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As delicadas tentações do Velho Magistrado


Não há melhor pincel do que aquele feito de pelo do rabo de uma raposa. Mas, como sempre, há regras: primeiro, ele tem que ser um tufo branco, daquela parte que fica na ponta da parte felpuda da cauda; não, pode igualmente, ser tirado por meio de truques ou pela força, mas tem que ser dado por vontade própria pela raposa. Se estas condições forem cumpridas, o pincel terá poderes fabulosos. Ele poderá traçar ideogramas sinuosos, misteriosos e atraentes, como uma raposa a correr pelo mato. Quando uma raposa olha diretamente nos olhos de uma pessoa, este alguém fica paralisado; o pincel de rabo de raposa faz o mesmo, levando as pessoas a descobrir segredos por trás das palavras escritas.

Pois bem, um velho magistrado encantou-se por esta história, e decidiu-se por seduzir uma raposa para conseguir o pincel. Em sua forma animal, porém, as raposas pouco ligam para os humanos, e preferem se divertir os enganado. Em sua forma mágica, contudo, elas se transformam em belíssimas mulheres.

Ora, o magistrado concluiu, acertadamente, que para seduzir ao mesmo tempo uma raposa e uma mulher, nada melhor do que um bom doce de gergelim, coberto com mel e recheado de nozes e pistaches. Durante vários dias, o velho homem tentou, em vão, atrair a raposa com seus docinhos espalhados pelo jardim. As raposas observam, e demoram a se apegar. Elas observam, sempre, para descobrir os interesses ocultos das pessoas.

Talvez por isso, numa noite absolutamente monótona e de atmosfera indiferente, uma mulher de beleza fascinante bateu na porta do magistrado. Encurvado pela idade e boquiaberto com a surpresa, arrastou-se até a entrada para conferir a luxuriosa aparição e supôs, corretamente, que era uma raposa atendendo aos seus convites. Convidou-a então para entrar, mas a sedutora mágica respondeu o seguinte:

- Se eu entrar, você pode me ter por completo e como quiser, e mais nada. Ou então, você pode escolher fazer um outro desejo, que eu atenderia com muito prazer...

É provável que as raposas já soubessem do desejo do velho magistrado, mas a questão não é essa. Diante de tal proposta, ele sondou seus desejos mais íntimos e esquecidos, sentiu suas carnes carcomidas pela idade, pensou em suas vontades nunca realizadas, ponderou, e pediu, humildemente, um tufo branco dos pelos de seu rabo. Ela assentiu, deu-lhe uma mão cheia de sua lã macia e foi-se embora.

Pensou o magistrado: “mas com que idade, ó céu, eu decidi ser sábio!”

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