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As alucinações do Poder Imperial

O Mandato do Céu é dado àquele que irá restaurar a ordem cósmica. Contudo, ele exige uma sabedoria e uma força interna que são virtudes raras de se achar. Na ausência de um sistema educacional eficaz, isso fica ainda mais difícil, dado o despreparo dos seres.

Por isso, quando os mais preparados são levados diante de sua missão, eles costumam recusar de início. Tanto por humildade, mas diante da tarefa colossal que tem por realizar, o aconchego do lar se torna muito mais interessante do que os anos de privação que o sábio terá que enfrentar. Diante da responsabilidade, porém, ele acaba cedendo à empreitada.

Tempos depois, quando sua missão está cumprida, ele em geral não lembra, e nem procura saber, como chegou lá. Ele prefere se voltar às coisas simples, como escrever, cuidar do jardim ou pintar.

Uma das coisas que se aprende ao se pôr ordem no mundo é que, apesar das pessoas serem variáveis, o simples exemplo e a liberdade no agir estabelecem as coisas. Deixar as pessoas apenas fazerem o que querem, permitir que cumpram suas obrigações em paz, isso é o mais fácil e o adequado. Letrados e caminhantes já sabiam disso. Não é difícil corrigir os excessos quando direitos e deveres são definidos e cumpridos. De fato, numa sociedade ordeira, a vergonha faz o trabalho da polícia entre os inconvenientes e abusados.

Esse é o ideal. Mas como os seres são únicos, e em sua ignorância desconhecem a ordem natural da mutação, eles se arrogam a prerrogativa de tomar para si o mandato do céu e as funções da sabedoria. Essas pessoas alucinadas sofrem com o delírio do poder imperial, numa sanha abjeta de impor suas vontades egoístas. Incapazes de buscar a sabedoria – embora saibam identificá-la quando a vêem – os alucinados criam expedientes para tentarem se fincar no poder.

Quando o conseguem, pela força de sua persuasão, e pela ausência indistinta de todo o restante das pessoas, os alucinados determinam e impõem todo azar das calamidades e excessos que destroem a dinastia e põem em desordem o mundo.

Expedientes

Sunzi já sabia que um grupo pequeno, mas determinado em seus propósitos, pode alcançar vitórias inimagináveis. Os que sofrem dos delírios e desejos de poder em breve se associam, para promoverem a dominação. Caso interesse ao buscador conhecer melhor esses expedientes, aqui vão os mais comuns:

Difame: um bom trabalho é reconhecido pela inveja que desperta. A difamação consiste nisso. Quando bem feito, e os resultados aparecem, o autor é chamado de arrogante, exibicionista e prepotente. Isso fica mais evidente quando os incompetentes, no desejo de concorrer, mostram suas produções descabidas e suas idéias absurdas.

Reclame: um bom trabalho pode ser feito a partir de pouco. Quando isso fica claro, os intrigantes reclamam que trabalhos com “poucos recursos” inibem investimentos superiores e legitimam a penúria. Para esses, somente uma cornucópia de dinheiro pode sustentar uma empreitada modesta.No entanto, governos reconhecem iniciativas inventivas, e não raro decidem implementá-las. Assim, quando o sábio consegue recursos novos para aumentar suas obras, é chamado de áulico e bajulador.

Intriga: um sábio não se importa em dividir seu arroz com um faminto. Com pouco ele faz muito, e sua tarefa lhe exige criatividade. A intriga consiste em pôr dúvidas as suas realizações e altruísmo; “de onde ele tirou dinheiro para isso?”, vão dizer. Se o sábio passa a cuia de esmolas ou tira de seu próprio bolso, isso é inconcebível: novamente, ele “legitima o abandono do governo” e dá “mau exemplo”, pois se imagina que será moralmente exigido dos colegas o que ele faz por conta própria. Se ele busca a generosidade alheia, é acusado de evidenciar a “pobreza” da Instituição em que trabalha, lançando-a na “vergonha” (e impondo a legitimação do governo pelo “disse-me-disse”). Nos países mais desenvolvidos do mundo, as pessoas de posse sabem do valor de investir na educação, e não raro doam recursos para pesquisas e bibliotecas. Mas para quem não é humilde, o mecenato é uma ofensa, a caridade uma desonra, e o altruísmo uma insensatez.

Prevaricação: não raro, porém, os alucinados acreditam que a malversação de recursos, a incompetência e o suborno são formas de amealhar fiéis. Por isso, apesar de seu discurso de favorecer o mundo, eles cobram por tudo – e bastante. Eis porque lhes é incompreensível a razão pela qual o sábio faz o que faz com o povo e para todos. Abnegação e dedicação ao outro são atitudes e sentimentos incompatíveis com a tomada de poder.

Cerceamento: é importante que o sábio seja acusado de tudo isso antes que ele denuncie os erros alheios. Obrigado a responder pelas calúnias, o sábio se vê forçado a abandonar parte do seu trabalho para responder a algumas delas. Num primeiro momento, se as calúnias não interferem no andamento dos projetos, o próprio sucesso será a resposta. Contudo, por vezes os delirantes decidem impedir a continuidade dos bons trabalhos, com receio que o sábio lhes tome o poder que tanto almejam.

Por isso, quando o sábio se defende, parece que ele é o causador dos problemas, mas não é. Mesmo que prove que suas atitudes são sensatas, e que sua figura é inocente, ele se transforma em um “transtorno” para muitos, que o consideram chato, reclamão e criador de confusões. Poucos percebem que ele sofre uma perseguição, e são menos ainda os que se colocam ao seu lado. Muitos preferem ignorar o assunto, seja por conivência, seja porque não querem se importunar. Tais pessoas, de atitude indistinta, não percebem que caso os alucinados pelo poder imperial assumam o governo, isso lhes afetará também. A leniência e o descaso são amigos da destruição.

No entanto, tornar-se um chato também é uma fonte de poder. Diante das argumentações insistentes, alguém pode obter o que deseja, embora não saia por simpático.

Saídas

Por isso tudo, a prática da sabedoria parece desanimadora. Mas o desânimo e o pessimismo não são companheiros da razão. Deve-se observar a situação e avaliar as possibilidades.

Com líderes fracos, ou sem colegas de personalidade, é melhor retirar-se, sem culpa. Não há clima para a mudança ou evolução. Deve-se aguardar a mutação agir, e na época de calamidades o sábio é chamado de volta. Com Confúcio foi assim.

Em governos dirigidos pela maledicência, ganância e fofoca, não há muito que se fazer, já que as decisões não se baseiam nas leis.

Em lugares onde há liderança, se ela for forte ou de personalidade definida, pode-se empreender. Ainda que possa haver discordâncias, onde a sinceridade é um hábito, a compreensão e o bom entendimento são coisas comuns e práticas usuais.

Quando o poder é vacante, o sucesso do sábio se evidencia, e ele terá associados para realizar seus projetos.

Não deve aquele que busca a sabedoria ausentar-se da tarefa de transformar o mundo, mas apenas saber quando e como realizá-la. Senão, do que consistiria o seu caminho? A educação é um projeto constante, contínuo, e revivenciador dos princípios que constituem a cultura e mantém a humanidade. Isso é imprescindível, e precisa ser feito sempre. Por essas razões é que a sabedoria necessita de coragem, força interna e paixão pelas pessoas.

Quando o desânimo invade o coração é importante não abandonar-se ao contexto histórico que a situação implica.

A sabedoria é o contraponto da desordem, e serve justamente para resolvê-la, doravante trazendo a ordem perdida para o mundo.

O desejo de adquirir poder daqueles sem as qualificações necessárias pode mesmo atingir suas metas, mas os custos são altos e destrutivos. O que se pretende o sábio, pois, é ensinar e elucidar as pessoas a evitarem que a maldade e a ignorância se apoderem de seus corações.

Um sábio deve, pois, agir com discrição, buscando evitar que seus talentos se revelem de modo estrondoso e causando, assim, os problemas citados. Deve ser igualmente paciente e humilde, no sentido de não impor autocraticamente o seu ponto de vista. No entanto, não se pode confundir gentileza, discrição, humildade e paciência com submissão e conivência. Diante do erro, ele deve revelá-lo, de modo a resolvê-lo. Não deve mudar suas opiniões, se isso implica em realizar algo inapropriado. Ser constante na prática do caminho, aberto às opiniões, ponderado, exigente e compreensivo, mas sem ser fraco; esse é o sábio.

Pois aquele que acha esse caminho difícil, espere a guerra, a desolação, a destruição, a ignorância e a falta de perspectiva para dedicar-se a ele com afeto zeloso...

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