda devia ser magro, mesmo famélico, depois de suas meditações: não trazia sorte também, apenas prometia salvação – a custo de muito trabalho. Como ele foi virar um deus barrigudo da fortuna, isso é uma incógnita. Durante a época Song, uma imagem rechonchuda de Buda (Budai em chinês) surgiu, e essa pode ser uma possível origem para confusão. É difícil, contudo, afirmar qualquer coisa nesse sentido, já que budistas e caminhantes não gostavam de se misturar... No Japão, a imagem do Deus da Sorte Hotei assumiu esse papel, aumentando exponencialmente a confusão [dos ocidentais, claro].

Buda defendia o desprendimento dos bens materiais; só pode ser uma ironia que ele fosse sincretizado com uma entidade absolutamente oposta, mas não é isso. Para uma religiosidade popular, que adotou Buda como um caminho, ele representa tudo de bom. E o bom, nesse caso, é a fartura e a riqueza.

“Quando não se conhece os ritos, o que se sabe?”, disse Confúcio. A mensagem de Buda era um alívio para o tormento post-mortem proposto pelos caminhantes. A salvação individual é um consolo, um contrato direto com o nirvana. Para o povo, essa salvação começa aqui: e Buda transforma-se, então num provedor – igual à Zaoshen (deus da cozinha), que freqüenta as cozinhas, protege a casa e atende os desvalidos, ou como Zhongli Quan, o outro santo provedor e símbolo de fartura. Faz sentido pensar, então, que na cabeça do povo, as imagens de fartura e provimento são dadas por esses santos gordinhos - e se Buda é bom e protetor, ele também deveria ser gordinho. Uma lógica simples, porém bastante funcional.

Da cozinha para a geladeira. Foi o que o ocidente fez, na carona da ignorância sobre o budismo e o daoísmo (e das confusões que os próprios asiáticos faziam), colocando um Buda de geladeira no lugar do deus da cozinha... Adotado pelos cultos afros e esotéricos, ele mantém consigo a fama de atrair riqueza, o que se faz depositando algumas moedas sobre seus pés. Posto de costas para a porta (como um elefante indiano!), ele afasta o “mau-olhado”. Por fim, alguns cristãos ignorantes o taxaram de demônio – ou seja, o que pode “trazer felicidade nessa vida” não pode ser bom...

No Brasil multicultural, ele faz companhia ao pingüim e as velas. Uma trajetória assim tão criativa, tão repleta de erros, interrupções e recriações, merecia um estudo mais aprofundado.

Mas quem pode dizer que ele não expressa, justamente, o que os seus devotos querem? Como não concordar que, para além do que ele deveria ser, ele se tornou algo ainda mais incrível e profundo?

“Há deuses em todas as partes, no Céu e na Terra”
Livro dos Poemas

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