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História dos Pensadores da Terra do Centro do Mundo

Não houve início, como não haverá fim. O universo sempre esteve. Se houve um começo, foi apenas deste mundo, e ninguém estava lá. Então, não se pode saber ao certo como foi. A especulação é o princípio da razão; a crença, o princípio da fé. Como a crença não precisa da razão, e muito menos especula, então, não trataremos aqui das vias do Céu que não buscam se apresentar pelo atributo da mesma razão.

O ser humano começou a tentar explicar o universo por vários meios. O meio da razão dizia o seguinte: o universo é um, o princípio (Li) de tudo. Ele é a estrutura de todas as coisas, e sempre está. Este grande princípio se divide em pequenas partes, que tudo abrange e fundamenta. Sua manifestação se dá pelo que é (yang) e pelo que não é (yin) – o que constitui a oposição complementar universal.

Em um nível primeiro, sabemos o que é e o que não é pela contraposição do vazio (que dá sentido) e da matéria (Qi), que dá forma. Depois, a produção das coisas segue em ordens hierárquicas, que se cruzam ou se afastam segundo os pequenos princípios que os definem. Destes dois se gera o três – os filhos – e deles, se produzem as dez mil coisas.

Os antigos compreenderam isso, e por esta razão redigiram o Tratado das Mutações, que explicava as coordenadas para compreender a realidade pela contraposição de Yang e Yin. As duas tendências geram os Trigramas (Gua), que em sua manifestação plena – Hexagrama – se transformam em sessenta e quatro tendências da natureza.

Do mesmo modo, as coisas se manifestam, assim, em cinco estados básicos de constituição: metal, madeira, água, fogo e terra. Eles se relacionam em dois ciclos opostos e complementares, um no qual se engendram, outro no qual se anulam, tal como yang e yin, e dão propensões às coisas. Compreender isso significava manter o equilíbrio entre o Céu e a Terra, e assim, tudo estava em rodem, e todos viviam no Caminho (Dao) da natureza.

Quando a humanidade perdeu contato com este saber, a moral (Yi) degenerou, e as pessoas esqueceram-se de manter a Harmonia (He) das coisas. Isto é natural: assim como há equilíbrio, há ausência de equilíbrio. Portanto, buscar e manter a ordem são de nossa natureza, assim como perdê-la. Por esta razão que, quando estourou a grande crise da antiguidade, os sábios finalmente saíram das sombras.

O primeiro de todos foi o grande mestre Kongzi (Confúcio). Ele analisou o mundo à sua volta, observou os erros, pesou as qualidades e compreendeu que o meio ideal de resgatar o entendimento do princípio era a educação. Por isso, para o mestre Kongzi, a educação era a base de tudo; sem ela, um indivíduo não se torna humano, e continua selvagem. Por ela, se atinge a sabedoria, se retifica a sociedade e se pode salvar o mundo. Kongzi resumiu sua busca pelo Humanismo (Ren) em “não fala aos outros o que não quer que seja feito com você”, e “ama a todos sem distinção”. Por meio dessas regras, ele imaginou uma via que contemplava todo o mundo, e todas as suas gentes.

Ele nunca abandonou as pessoas, e sempre acreditou que elas podiam se modificar. Essa era sua idéia de justiça. Seus pensamentos dirigem-se à todos, sem exceção.

Dois grandes mestres seguiram seus pensamentos. O primeiro, Mengzi, defendeu a bondade inata nos seres, e entendeu a educação como meio para recuperá-los. Para ele, o desejo de ordem é mais forte no ser humano que o desejo de desordem.

Quanto a segundo, Xunzi, defendeu que a maldade era inata ao seres, e que a educação os retifica. Xunzi foi, assim um grande educador, e pensou diversos meios para o desenvolvimento da inteligência.

Mas as idéias de Mengzi pareceram mais corretas para os antigos; afinal, se a humanidade não fosse naturalmente boa, porque ela faria leis boas para ela mesma, a fim de coibir o mal e ensejar o bem? Mengzi se ateve às pessoas e a política; Xunzi, aos métodos e ritos. Com o Mestre Kongzi, foram assim três, e produziram dez mil coisas.

Na mesma época, vagou pela Terra do Centro do Mundo o sábio Laozi. Ele ensinou a se desprender da sociedade, e a buscar uma natureza mais ligada ao princípio. Negou a cultura e as ordens sociais. Pregou que a melhor ação seria a não-ação (wuwei), o agir sem propósito definido. Disse que o caminho (Dao) era um só, e que o seguia. Abandonou a humanidade e sumiu depois da muralha.

Dois grandes mestres o seguiram, e estes foram Liezi e Zhuangzi. O primeiro, Liezi, falou das idéias secretas de Laozi, da origem do mundo e tentou explicar o que não devia ser explicado, segundo os seguidores desta escola.

O segundo, Zhuangzi, popularizou as idéias de Laozi, transformando-as em histórias profundas e cheias de sentido. Dizem que Laozi foi o sábio oculto, mas foi Zhuangzi que abriu a mente das pessoas por meio de suas palavras simples. Foram também três, e produziram dez mil coisas.

Se chamou Mozi aquele que acreditava que o problema da sociedade era a cultura. Combateu os senhores que exploravam o povo, e nisto estava certo; combateu a moral, os ritos e a música, e nisso estava errado: afinal, não existe povo no mundo que não os tenha. Por isso sua luta foi infrutífera. Ele acreditava no Céu como um deus; foi radical em sua postura e por estas razões, ao defender os mais fracos, se excedeu em Yang. Assim, sua escola se extinguiu.

Enquanto a crise rondava a sociedade, outro grupo de pensadores resolveu investir na destruição da ordem antiga, instaurando uma nova ordem reguladora, forte e centralizada. Foram os seguidores da Lei (Fa). Shang Yang, um de seus mentores, chegou a proibir as festas e a música também; baixou tantas leis duras que foi executado por uma delas.

Hanfeizi foi um seguidor desta escola, e estruturou um novo império regido pelos códigos legistas. Assim como o construiu, Hanfeizi teve o mesmo destino de Shang Yang, e foi executado pelas leis que criou. Morreu por elas, e o império foi junto. Ambos se excederam em yin, a desagregação, e assim se extinguiram. Seus discursos eram instigantes, mas cruéis. Se não há crença no ser humano, então, o que se pode fazer por eles? Este foi o erro legista.

Huizi e Gong Sunlong foram dois pensadores que brincaram com o sentido das palavras e o sentido dos termos. Mostraram a profundidade do falar e do pensar, mas pouco propuseram senão que tudo é relativo. Se tudo é relativo, então, até o relativo é relativo – logo, há algo que é, então, e não é relativo. Este é o princípio, que lês não alcançaram. Por isso se chamaram de escola dos nomes.

Haviam ainda os que se ativeram à lógica da natureza, e cujos estudos hoje conhecemos pelas teorias da Oposição Complementar e pelo Ciclo dos Cinco Estados. Seus nomes se perderam, mas seu pensamento ficou. Faltou-lhes correlacionar estas teorias com o ser humano: isso seria feito depois.

Alguns ainda disseram seguir um tal de Guanzi, sobre quem pouco se sabe. Guanzi teria dito muito sobre Educação, Lei e Estudo. Se seguiu Kongzi, Shang Yang ou sua própria consciência, é ainda mais difícil saber. De seus textos se extraem coisas boas, porém, e ele merece ser lido, embora tenha sido pouco citado.

Lubuwei foi um dos autores que imaginou amealhar o melhor do pensamento antigo, no início da Era Qin. Governava-se pelas teorias legistas e daoístas, mas não possuía uma visão própria das coisas. Se adaptava às circunstâncias, e por esta razão, seu texto é uma coleção de partes dos antigos escritos que lhe interessavam.

Existiram ainda os Estrategistas, dos quais se destacaram Tai Gong, Sunzi e Sunbi. Entendiam o mundo como uma competição de caráter prático, em que venceria o possuidor da melhor estratégia. Ao lê-los, não sabemos se se orientavam por alguma escola, ou por todas. Se atinham a eficácia, mas compreendiam o valor da humanidade na conquista. Disse Sunzi: “a melhor guerra é aquela em que se obtém a vitória e ninguém morre”. Disto isso, estão longe de serem cruéis como se pensa. Seus estudos diluíram-se nas outras literaturas, mas sempre foram preservados e mantidos ao alcance pelos militares.

Por isso, quando começou a grande Era inaugurada pelos Han, os pensamentos buscaram se unir, como eram antes de se separarem, e como a Dinastia fez com a terra. Grandes linhas continuaram a existir, mas seus autores não se furtaram a ser lenientes com influências externas.

Lujia foi o primeiro desses: era letrado, como os seguidores de Kongzi, mas defendia que o Estado “não-agisse”. Seu objetivo era fazer cm que as pessoas fossem felizes por si próprias, por meio da liberdade e da educação. Abrandou as medidas legistas, e obteve sucesso.

Dong Zhongshu foi o segundo: era letrado, como os seguidores da escola de Kongzi, mas defendia a ligação entre os seres humanos e as teorias do cosmos. Alcançou a eficácia explicando a diversidade dos seres, a importância do governo na manutenção do equilíbrio e da harmonia, tal como ocorre com as leis da natureza, e fez compreender os padrões celestes.

Wang Chong foi o terceiro: era letrado, como os seguidores da escola de Kongzi, mas defendia a crítica das palavras, sentidos e idéias. Criou os critérios para a investigação racional da natureza, para uma análise baseada na mente e nas provas obtidas. Foi bem sucedido, embora muito criticado.

Liu An e os pensadores de Huainan foram seguidores de Laozi, e estudaram a cosmologia e a estratégia. Na análise da natureza foram razoavelmente bem sucedidos, mas esqueceram os princípios que regiam a sociedade e a doutrina do Caminho; agiram erradamente, calcularam mal suas estratégias, conspiraram e foram destruídos.

Na mesma época, se falou de um tal Wenzi, sobre quem pouco se sabe. Pregava o Caminho quando já o esqueciam, e por isso pouco conseguiu. Dizem que é por isso que os daoístas esqueceram o mundo; mas será que o mundo não esqueceu os daoístas justamente porque eles não se preocuparam senão consigo mesmo?

Há ainda Banzhao, distinta pensadora mulher; explicou a questão das relações entre homem e mulher por meio da visão letrada de Dong Zhongshu, ajudou seu irmão Bangu a completar a história de Han, e foi fundamental para lembrar que as mulheres são a outra metade do Céu.

Quando o final do Mandato Celeste de Han chegou, poucos pensadores tentaram, ainda, um resgate das tradições letradas. A preocupação fundamental era o salvamento do império, mas ninguém deu atenção aos sábios. Shenjian escreveu um bom tratado sobre o governo, mas que só seria compreendido séculos depois; Wangfu foi um ermitão que, desconsolado com as prevaricações do poder, retirou-se do mundo e fez suas análises sobre a sociedade à distância. Ambos se diziam letrados, mas Shenjian analisou os legistas, e Wangfu agiu como um daoísta; este era o estado em que tudo se encontrava na época, e a crise seria, pois, eminente.

Então, quando o império se desmembrou em três reinos combatentes, novamente as escolas caíram em confusão.

Nesta época, Guoxiang tentou reviver o Caminho de Zhuangzi, retomando o comentário de seus escritos. Não criou nenhuma nova idéia, mas ajudou a compreender a tradição.

Ge Hong também tentou reviver o Caminho de Laozi, mas o misturou com as tradições do povo. Definiu as linhas de Estudo do Caminho, da Alquimia e dos Métodos de Imortalidade, bem como das crenças. Ge Hong re-inventou os caminhos para o caminho, mas praticamente enterrou a escola do Dao. Por isso seus ensinamentos são apropriadamente chamados de “instruções” (jiao), e não de “escola” (jia).

Zhuge Liang foi um dos seguidores da escola dos estrategistas, e tornou-se famoso por suas habilidades políticas e guerreiras. Sabia, porém, o valor do humanismo proposto por Kongzi, e fez uso disso. Assim, legou seu nome para a posteridade.

Somente quando os séculos se passaram, e o império voltou a se unir novamente, o Mandato Celeste foi concedido a uma nova Dinastia. Primeiro, veio a Dinastia Sui; e a eles se seguiram os Tang, que criaram um país tão forte quanto foi Han.

Esta foi uma época em que os maiores pensadores foram também poetas e escritores. Entre os seguidores dos Letrados, encontramos Hanyu e Liu Zongyuan; entre os seguidores do Dao, encontramos Libai e Dufu; e chegaram também, vindos de fora, os pensadores da Terra Carmesim, denominados seguidores de Buda.

Os seguidores de Buda criaram bastante embaraço aos pensadores da época, desafiando a todos com suas concepções. Afirmavam que havia uma alma e um corpo; que ambos sofriam porque estavam presos ao Qi (energia); que tentando se livrar das paixões do Qi, encontrariam a libertação da alma; e que isso poderia ser feito por um caminho de oito leis, resumidas na prática de “sentar e esquecer”. Por fim, todos poderiam encontrar esta libertação, desde que abraçassem a doutrina de Buda.

Suas explicações simples atraíam o povo; seus conceitos estranhos intrigaram os letrados. No entanto, a simplicidade de suas propostas não levava o povo a estudar e nem se dedicar aos seus afazeres; seus conceitos iam contra a idéia de família, de costumes, e da vida prática, posto que dirigiam as preocupações para um outro mundo que ninguém podia provar que existia.

Por estas razões, os letrados se puseram contra os budistas; Hanyu mostrou que esta doutrina era perniciosa, já que ela defendia que uma pessoa alcançava a iluminação pelo ato de meditar - sentar e esquecer – e para fazer isso, esse alguém depende de outro alguém – o camponês, ou sua família, ou auxiliares – que iriam trabalhar para sustentá-lo, mas que por isso não obteriam a salvação! Nisso não havia justiça alguma.

Liu Zongyuan foi companheiro de Hanyu, e criticou a sociedade da época, pela sua fraqueza e falta de caráter diante dos desafios da realidade.

Quanto aos daoístas, puseram-se em pânico diante dos budistas, e começaram a perder seus fiéis. Libai e Dufu foram os mais sinceros seguidores do Caminho, nesta época; fizeram poemas sobre a natureza, a vida, os sentimentos, e apenas se desprenderam de todo o resto.

Os seguidores de Buda compreenderam, porém, que a Terra do Centro do Mundo tinha pensadores e tradições antigas. Por isso, aprenderam seu vocabulário; em pouco tempo, aceitaram também suas práticas e costumes; e por fim, encontraram um lugar próprio no seio do povo. Aperfeiçoaram os métodos de “sentar e esquecer”, e absorveram a idéia do Princípio (Li) e Caminho (Dao).

O Mandato Celeste passou aos Song, e este foi um importante momento de introspecção entre os pensadores da Terra do centro do Mundo. Os letrados dedicaram-se a reconstruir sua doutrina, e pô-la em novos termos. Fizeram exatamente o que Kongzi aconselhou: “mestre é aquele que, por meio do antigo, revela o novo”.

Os primeiros foram os irmãos Cheng, Cheng Yi e Cheng Hao. Foram seguidores da escola de Kongzi, e resgataram a importância de Li como fundamento de todo o universo, além da investigação baseada na razão.

O segundo foi Zhuxi. Foi seguidor da escola de Kongzi, e o maior discípulo depois de Mengzi. Zhuxi institui os textos básicos para compreender a doutrina dos letrados, que seriam os Diálogos (Lunyu), O grande estudo (Daxue), a Justa medida (Zhong Yong) e o livro de Mengzi (Mengzi shu); estudou o princípio (Li), e o aliou ao estudo da cosmologia, como havia feito Dong Zhongshu; definiu as diferenças entre Qi (a matéria), Li (princípio) e Yi (mutação). Debateu história com o grande historiador Sima Guang, atendo-se a simplicidade oculta das Primaveras e Outonos; debateu o pensamento com Lu Xiangshan, e lhe mostrou o valor dos textos antigos, dos quais Lu debochava. Afastou o contágio budista das especulações letradas, e defendeu a realização humana neste mundo. Tal coragem e sinceridade custaram caro, e muitas vezes ele foi perseguido; mas era impossível não reconhecer sua sabedoria, e por isso seus escritos foram legitimados como a interpretação correta da tradição letrada.

O terceiro foi Lu Xiangshan; foi seguidor da escola de Kongzi, mas confundiu as questões da alma com as da lei moral e das tradições. Contaminado pelos budistas, deu alguma contribuição sobre o conceito da Mente, mas perdeu-se ao desdenhar os clássicos, perdendo sustentação. Sem raízes, uma árvore não pode frutificar; que seria, pois, de uma amoreira que sufocasse seu tronco e suas ramificações? Lu acreditou eu podia negar suas origens para afirmar o que sabia, e este foi seu erro. Zhuxi também foi um crítico, mas soube compreender o que modificava, e o afirmou com atitude e humildade. Esta foi a diferença fundamental entre os dois.

Quando chegaram os mongóis, a riqueza dos pensadores desta época quase se perdeu. Genghis Khan queria transformar a China numa grande estepe, mas o bravo Yelu Chucai convenceu-o do contrário. Conhecedor dos escritos dos seguidores de Kongzi, do Dao e de Buda, ele conseguiu fazer com que o grande conquistador do Norte se dobrasse ao poder de uma cultura milenar. Persuadiu o Khan de que ele podia aprender mais com os chineses, do que apenas destruí-los; e Temujin acabou, inclusive, buscando a imortalidade com os que seguiam o Dao. Esta é a força da tradição e do saber, que salvam uma civilização.

Mas foi isso que Wang Yang Ming esqueceu, na época em que os Ming tomaram o Mandato Celeste em suas mãos, e colocaram o povo de Han novamente no governo de seu destino. Wang retomou as idéias de Lu, defendendo que o universo encontrava-se dentro da própria mente humana. Este discurso atraente era, igualmente, enganoso; se tudo existe na mente, então, nada existe, posto que tudo seria construído pelo modo que vemos o mundo. Wang esqueceu, porém, que um cego não pode conceber as cores, tal como não se pode saber o sabor de algo sem provar. Esse foi o erro de Wang.

Tempos depois, Wang Fuzhi, seguidor da escola dos letrados, defendeu que a moral se encontra na natureza humana, e esta, ligada a natureza maior de todas as coisas. Logo, é tão natural ao humano ser moral quanto se é vivo, e isso já estaria presente no Tratado das Mutações, comentado linha por linha pelo mestre Kongzi. Tais considerações são simples, porém profundas; renovam o antigo, mas propõem o novo; e trazem à luz a necessidade, sempre, de estudar os clássicos. Por esta razão Wang Fuzhi não foi esquecido, mesmo que seus textos sejam profundos, densos e difíceis de ler.

Com o objetivo de salvar estas tradições é que Huang Zongxi escreveu uma coletânea sobre os pensadores Ming, no momento em que esta dinastia acabava. Seu livro é uma das primeiras histórias dos pensadores, e encadeia a seqüência de suas propostas. Foi seguidor da escola dos letrados, e acreditava no poder da história como exemplo.

O ciclo inevitável das épocas segue inexoravelmente a oposição entre yin e yang. Foi assim que, novamente, a Terra do Centro do Mundo caiu nas mãos de estrangeiros; primeiro foram os manchus, depois as nações do Oeste. O cataclismo se realizou, e foram longos os séculos de agonia do povo. Nem mesmo a riqueza material poderia esconder que os pensadores não estavam sendo ouvidos; os exames públicos tornaram-se ocasiões de favor pessoal; a busca de novas técnicas foi coibida, com medo das reações do povo; a fidelidade corrompeu-se, e o laço particular voltou a reinar.

Foi nesta época que pensadores de valor se levantaram, como Dai Zhen. Seguidor da escola dos letrados, Dai Zhen propôs o resgate de Mengzi, e que o povo deveria se unir contra esta dinastia estranha, os Qing; que os desejos e a razão se complementam, e não se excluem, tal como os pensadores anteriores acreditavam; e que a motivação do desejo, tanto quanto o empenho da razão, trazem a verdadeira sabedoria ao ser humano.

A tradição da escola letrada não arrefeceu, pois. Kang Yuwei, Liang Qichao e Wang Guowei foram três autores deste período que se preocuparam, igualmente, com a redenção do país.

O primeiro, Kang Yuwei, foi um seguidor emérito da escola de Kongzi; defendeu a renovação da educação, a reinterpretação da história, e a busca de conhecimentos novos que pudessem retirar a Civilização da Terra do Centro do Mundo do seu atraso. Ainda que tenha sido combatido e incompreendido por muitos, mostrou seu valor perante todas as circunstâncias, e foi um fiel seguidor dos letrados.

O segundo, Liang Qichao, foi um seguidor da escola de Kongzi; defendeu também a renovação da educação, e defendeu a interpretação da história mundial como a superação da força pela inteligência. Entendia, com isso, o valor moral e intelectual do exemplo, como a historiografia já havia definido faziam séculos. Embora tenha, em certo momento, renunciado ao ideal dos letrados, nunca desistiu de seus valores.

O terceiro, Wang Guowei, foi um seguidor da escola de Kongzi; igualmente defendeu a renovação da educação, mas incorporando idéias das civilizações do Oeste, e adaptando a educação antiga a um método de divisão em três níveis diferentes: intelectual, moral e artístico.

Todos, pois, labutaram sobre a obra do mestre Kongzi; e todos, em sua época, não atingiram o coração da nação. Suas obras não se perderam, porém; e tal como ocorreu como Kongzi e Mengzi, seu valor foi reconhecido e ajudou a modificar o país.

Então, finalmente, a linhagem imperial se findou. Destruída pelos conflitos internos, e espoliada pelos povos do Oeste, como ajuda dos ex-discípulos da Terra do Sol Nascente, a Terra do Centro do Mundo viveu sua crise sem precedentes. Foi massacrada e roubada impiedosamente, e seu orgulho se quebrou como um galho seco. De longe, os pensadores pensavam em como pôr ordem novamente neste mundo, e decidiram usar como remédio um antídoto produzido na origem do próprio mal: os pensamentos das terras do Oeste.

O primeiro destes reformadores foi Sun Yatsen, que pode ser dito um pensador: seguindo o princípio de fundir pensamentos, existente desde a época Han, ele decidiu modificar o modo de governar o país, utilizando antigos conceitos confucionistas junto com a idéia da República, importada dos povos do oeste. Obteve sucesso em derrubar os Qing; mas não conseguiu administrar o país, e morreu cedo. Foi seguido por discípulos incapazes, que em muito colaboraram para a continuidade dos tumultos.

O segundo foi Maozedong, que pode ser dito Maozi; ele uniu os princípios do legismo, utilizados na unificação do país na antiguidade com a doutrina do pensador do oeste Marx, adaptando-a para o caso chinês. Depois de anos de uma luta laboriosa, e de ocasiões em que tudo parecia perdido, ele conseguiu unificar novamente a Terra do Centro do Mundo. Como em todos os casos em que o legismo se fez presente, há excesso e pouca tolerância; Maozi uniu o país, recuperou sua dignidade, fez importantes reformas entre os costumes do povo, e intimidou aos povos do Oeste. No entanto, foi péssimo administrador, foi cruel e insensato muitas vezes, cercou-se de aduladores e perseguiu os letrados. Trouxe fome e calamidades, e a custa de muitos sacrifícios a unidade se manteve. Diferente do imperador de Qin, porém, Mao deu atenção ao povo, e isso definitivamente evitou uma revolta. Hoje, a Terra do Centro do Mundo está novamente unida e poderosa, e funcionários competentes têm mantido este novo regime funcionando. No entanto, os estudos letrados voltaram com toda força, e hoje, a casa que ensina a cultura e a história desta civilização leva o nome do grande mestre Kongzi.

No presente curso dos acontecimentos, são muitos os pensadores que têm resgatado as tradições do pensamento Chinês. Na época das grandes crises, Huishi defendia a absorção do pensamento do oeste como via para recuperação do país; Fung Yulan dedicou-se a difundir as doutrinas de seus conterrâneos em outras partes do mundo, sendo ora seguidor dos letrados, ora seguidor de Maozi; Lin Yutang tinha pavor de Maozi, mas foi um importante conhecedor das tradições antigas - e se nunca propôs qualquer sistema, foi, no entanto, um divulgador ímpar da literatura de seu povo; Mou Zongsan levou a filosofia da mente chinesa para o oeste; Zhang Dainian fez uma síntese dos sistemas do oeste com a estrutura do pensar chinês; e por fim, Anne Cheng tornou-se a filósofa chinesa mais importante fora da Terra do Centro do Mundo, levando a todos o conhecimento desta longa história por meio de um compêndio que honra todas as antigas tradições.

Eu, Anshuzi, humildemente encerro esta história, pedido perdão por todas as suas falhas e omissões. Tal como uma rede de pesca, minha história esta repleta de buracos por onde escorre a água; espero, porém, poder ofertar o fruto deste intento, que são os peixes – e o objetivo principal de qualquer oferta não é o sentido do que se conquista, e não aquilo que se perde?

Mas, como disse Guanzi, devemos ensinar a pescar, antes de tudo; e como disse o mestre Kongzi, devemos mostrar os ângulos de uma questão, de modo que o estudante descubra o resto por si mesmo. Assim, esta singela história buscou apresentar seus personagens principais, seus atos e modos de pensar – da insatisfação com o conhecimento, nasce a verdadeira busca pela sabedoria.

Milênios se passaram
O Celeste seguiu seu curso
E a humanidade viveu cada momento

Que sábios atravessaram
O mundo da prática e do uso
Sem cair no esquecimento?

Como o sábio velho da montanha
Que, esquecendo o tempo,
E visando só a transformação
Assim é a Terra do Centro do Mundo

Sua sobrevivência é sua sanha
A mudança, seu cata-vento
Seu alicerce, a tradição
A sabedoria, seu lado mais profundo

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