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Tratado da Exortação à Lealdade e a Honestidade

O correto e o errado estão na natureza humana; a própria existência dessas definições aponta para o fato de que somente os humanos as construíram, e os animais não. Se é assim, então, está na natureza humana optar entre elas. No entanto, se a natureza humana fosse indistinta, ela não se preocuparia em definir suas propensões entre boas e ruins; e se [ela, a natureza humana] fosse ruim como Xunzi pregava, ela talvez até pudesse saber dessas coisas, mas apostaria no caos, e não na ordem. Esta foi a razão pela qual Mêncio provou estar certo: a natureza humana, a princípio, é boa, e por esta razão ela faz leis e cria uma cultura que a permita sobreviver para além do nascimento e da selvageria. Logo, o ser humano tem todo o potencial para ser bom, mas não o é por ignorância e pelo desvirtuamento de suas propensões. Vivemos numa sociedade de seres desesperados e incompletos, e muitos acreditam, pois, que a realização de seus desejos particulares só se dará pela prática do que é inapropriado.

Ora, a verdadeira felicidade não pode ser encontrada nisso, já que as pessoas que vêem o mundo dessa maneira estão sempre receosas, temerosas de perder suas posses, e engendrando novos golpes, enquanto os simples de coração e espírito dormem de forma tranqüila, só se preocupando quando não podem pagar suas contas ou alimentar suas famílias. Os ignorantes encontram na abstinência total ou no descontrole dos vícios as pretensas saídas de sua situação; mas apenas a busca da sabedoria, que se cumpre na prática do que é correto, pode realmente aliviar a consciência de uma pessoa, pois somente isso está em harmonia com sua natureza original.

Então, devemos nos perguntar o que permite a existência do erro: e por conseguinte, como ele se manifesta na forma da deslealdade e da desonestidade; por fim, porque parece difícil, em certas ocasiões, aplicar os princípios corretos.

Devemos responder a estas questões invertendo a ordem das perguntas: como dissemos, a incapacidade de cumprir o que é apropriado reside na ignorância dos princípios; se deles houvesse conhecimento, então, as pessoas temeriam errar. No entanto, o que muitos possuem hoje em dia é apenas o conhecimento externo, aparente, enciclopédico, que muito pouco ajuda a uma pessoa se ela não buscar os princípios primeiros das coisas, as raízes, como ensina o Daxue (o Grande Estudo). Sendo assim, é dificultoso aplicar os costumes, as práticas e os ritos (Li) de ordem social, se não conhecemos seus modos, seus limites e objetivos. Em uma sociedade em que a imagem do Estado está corrompida, as pessoas sofrem para fazer o que é correto, e se sentem lesadas, ou impedidas. Isso só pode ocorrer se no poder estiverem pessoas ignorantes; e se isso se dá, é porque a ignorância da maioria o permitiu. Processos assim costumam terminar em revoluções ou crises terríveis, quando o próprio povo se revolta. Contudo, é possível evitá-las por meio da sabedoria.

Assim, percebemos que o erro reside na ignorância; que esta só prevalece, e intimida, se os que governam forem fracos, ignorantes e complacentes nesta situação; por fim, que a deslealdade e a desonestidade só existem, pois, se aqueles que as praticam forem fracos de caráter e sabedoria.

Assim sendo, no que consiste a deslealdade e a desonestidade? Na obra do grande mestre Confúcio, a Lealdade e a Honestidade são representadas pelo ideograma zhong, que significa “centralidade do coração”. Ou seja, aquele que é honesto e leal domina a si mesmo, e possui uma conduta definida em seu coração. Por vezes, Zhong vem acompanhado de Xin, que significa “sinceridade”, ou, “pessoa de palavra”. Logo, as pessoas desonestas e desleais são fracas de coração e não possuem palavra, sendo falas a e oportunistas. Isso não representa nenhuma novidade, senão pelo fato de que essas pessoas não conseguem perceber que, na origem de suas fraquezas, está sua própria ruína. Nenhum sistema humano pode ser construído e durar baseado na traição, na falsidade ou na ignorância. Os que prevalecem, sempre, são aqueles cujos valores são definidos, e esses são os guias da sociedade. É necessário reconhecer e compreender os princípios pelos quais os seres humanos operam; quando isso corre, em geral, tudo vai bem. Até mesmo os piores déspotas da humanidade vislumbraram isso, e construíram suas péssimas idéias tentando se aproveitar dos princípios. O resultado foi que conseguiam, durante algum tempo, enganar as pessoas, mas seus regimes terminaram em calamidade total. Tal como a amizade, que reforça os laços sociais, ou a piedade filial, que regula os relacionamentos familiares, assim é, também, a vida humana; a deslealdade impossibilita a continuidade, pois ela é contrária ao princípio de manutenção da mesma.

Por isso o Mestre disse: "Um cavalheiro destituído de gravidade não tem autoridade e seu estudo será sempre superficial. Um cavalheiro coloca a lealdade e a fidelidade acima de tudo; não se alia aos moralmente inferiores. Quando comete uma falta, não hesita em retificar sua conduta", o que significa: o princípio do estudo consiste em reconhecer o que nos torna humanos; o que nos torna humanos são nossos valores e conceitos; entre os conceitos que nos mantém vivos e contínuos, existem aqueles que são yang, construtivos, e um deles é a lealdade (honestidade), pois consiste na centralidade do coração. Um coração desregrado é fraco, desesperado, interesseiro e oportunista. Se alguém que estudou não reconhece isso, então, não estudou, de fato.

O Mestre disse: "Shen, minha doutrina é percorrida por um único fio". Mestre Zeng Shen respondeu: "De fato".
O Mestre saiu. Os outros discípulos perguntaram: "O que ele quis dizer?" Mestre Zeng disse: "A doutrina do Mestre é: lealdade e reciprocidade, e isto é tudo", o que significa: o principio da sabedoria consiste no próprio ser humano; como a doutrina dos letrados dedica-se aos seres humanos, então, é no estudo deles que encontramos as respostas para suas dúvidas. Ora, se somos seres humanos, então, por conseguinte, é no auto-estudo que vislumbramos nossa humanidade, e que encontramos paridade com nossos próximos. Sendo assim, o verdadeiro princípio que rege as relações humanas, tanto no conhecimento externo quanto interno das coisas, consiste na lealdade e na reciprocidade. Se formos leias em nossas intenções e atos, tanto quando formos recíprocos em nossas expressões, poderemos nos afirmar como humanos, e como indivíduos, perante qualquer situação: do contrário, nos colocaremos sempre como “vítimas das circunstâncias”, ainda que não tenhamos sido intrigados.

Por isso o Mestre fazia uso de quatro pontos em seu ensino: literatura; realidades da vida; lealdade; sinceridade, o que significa: é necessário estudar para conhecer o mundo (xue), mas é preciso vivê-lo também (zhi); quem estuda muito mas não vive o mundo é um reprimido sem sentido, um alienado ou mesmo um falso erudito; quem viveu muito mas não o aplica no estudo é um arrogante ou pretensioso. A lealdade torna os sábios cônscios da necessidade de aprender e ensinar sobre o mundo; e a reciprocidade, de passar isso adiante, trocando informações, cultura e saberes, de modo a tornar o mundo maior e melhor. Esta era a proposta dos letrados. Esta É.


Assim sendo, o Mestre disse: "Coloca a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores; não receies corrigir teus erros", o que significa: tendo princípios, podemos até nos enganar e errar, mas podemos retificar nossos erros e corrigir nossa conduta. Isso não tem nenhuma relação com as necessidades externas – consiste pura e simplesmente em agir do modo correto, e corrigir os erros. Se prejudicamos alguém, então, faz parte de nossa retificação íntima ajudar aos outros. Não podemos nunca, porém, justificar nossos atos baseados nas idéias de que precisamos sobreviver em meio algum meio hostil ou ardiloso. Isso é prevaricar com o que é inapropriado. Senão alguém não suporta o que é errado, vai embora e mantém sua consciência limpa; quem o suporta, contudo, e não tem planos de combater o mal, prevarica com o mesmo, aceita suas regras e contribui no fortalecimento do que é errado.

Zizhang perguntou como acumular poder moral e como reconhecer a incoerência emocional. O Mestre disse: "Coloca a lealdade e a fé acima de tudo, e segue a justiça. É assim que se acumula poder moral. Quando se ama alguém, deseja-se que viva; quando se odeia alguém, deseja-se que morra. Agora, se desejares simultaneamente que a pessoa viva e que morra, este é um exemplo de incoerência".

Por isso o sábio faz afirmações, muitas vezes, que parecem duras. Na verdade, ele não tem nada a esconder, e não se guia pelas aparências. Ele não busca tolerar o erro, e nem defende tolerância com o mesmo. Par ele, o que é apropriado é, e o que não é, não é. A tolerância com o erro é que leva ao descalabro; a leniência, a afirmação do erro; e a constância, a destruição do sistema. Quem sabe disso, se corrige a tempo e permanece; quem não faz, perde.

Fan Chi perguntou sobre humanidade. O Mestre disse: "Sê cortês na vida privada; reverente na vida pública; leal nas relações pessoais. Mesmo entre os bárbaros, nunca te afastes dessa atitude", o que significa: não existem razões, entre os humanos, para agir fora dos valores humanos. Existem apenas pessoas, pouco ou muito educadas: existem pessoas bem ou mal educadas; mas todas são pessoas, e por isso, merecem atenção do sábio. Se deve combater, somente, aqueles que pregam contra a humanidade, e estes são os desleais, os desonestos.

Zizhang perguntou sobre a conduta. O Mestre disse: "Fala com lealdade e boa- fé, age com dedicação e deferência, e mesmo entre os bárbaros tua conduta será irrepreensível. Se falares sem lealdade e boa- fé, se agires sem dedicação ou deferência, tua conduta será inaceitável, mesmo no teu próprio vilarejo. Onde quer que te encontres, deves ter esse preceito sempre diante dos olhos, inscreve-o na canga de tua carruagem, e somente então serás capaz de ir para adiante". Zizhang escreveu-o na sua faixa.

E o sábio escreve isso em seu coração. Não há porque ser desleal, a não ser que se seja ignorante e mal intencionado.

Esta é a conclusão deste tratado.

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