A História Imaginária da China




O título deste texto não explicita, diretamente, o seu propósito; analisar as imbricações entre o sentido de construção da história, entre os chineses, e o aspecto da imaginação, ou do imaginário. No Ocidente, a tarefa é cumprida pela linha teórica conhecida como História do Imaginário, devidamente representada por Castoriadis, Durand e outros; na China, contudo, a questão de como “imaginamos a história”, e de como ela é escrita, parece representar para a sinólogos a constatação de uma relação nunca resolvida de modo adequado – se é que isto é possível – tendo em vista a maneira como os chineses, em linhas gerais, encaravam a realização do texto histórico. Assim sendo, fazer uma “história do imaginário” na China não é nada absurdo, ao contrário: porventura trata-se de um conjunto de conexões tão íntimas que ela nunca precisou se separar da história propriamente dita, como uma teoria em específico, para existir em sua plenitude.

Devemos partir de um ponto comum a todas as análises que se remetem ao estudo da história na China: ela é, antes de tudo, uma forma de literatura, que poderíamos classificar, grosseiramente, como “baseada em fatos reais” – “fatos” estes que os próprios chineses colocam em questão, muitas vezes, no processo de investigação sobre o passado. A história é a tradução contextual e evolutiva de uma série de princípios imaginados (Li) que estruturam o funcionamento do mundo e dão continuidade a reprodução da matéria.

Sendo assim, o estudo da literatura é, antes de tudo, um esclarecimento sobre a relação sentido e forma, como destacamos em um texto anterior O que pode ser a literatura chinesa?. Desde a antiguidade, pois, busca-se atrelar – ou ao menos, distinguir – a relação entre forma e sentido. Confúcio já defendia a “Retificação dos nomes”, ou seja, garantir o atrelamento de uma palavra à um sentido específico, evitando assim criar confusões conceituais ou denominativas. O que isso significava, portanto, para a história? Que infelizmente, mesmo que tenhamos uma abundância de informações e evidências sobre uma determinada época, é basicamente impossível realizar a história sem uma seleção de memórias, que implicam, acidentalmente, no uso da imaginação para interpretar e recriar (ou seria mesmo “criar”?) uma noção de passado.

A função dos cronistas e historiadores é, portanto, fadada ao um inevitável fracasso diante desta constatação. O que eles escrevem é imbuído de um sentido próprio, e mesmo que este sentido seja “dizer a verdade”, esta “verdade” será uma metáfora da realidade, tão apropriada a ele, autor, quanto fantasiosa para o leitor de segunda mão desprovido da possibilidade de acessar seu testemunho.

É o que acontece, por exemplo, quando da leitura de um texto histórico, em que esperamos nos “conectar” com o passado. A gama ampla de leituras possíveis que podemos alcançar com esta experiência mostra o quão ingênua é a crença de que podemos reconstruir por completo um cenário do passado. A própria matéria já se foi, se desintegrou e se transformou novamente; como podemos, então, esperar compreender o passado em sua plenitude? Confúcio, novamente, foi sábio e ambíguo ao afirmar que o mestre revela o novo por meio do antigo. E será possível fazer diferente?

Disso constatamos a curiosa conclusão de que a história, tal como qualquer outra forma de escrito, depende da imaginação para existir. O passado é reconstituído, a princípio, em um cenário onde falta de tudo, incluindo os atores. Precisamos dar-lhes vozes, funções, espaços, colocar objetos, e a partir daí a invenção supera, muitas vezes, a existência das evidências.

No manual de literatura de Liuxie, o Coração do dragão e o cinzel da literatura, surge uma interessante orientação sobre como ordenar o processo de construção imaginativa de um texto literário:

Quando você escrever sobre um lugar determinado, suas idéias podem ir até os mais distantes rincões do mundo. Em um momento tranqüilo de reflexão, podemos nos comunicar mentalmente com mil anos do passado e do futuro. Quando nosso rosto revela uma ligeira mudança de cor, é quando sua vista abarca milhões de quilômetros de extensão. Quando esboçamos alguns versos, escutamos um tintilar agradável semelhante aquele produzido pelo choque de jades e pérolas. Quando olhamos para trás, temos um vislumbre espetacular de ventos e nuvens que mudam constantemente. Este é o efeito mental produzido pela imaginação. Graças à imaginação, o escritor pode combinar o espiritual com o real para logo expressar-se em uma linguagem estilística e graciosa. Se ele maneja bem a linguagem, pode ressaltar nitidamente os perfis e as imagens das coisas; se não tem uma boa disposição de ânimo ou se está de péssimo humor, não pode concentrar-se para escrever de forma vívida. Portanto, o escritor deve pensar com calma e solidão, deve concentrar sua atenção, passar por momentos de grande desapego do fundo do seu ser, e depurar as impurezas de seu espírito. Para poder escrever e imaginar como é devido, deve estudar conscientemente, acumulando conhecimentos, elevar suas atitudes mediante o exercício do discernimento, chegar mais tarde a uma compreensão cabal das coisas mediante o exame das experiências vividas em pessoa, e finalmente adquirir a capacidade para manejar com propriedade a linguagem mediante o cultivo do espírito. Deste modo, com uma mente capaz de ir a fundo das coisas, pode explorar o caminho para dominar a técnica de escrever. Ou seja, ele tem que passar pelo mesmo processo que um artesão de grande maestria, que assim chega a saber fazer uso de seus instrumentos para elaborar seus projetos segundo um desenho imaginário. Este é o método fundamental para escrever, e também o mais essencial que se deve ter em conta para dispor a trama de uma composição literária em seu conjunto. (Liu Xie, 465-532)

Observem bem o que Liuxie está dizendo: ele afirma claramente que podemos visitar o passado e o futuro, mas para isso precisamos estudar! A imaginação atrela-se a realidade, e para compor um bom e verdadeiro texto literário, é necessário harmonizar as experiências externas com as internas (como Confúcio já propunha, Xue – o estudo das tradições e Zhi – o estudo das experiências próprias e pessoais). No capítulo sobre história, do qual reproduzimos aqui uma parte, o mesmo Liuxie explica a dificuldade, baseada neste princípio, de se “fazer história”:

Para escrever registros históricos é necessário atravessar cem autores, retroceder mil anos, aclarar as evidências do florescimento e da decadência dos Estados e, como no "Espelho de Yin", refletir sobre seu surgimento e desaparecimento. Fazer com que as Instituições de uma Dinastia durem como o Sol e a Lua; que as vidas dos príncipes e reis sejam tão grandes e duradouras como Céu e a Terra. Por isso, nos princípios dos Han, o cargo de historiador adquiriu uma suma importância. Os documentos e registros dos reinos e províncias se reuniram pela primeira vez na Oficina do Grande Escriba, com a intenção de investigar detalhadamente as divisões do Reino. Se consultou a Câmara de Pedra, e se abriram as arcas de Metal; se desenrolou a seda deteriorada e se examinaram as ripas de Bambu quebrado, para ampliar conhecimentos e experiências na investigação da antiguidade. O Historiador aponta idéias, elege as palavras e estabelece princípios baseando-se nos clássicos. Ao decidir sobre conselhos e advertências, deve apoiar-se nos sábios. Depois disto, seus juízos e críticas serão brilhantes e corretos, escapando da falsidade e da imprecisão. Assim, o estilo dos Anais e dos comentários nasce de tecer e bordar sucessos; seu texto não é um discurso trivial pois que escreve sobre eventos ocorridos. Mas se passaram muitos anos e é difícil distinguir o que é idêntico e o que difere da realidade atual; quando os acontecimentos se amontoam é fácil confundir origem e fim. Precisamente esta é a dificuldade de lograr uma síntese. Às vezes há um só fato cujo mérito se reparte entre várias pessoas; se ele for registrado duas vezes, cairá na redundância; mas se for registrado apenas uma, sofrerá de falta de precisão. Assim, não é fácil pesá-los e uni-los. Por esta razão Zhang Heng encontrou erros e incorreções no Shiji e no Hanshu. Fuxuan criticou as faltas e erros do Hou Hanshu. Todas as críticas são deste tipo. Ao referir-se as gerações antigas e longínquas, quanto mais distantes estiverem, maior será a inexatidão dos estudos. Gongyang Gao disse; "as notícias se transmitem usando linguagens diferentes"; Xun Kuang comentou; "ao registrar o antigo, se omite o moderno" (ou seja, o autor é sempre atual). De fato, em caso de dúvida mais vale ficar quieto; é mais valioso ser fiel a História. No entanto, as pessoas ignorantes gostam do que é estranho e não se preocupam com a razão dos acontecimentos. Ao transmitir o que se ouviu, tendem a falseá-lo, e ao registrar o distante desejam detalhar-lhe o máximo. Assim, abandonam o comum em busca do extraordinário, e inventam para apoiar seus argumentos. Os que as velhas histórias não tem, recorrem aos "livros que eu li". Esta é uma fonte de mentiras e exageros; constitui-se na verdadeira sina dos escritos sobre o passado. Quanto aos escritos de nossa época, ainda que sejam precisos em relação ao tempo, contém muitos enganos. Os escritos de Confúcio sobre Ding e Ai são críticos mas possuem uma linguagem sutil e equilibrada; no entanto, a tendência atual é se deixar levar pelo interesse. Se alguém faz parte de uma família de prestígio e honra, ainda que seja medíocre, será adornado ao extremo. Se trata-se de um cavalheiro derrotado, por mais que sejam grandes suas virtudes, ele será esquecido e deixado de lado. Maltratar os virtuosos, adular acriticamente as fontes, ser frio ou quente demais com a ponta do pincel; estas são as injustiças dos contemporâneos que mais devemos lamentar. Ao escrever sobre o passado se induz ao erro; ao registrar-se o presente, distorce-se a realidade; já citamos todos estes casos. Analisar a razão e dar refúgio a verdade, somente um coração sincero pode intentar fazê-lo. Mas ocultar os erros de homens respeitáveis e sábios, como assinala o sábio Nifu, é uma pequena mancha que deprecia uma pedra preciosa. O bom historiador usa seu pincel para apontar e criticar os vícios excessos, como o campesino quer ver uma má erva arrancada. Esta é uma regra para Dez Mil gerações. É a técnica para desembaraçar um emaranhado de fontes, esmerar-se em dar importância ao acontecimento e abandonar o estranho, compreender a ordem do começo e do fim, e valorizar os princípios que regem os acontecimentos. Se forem compreendidas estas grandes linhas, se poderá penetrar em todas as razões. Assim, a tarefa do historiador é falar sobre todos os aspectos de uma Dinastia (contexto histórico), abordar tudo que acontece entre os quatro Mares. Sobre seus ombros cai a responsabilidade de decidir o que é falso e verdadeiro. Nenhuma outra tarefa é tão laboriosa quanto a dos que manejam o pincel. Sima Qian e Bangu abriram caminho, mas as gerações posteriores os criticaram. Se se deixam levar pelos sentimentos e perdem de vista o que é correto, a literatura histórica correrá perigo. (idem).

Se aceitarmos as observações sobre confecção do texto histórico proposto por Liuxie, seremos obrigado a admitir também, doravante, que o conflito entre a imaginação, a forma e o sentido é uma condição indissociável da própria intenção de se escrever sobre o passado ou o presente.

Talvez por esta razão, a história chinesa tenha alternado-se em um processo criativo no qual a leitura das fontes, a reflexão histórica e a produção de interpretações diversas nunca estagnou numa construção ortodoxa ou exclusivista. A constatação desta condição – a imaginação – como grande intérprete do passado estimulou, por outro lado, a própria existência da reflexão como guia mestre do discernimento. Como afirmou o grande sábio (e historiador) Zhuxi, da época Song:

Na leitura, é preciso fixar-se onde está a abertura, única maneira de captar o sentido. Sem dar com abertura, não há por onde entrar. Em compensação, ao descobri-la, toda a trama se abre diante de nossos olhos. (Zhuxi 1130-1200)

Zhuxi está afirmando, com isso, que os propósitos de um texto estão contidos, nele mesmo, por força da criatividade de seu autor. O estudo aprofundado nos fornece o contraponto necessário à não aceitação dogmática do texto, bem como das informações que ele nos proporciona.

Wang Fuzhi iria referendar este papel da relação reflexão-imaginação no processo de construção da história, como afirma no trecho a seguir:

Há duas maneiras de adquirir conhecimento: estudar e refletir. Ao estudar, não se conta com a própria inteligência, senão que assimilamos o que há de correto nos legados do passado. Em compensação, ao refletirmos, não nos questionamos se seguimos os passos dos antepassados, mas fazemos valer apenas a faculdade do entendimento. O estudo não estorva a reflexão, ao contrário, quanto maior o estudo, maior a capacidade de reflexão, maior o alcance do pensamento, e a reflexão se torna mais proveitosa para o estudo. As duvidas com que tropeçamos ao refletirmos nos obrigam a estudar com aplicação maior ainda. (Wang Fuzhi, 1619-1692)

Do mesmo modo, o ilustrado historiador Zhang Xuecheng compreenderia a tensão que existe entre a noção de “verdade” proposta por um senso-comum em relação a história e a própria questão do historiador como um “produtor” de realidades a partir das evidências:

Qual o preceito moral que se deve observar na redação das crônicas históricas? Se diz que devem ser as razões justas do historiador. No entanto, os historiadores rivalizam em realçar o papel da erudição e dos dotes literários, sem ter em conta a tais razões justas para a redação das crônicas históricas. Assim, como é possível tirar uma conclusão correta acerca da moral que devem ter os historiadores? (Zhang Xuecheng, 1738-1801).

Poderíamos nos perguntar, portanto, se a história chinesa não é, antes de tudo, uma história imaginária, ou ainda, uma história imaginada. Isso nos leva a inevitável pergunta: é há alguma história que não seja construída neste sentido? Não será a imaginação uma condição indispensável a construção da história, embora ela deva ser conduzida dentro de limites, impedindo uma extrapolação? Mas o que é extrapolar os limites da razão ou da evidência? Não serão, ainda, os conceitos de justo, correto ou adequado derivados, justamente, de uma época, contexto, ou da própria intenção do autor?

Se houvesse um limite no exercício da imaginação, a própria ciência não existiria e nem se desenvolveria, embora os mesmos chineses já tivessem percebido que um princípio básico de funcionamento do imaginário é a sua conexão com algum tipo de realidade observável ou ao mesmo, referencial. Ou seja, a imaginação – apesar de “imaginária” – é capaz de tornar real certas idéias, pelo próprio exercício de sua conexão com a realidade. Como afirmou o intelectual chinês Guomoruo:

A fantasia audaz é tão necessária quanto o sentido de realidade. As ciências também requerem criação e fantasia. Somente a fantasia permite romper os convencionalismos e desenvolver as ciências. Camaradas cientistas! Não deixem que os poetas monopolizem as fantasias! Graças ao desenvolvimento das ciências, o vôo a lua feito por Chang E, a busca pelos tesouros no palácio dos dragões no fundo do mar bem como muitas outras fantasias descritas na criação dos deuses estão deixando de ser simples imaginação e se tornando realidade hoje. Guomoruo (1892-1978)

A história depende, deste modo, da criatividade para ser cada vez melhor escrita, embora isso pareça destruir seu principal sustentáculo, que é a pretensão de ser, em certa medida, “real”. A dicotomia entre a evidência e a imaginação, que se projetam um sobre o outro, dá o mote do desconcertante comentário de Huang Tingjian, mais do que apropriado para esta inconclusa e fascinante perspectiva de história:

Na criação literária, nada pior do que repetir o que os outros já disseram. (Huang Tingjian, 1045-1105)



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