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Dignidade e Paciência


O pior erro é não corrigir seus próprios erros.
Confúcio
Alinhar ao centro
Ao fugir de um país para outro, Confúcio e seus discípulos passaram fome e sede. Zilu, revoltado, perguntou a Confúcio: “mestre, um cavalheiro tem que passar por essas indignidades?”. Confúcio respondeu: “o que torna alguém um cavalheiro é o modo digno com que ele encara as indignidades”.
Confúcio

Confúcio levanta um problema sério para qualquer buscador da sabedoria: quais os limites da dignidade e da paciência? O mestre, por vezes, suportou ofensas atrozes de maneira inexpugnável; de outras, revoltou-se de imediato com certos acontecimentos. Há um padrão para lidar com os problemas sem perder o controle? E se existe, qual é?

Nas Conversas de Confúcio está escrito: “Os discípulos de Zixia perguntaram a Zizhang sobre as relações sociais. Zizhang disse: "O que Zixia vos disse?" Eles responderam: "Zixia disse: 'Associai-vos ao tipo certo de pessoas; evitai aquelas que não são do tipo certo'". Zizhang disse: "Ensinaram-me algo um pouco diferente: um cavalheiro respeita os sábios e tolera os medíocres, louva os bons e tem compaixão pelos incapazes. Se tenho uma vasta sabedoria, quem eu não toleraria? Se não tenho uma vasta sabedoria, as pessoas me evitarão; com base em que deveria eu evitá-las?". Na Justa Medida também se diz: “se alguém faz dez vezes o que outros fazem um; se faz cem o que outros fazem dez; se faz mil o que outros fazem cem; é esta atitude que leva a sabedoria”. Ambos os trechos mostram que o exercício da paciência e da dignidade são práticas constantes, e seu domínio procede de uma intensa, profunda e dedicada atenção. Elas procedem do desejo de não buscar o conflito desnecessário, de atentar ao conjunto das possibilidades de resolução, e de ponderar corretamente, sem fazer concessões levianas ou abandonar o que é correto.

Porém, em situações extremas não há nada o que fazer para alterar o curso das coisas: pior, manter-se numa determinada posição pode mesmo significar um envolvimento – ou compromisso – com a causa dos problemas. Nestas situações, é melhor das às costas ao mundo e seguir adiante. Se não se pode combater o problema frontalmente, e se a arte do indireto não serve para a elucidação daqueles envolvidos no erro, então, pôr-se a caminho não é covardia ou medo – é apenas a constatação de que nada pode ser feito, e a dignidade real consiste em conter-se e ausentar-se do contexto em erro.

No hexagrama 61 do Tratado das mutações, analisa-se a “verdade interior”, a autenticidade realizante, derivada da centralidade do indivíduo. A sexta linha, que é nove e conclui o hexagrama, traz um comentário interessante: “o galo canta para o céu, mas não voa”, o que significa; podemos denunciar os crimes, mas se não podemos voar, se não tivermos o poder e a autoridade para corrigi-los, acabaremos só criando mais problemas. Portanto, nestas horas, por mais certos que estivermos, precisamos nos conter e praticar a paciência com dignidade. Tolerar é uma virtude: comedir-se, uma excelência. A covardia só existe quando alguém pode, de fato, resolver uma questão mas se ausenta, seja por medo ou por compromisso. Quando alguém desconhece a própria força, deve cuidar-se para não confundir humildade com indulgência perante os erros. A autoridade moral para enfrentar as indignidades é difícil de se obter, e a paciência é confundida com covardia, mas o buscador da sabedoria deve ter um compromisso, antes de tudo, com o que é apropriado e consigo mesmo, não temendo a reprovação alheia.

Sem princípios comuns é inútil discutir.
Confúcio

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